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precisamos de homens com a capacidade de Lorde Eddard.

Jon sabia que outros homens acusados de traição tinham sido

autorizados a redimir sua honra na Muralha em outros tempos. Por

que não Lorde Eddard? Seu pai, ali. Era um pensamento estranho, e

estranhamente incômodo. Seria uma injustiça monstruosa despojá-lo

de Winterfell e forçá-lo a vestir o negro, mas se isso significasse a

sua vida...

E Joffrey, permitiria? Lembrava-se do príncipe em Winterfell, do

modo como troçara de Robb e de Sor Rodrik no pátio. Em Jon quase

não reparara; os bastardos estavam abaixo até de seu desprezo.

- Senhor, o rei o ouvirá?

O Velho Urso encolheu os ombros.

- Um rei rapaz... imagino que ouvirá a mãe. Ê uma pena que o anão

não esteja com eles. Ê tio do moço e viu as nossas necessidades

quando nos visitou. Foi mau que a senhora sua mãe o tivesse tomado

cativo...

- A Senhora Stark não é minha mãe - recordou-lhe Jon em tom

cortante. Tyrion Lannister fora um amigo para ele. Se Lorde Eddard

fosse morto, ela teria tanta culpa como a rainha. - Senhor, e minhas

irmãs? Arya e Sansa estavam com meu pai. Sabe...

- Pycelle não as menciona, mas sem dúvida que serão bem tratadas.

Perguntarei por elas quando escrever - Mormont abanou a cabeça. -

Isto não podia ter acontecido em pior hora. Se algum dia o reino

precisou de um rei forte... há dias escuros e noites frias à nossa

frente, sinto-o nos ossos... - deu a Jon um longo olhar perspicaz. -

Espero que não esteja pensando em fazer alguma coisa estúpida,

rapaz.

Ele é meu pai, Jon quis dizer, mas sabia que Mormont não ia querer

ouvi-lo. Tinha a garganta seca. Obrigou-se a beber outro gole de

vinho.

- Seu dever agora é aqui - lembrou-lhe o Senhor Comandante. - Sua

vida antiga terminou quando vestiu o negro - sua ave soltou um eco

rouco. "Negro." Mormont não lhe prestou atenção. - O que quer que

façam em Porto Real, não nos diz respeito - como Jon não

respondeu, o idoso homem terminou o vinho e disse: - Está livre

para sair. Não vou precisar mais de você hoje. De manhã, poderá

ajudar-me a escrever a tal carta.

Mais tarde, Jon não tinha memória de ter se levantado ou saído do

aposento privado. Quando caiu em si, descia os degraus da torre,

pensando. É meu pai, são minhas irmãs, como é que pode não me

dizer respeito?

Lá fora, um dos guardas olhou para ele e disse:

- Força, rapaz. Os deuses são cruéis. Eles sabem, Jon compreendeu.

- Meu pai não é traidor nenhum - disse em voz rouca. Até as

palavras ficavam presas na garganta, como que para sufocá-lo. Estava

levantando vento e parecia estar mais frio no pátio do que quando

entrara. O verão dos espíritos aproximava-se do fim.

O resto da tarde passou como num sonho. Jon não poderia dizer por

onde caminhara, o que fizera, com quem falara. Fantasma esteve com

ele, ao menos isso sabia. A presença silenciosa do lobo gigante deu-

lhe conforto. As meninas nem isso têm, pensou. Seus lobos poderiam

tê-las mantido a salvo, mas Lady está morta e Nymeria, perdida, e

elas estão completamente sós,

Um vento do norte começara a soprar quando o sol desceu no

horizonte. Jon ouvia-o uivar contra a Muralha e sobre as ameias

geladas enquanto se encaminhava para a sala comum para a refeição

da noite. Hobb fizera um espesso guisado de veado com cevada,

cebola e cenoura. Quando despejou uma porção extra no prato de

Jon e lhe deu uma ponta de pão, entendeu o que isso queria dizer.

