maior que ele, buum, buum, buum,
Bran os viu chegar de uma torre de guarda no topo da muralha
exterior, vigiando através da luneta de bronze de Meistre Luwin
enquanto se equilibrava nos ombros de Hodor. Era o próprio Lorde
Rickard que os liderava, com os filhos Harrion, Eddard e Tosshen
cavalgando ao seu lado sob estandartes negros como a noite,
adornados com o resplendor branco de sua Casa. A Velha Ama dizia
que eles possuíam sangue Stark há centenas de anos, mas aos olhos
de Bran não se pareciam com os Stark. Eram homens grandes e
ferozes, com os rostos cobertos por barbas espessas, e usavam os
cabelos soltos abaixo dos ombros. Seus mantos eram feitos de peles
de urso, foca e lobo.
Sabia que eram os últimos. Os outros senhores já estavam lá com as
suas tropas. Bran ansiava por cavalgar entre eles, para ver as casas
da Vila de Inverno cheias até rebentar, as multidões aos encontrões
no mercado todas as manhãs, as ruas rasgadas e corroídas pelas
rodas e pelos cascos, Mas Robb proibira-o de deixar o castelo.
- Não temos homens que possamos dispensar para protegê-lo - seu
irmão explicou.
- Eu levo Verão - Bran insistiu.
- Não aja como um garotinho comigo, Bran - Robb pediu. - Você
sabe bem que não é assim tão simples. Não faz mais de dois dias que
um dos homens de Lorde Bolton esfaqueou um dos de Lorde Cerwyn
no Barrote Fumegante. Nossa mãe me esfolaria se deixasse que você
se pusesse em risco - dissera aquilo com a voz de Robb, o Senhor;
Bran sabia que isso queria dizer que não haveria apelo.
Sabia que era por causa do que acontecera na Mata de Lobos. A
recordação ainda lhe causava pesadelos. Sentira-se impotente como
um bebê, não tinha sido mais capaz de se defender do que Rickon o
teria. Menos até... Rickon, pelo menos, os teria chutado. Isso o
envergonhava. Era apenas alguns anos mais novo que Robb; se o
irmão era quase um homem-feito, também ele o era. Devia ter sido
capaz de proteger a si mesmo.
Um ano antes, antes, teria visitado a vila mesmo que isso significasse
subir as muralhas pelos seus próprios meios. Naquela época, podia
correr por escadas abaixo, subir e descer sozinho do pônei, e brandir
uma espada de madeira suficientemente bem para atirar o Príncipe
Tommen ao chão. Agora, só podia observar, espreitando pelo tubo
das lentes de Meistre Luwin. O meistre ensinara-lhe todos os
estandartes: o punho revestido de cota de malha dos Glover,
prateado sobre escarlate; o urso negro da Senhora Mormont; o
hediondo homem esfolado que precedia
Roose Bolton, do Forte do Pavor; um alce macho para os Hornwood;
um machado de batalha para os Cerwyn; três árvores-sentinelas para
os Tallhart; e o temível símbolo da Casa Umber, um gigante a rugir
com correntes quebradas.
E em breve ficou também conhecendo os rostos, quando os senhores
e seus filhos e cavaleiros vieram a Winterfell para os banquetes. Nem
o Grande Salão tinha tamanho que chegasse para que todos se
sentassem ao mesmo tempo e, portanto, Robb recebeu os principais
vassalos um de cada vez. A Bran era sempre dado o lugar de honra, à
direita do irmão. Alguns dos senhores vassalos davam-lhe estranhos e
duros olhares quando se sentava ali, como se se perguntassem com
que direito um rapazinho ainda verde, e ainda por cima aleijado, era
colocado acima deles.
- Quantos são agora? - perguntou Bran a Meistre Luwin quando
Lorde Karstark e os filhos entraram a cavalo pelos portões da
muralha exterior.
- Doze mil homens, ou tão perto disso que não faz diferença.
- Quantos cavaleiros?
- Bem poucos - disse o meistre com um ar de impaciência. - Para ser
armado cavaleiro, é preciso ficar de vigília num septo e ser ungido
com os sete óleos para consagrar os votos. No Norte, só um punhado
das grandes Casas reza aos Sete. Os outros honram os deuses
antigos e não armam cavaleiros... mas esses senhores, seus filhos e
seus soldados não são menos ferozes, leais ou honrados por causa
disso. O valor de um homem não se determina por um sor antes de
seu nome. Tal como já vos disse cem vezes.
- Mesmo assim - disse Bran -, quantos cavaleiros? Meistre Luwin
suspirou.
- Trezentos, talvez quatrocentos... entre três mil homens com
armadura que não são cavaleiros.
- Lorde Karstark é o último - disse Bran, pensativo. - Robb dará um
banquete em sua honra esta noite.
- Sem dúvida que sim.
- Quanto tempo falta até que. . até que partam?
- Têm de marchar em breve, ou não marcharão - disse Meistre
Luwin. - A Vila de Inverno está cheia até rebentar, e este exército
comerá tudo o que existe nos campos se acampar aqui durante
muito tempo. Há outros à espera de se juntarem a eles ao longo da
Estrada do Rei, cavaleiros das Terras Acidentadas, cranogmanos e os
senhores Manderly e Flint.Já se luta nas terras do rio, e seu irmão
tem muitas léguas a transpor.
- Eu sei - Bran sentia-se tão infeliz como soava. Devolveu a luneta de
bronze ao meistre e reparou como seus cabelos haviam se tornado
finos no topo da cabeça. Conseguia ver o rosado do couro cabeludo
começando a aparecer. Era estranho olhar assim de cima para ele,
quando passara toda a vida a olhá-lo de baixo; mas quando se andava
"de cavalinho" sobre Hodor, olhava-se de cima para todo mundo. -
Não quero observar mais. Hodor, leve-me de volta à fortaleza.
- Hodor - Hodor ecoou.
Meistre Luwin enfiou a luneta na manga.
- Bran, o senhor seu irmão não terá tempo para você agora. Tem de
receber Lorde Karstark e os filhos e fazer com que se sintam bem-
vindos.
- Não vou incomodar Robb. Quero visitar o bosque sagrado - pousou
a mão no ombro de Hodor. - Hodor.
Uma série de apoios de mão cortados a cinzel no granito formava
uma escada na parede interna da torre. Hodor desceu, uma mão após
outra, enquanto cantarolava sem melodia e Bran balançava de
encontro às suas costas no assento de madeira que Meistre Luwin
fabricara para ele. Luwin se baseara na ideia dos cestos que as
mulheres usavam para transportar lenha nas costas; depois disso,
recortar buracos para as pernas e adicionar algumas correias novas
para distribuir o peso de Bran mais uniformemente fora coisa
simples. Não era tão bom como montar a Dançarina, mas havia
lugares onde a Dançarina não podia ir, e assim Bran não ficava tão
envergonhado como quando Hodor o transportava nos braços como
se fosse um bebê. Hodor também parecia gostar, se bem que com ele
era difícil ter certeza. A única parte complicada eram as portas. Às
vezes, Hodor esquecia-se de que levava Bran nas costas, e isso podia
ser doloroso quando atravessavam uma porta»
Ao longo de quase uma quinzena tinha havido tantas entradas e
saídas que Robb ordenara que ambas as portas levadiças se
mantivessem içadas e a ponte levadiça entre elas, descida, mesmo na
noite profunda. Uma longa coluna de lanceiros cobertos de armadura
atravessava o fosso entre as muralhas quando Bran saiu da torre;
homens dos Karstark, seguindo seus senhores para dentro do castelo.