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Usavam meios elmos de ferro negro e mantos negros de lã

adornados com o sol raiado branco. Hodor trotou ao lado deles,

sorrindo para si mesmo, fazendo ressoar as botas na madeira da

ponte levadiça. Os soldados lançaram-lhes olhares estranhos ao vê-los

passar, e uma vez Bran ouviu alguém soltar uma gargalhada.

Recusou-se a deixar que aquilo o perturbasse.

- Os homens olharão para você - prevenira-o Meistre Luwin da

primeira vez que tinham atado o assento ao peito de Hodor. -

Olharão e falarão, e alguns zombarão - pois que zombem, pensara

Bran. Ninguém zombava dele no seu quarto, mas não queria viver a

vida na cama.

Ao passarem sob a porta levadiça da casa da guarda, Bran pôs dois

dedos na boca e assobiou. Verão veio aos saltos pelo pátio afora. De

repente, os lanceiros Karstarks lutavam para manter o controle dos

cavalos, enquanto os animais viravam os olhos e relinchavam de

medo. Um garanhão empinou-se, gritando, enquanto o cavaleiro

praguejava e se agarrava desesperadamente. O cheiro dos lobos

selvagens punha os cavalos num frenesi de medo se não estivessem

habituados, mas se aquietariam rapidamente quando Verão fosse

embora.

- O bosque sagrado - Bran lembrou a Hodor.

Até mesmo Winterfell estava cheio de gente. O pátio ressoava com o

som de espadas e machados, com o estrondear das carroças e o

ladrar dos cães. As portas do armeiro estavam abertas, e Bran viu de

relance Mikken na sua forja, fazendo tinir o martelo enquanto suor

lhe pingava do peito nu. Bran nunca vira tantos estranhos em toda

sua vida, nem mesmo quando o Rei Robert viera visitar seu pai.

Tentou não vacilar quando Hodor se abaixou para atravessar uma

porta baixa. Caminharam por um longo átrio sombrio, com Verão

acompanhando facilmente o passo. O lobo olhava para cima de vez

em quando, com os olhos ardendo como ouro líquido. Bran teria

gostado de tocá-lo, mas estava alto demais para que a mão nele

chegasse.

O bosque sagrado era uma ilha de paz no mar de caos em que

Winterfell tinha se transformado. Hodor abriu caminho através dos

densos maciços de carvalho, pau-ferro e árvores--sentinelas até a

lagoa parada junto à árvore-coração. Parou sob os ramos nodosos do

represeiro cantarolando. Bran ergueu os braços acima da cabeça e

alçou-se para fora do assento, fazendo passar o peso morto das

pernas através dos buracos do cesto. Ficou pendurado por um

momento, oscilando, com as folhas vermelho-escuras roçando-lhe no

rosto, até que Hodor o pegou e o abaixou até a pedra lisa ao lado da

água.

- Quero ficar um pouco sozinho - disse. - Vá se molhar. Vá até as

lagoas.

- Hodor - o gigante seguiu através das árvores e desapareceu. Do

outro lado do bosque sagrado, sob as janelas da Casa de Hóspedes,

uma nascente quente subterrânea alimentava três pequenos charcos.

Saía vapor das águas dia e noite, e o muro que se erguia ao lado

estava coberto de musgo. Hodor detestava água fria e lutava como

um gato selvagem refugiado numa árvore sempre que era ameaçado

com sabão, mas entrava alegremente no charco mais quente e ficava

lá sentado durante horas, soltando um sonoro arroto para fazer eco à

nascente sempre que uma bolha se erguia das sombrias profundezas

verdes e se quebrava na superfície.

Verão bebeu um pouco de água e deitou-se ao lado de Bran. Este fez

um afago sob o focinho do lobo, e por um momento rapaz e animal

sentiram-se em paz. Bran sempre gostara do bosque sagrado, mesmo

antes, mas nos últimos tempos achara-se cada vez mais atraído para

lá. Até a árvore-coração já não o assustava como costumava antes.

Os profundos olhos vermelhos esculpidos no tronco claro ainda o

observavam, mas, de algum modo, agora tirava conforto disso. Os

deuses olhavam por ele, dizia a si mesmo, os deuses antigos, deuses

dos Stark, dos Primeiros Homens e dos Filhos da Floresta, os deuses

do seu pai. Sentia-se seguro à vista deles, e o profundo silêncio das

árvores o ajudava a pensar. Bran tinha passado a pensar muito desde

a queda; a pensar, a sonhar e a falar com os deuses.

- Por favor, façam com que Robb não vá embora - rezou em voz

baixa. Moveu a mão pela água fria, criando ondinhas que

atravessaram a lagoa. - Por favor, façam com que ele fique. Ou, se

tiver de ir, tragam-no a salvo para casa, com a mãe e o pai e as

meninas. E façam com que... façam com que Rickon compreenda.

O irmão mais novo tornara-se incontrolável como uma tempestade

de inverno desde que soubera que Robb ia partir para a guerra, ora

choroso, ora zangado. Recusava-se a comer, chorava e gritava noite

adentro, chegara mesmo ao ponto de dar um soco na Velha Ama

quando ela tentou embalá-lo com canções, e no dia seguinte

desapareceu. Robb pusera metade do castelo à sua procura, e quando

finalmente o encontraram lá embaixo, nas criptas, Rickon golpeara-os

com uma enferrujada espada que tirara da mão de um rei morto, e

Cão Felpudo saltara da escuridão, babando como um demônio de

olhos verdes. O lobo estava quase tão fora de controle como Rickon;

mordera Gage no braço e arrancara um pedaço da coxa de Mikken.

Só o próprio Robb e Vento Cinzento tinham logrado acalmá-lo,

Farlen mantinha-o agora acorrentado nos canis, e Rickon chorava

ainda mais por estar sem ele.

Meistre Luwin aconselhara Robb a permanecer em Winterfell, e Bran

também lhe pedira, tanto por si como por Rickon, mas o irmão

limitara-se a balançar teimosamente a cabeça e a dizer:

- Não quero ir. Tenho de ir.

Era só meia mentira. Alguém tinha de ir, para defender o Gargalo e

ajudar os Tully contra os Lannister, Bran compreendia isso, mas não

tinha de ser Robb. O irmão podia ter dado o comando a Hal Mollen

ou a Theon Greyjoy, ou a um dos senhores seus vassalos. Meistre

Luwin insistiu para que fizesse isso mesmo, mas Robb não queria

ouvir falar do assunto.

- O senhor meu pai nunca enviaria homens para a morte para se

esconder como um covarde atrás das muralhas de Winterfell -

dissera, todo ele Robb, o Senhor.

Robb agora parecia a Bran quase um estranho, transformado, um

senhor de verdade, embora não tivesse ainda passado pelo décimo

sexto dia do seu nome. Até os vassalos do pai pareciam senti-lo.

Muitos tentavam testá-lo, cada um à sua maneira. Tanto Roose

Bolton como Robett Glover exigiram a honra do comando de batalha,

o primeiro de forma brusca, o segundo com um sorriso e um

gracejo. A resoluta e grisalha Maege Mormont, vestida de cota de

malha como se fosse um homem, disse abruptamente a Robb que ele

tinha idade para ser seu neto e que não tinha nada que lhe dar

ordens. ., mas acontecia que tinha uma neta com a qual estava

disposta a deixá-lo se casar. Lorde Cerwyn, um homem de falas

mansas, tinha até mesmo trazido consigo a filha, uma donzela

rechonchuda e desajeitada de trinta anos, que se sentou à esquerda

do pai e nunca levantou os olhos do prato. O jovial Lorde Hornwood