Ele sabe, Olhou em volta da sala, viu cabeças que se viravam

depressa, olhos polidamente desviados. Todos eles sabem.

Os amigos convergiram na sua direção.

- Pedimos ao septão para acender uma vela pelo seu pai - disse-lhe

Matthar.

- É mentira, todos sabemos que é mentira, até o Grenn sabe que é

mentira - acrescentou Pyp. Grenn confirmou com a cabeça, e Sam

agarrou a mão de Jon.

- Você é agora meu irmão, portanto, ele é também meu pai - disse o

rapaz gordo. - Se quiser ir até os represeiros e orar aos deuses

antigos, irei com você.

Os represeiros ficavam para lá da Muralha, mas Jon sabia que Sam

era sincero. São meus irmãos, pensou. Tanto como Robb, Bran e

Rickon...

E então ouviu a gargalhada, afiada e cruel como um chicote, e a voz

de Sor Alliser Thorne.

- Não basta ser bastardo, é bastardo de um traidor - dizia aos

homens que o rodeavam. Num piscar de olhos Jon tinha saltado para

cima da mesa, de punhal na mão. Pyp tentou

agarrá-lo, mas ele libertou a perna e correu a toda velocidade pela

mesa e arrancou a tigela da mão de Sor Alliser com um pontapé.

Saltou guisado para todo o lado, salpicando os irmãos. Thorne

recuou. Soavam gritos, mas Jon Snow não os ouvia. Atacou o rosto

de Sor Alliser com o punhal, mirando naqueles frios olhos de ônix,

mas Sam atirou-se no meio dos dois e, antes que Jon conseguisse

acertá-lo, Pyp saltou sobre suas costas, agarrando-se como um

macaco, e Grenn segurou seu braço enquanto Sapo lhe arrancava a

faca das mãos.

Mais tarde, muito mais tarde, depois de o terem escoltado até sua

cela, Mormont desceu para visitá-lo, com o corvo ao ombro.

- Disse-lhe para não fazer nada de estúpido, moço - resmungou o

Velho Urso. "Moço", papagueou o pássaro. Mormont abanou a

cabeça, desgostoso. - E pensar que tinha grandes esperanças para

você.

Tiraram-lhe a faca e a espada e disseram-lhe que não devia deixar a

cela até que os grandes oficiais se reunissem para decidir o que

fariam com ele, E depois colocaram um guarda à sua porta para se

assegurarem de que obedeceria. Os amigos não estavam autorizados

a visitá-lo, mas o Velho Urso cedeu e o deixou ficar com Fantasma;

portanto, não estava completamente só.

- Meu pai não é traidor nenhum - disse ao lobo selvagem quando os

outros se foram. Fantasma o olhou em silêncio. Jon deixou-se cair,

encostado à parede, com as mãos em volta dos joelhos, e fixou os

olhos na vela que estava sobre a mesa ao lado de sua cama estreita.

A chama oscilou e tremeluziu, as sombras moveram-se à sua volta, a

sala pareceu ficar mais escura e mais fria. Esta noite não vou dormir,

Jon pensou.

Mas deve ter adormecido. Quando acordou, sentia as pernas rígidas e

com cãibras, e a vela há muito ardera por completo. Fantasma estava

em pé sobre as patas traseiras, arranhando a porta. Jon ficou

surpreso ao ver como o animal estava alto,

- Fantasma, o que se passa? - disse em voz baixa. O lobo selvagem

virou a cabeça e o olhou, mostrando as presas num rosnido

silencioso. Terá enlouquecido?, Jon perguntou a si mesmo. -Sou eu,

Fantasma - murmurou, tentando não mostrar medo na voz. Mas

estava tremendo, e violentamente. Quando o ar ficara tão frio?

Fantasma afastou-se da porta. Havia profundos sulcos onde ele

raspara a madeira. Jon o observou com uma inquietação crescente.

- Há alguém lá fora, não há? - sussurrou. Apertando-se contra o

chão, o lobo gigante rastejou para trás, com o pelo branco eriçando-