Выбрать главу

não pudesse beber era algo de impuro; as agitadas planícies verde-

acinzentadas do oceano enchiam-nos com uma repugnância

supersticiosa. Dany descobrira que Drogo era mais corajoso que os

outros senhores dos cavalos em meia centena de maneiras

diferentes. . mas naquilo, não. Se ao menos conseguisse levá-lo a

entrar num navio...

Depois de o khal e os companheiros de sangue terem partido com

seus arcos, Dany mandou chamar as aias. Sentia agora o corpo tão

gordo e desajeitado que acolhia de bom grado a ajuda de seus fortes

braços e mãos hábeis, ao passo que antes se sentia frequentemente

desconfortável com o modo como elas se agitavam e volteavam ao

seu redor. Limparam-na e vestiram-na com sedareia, leve e solta.

Enquanto Doreah lhe escovava os cabelos, mandou Jhiqui à procura

de Sor Jorah Mormont.

O cavaleiro veio de imediato. Trazia calções de pelo de cavalo e um

colete pintado, como um dothraki. Rudes pelos negros cobriam-lhe o

peito largo e os braços musculosos.

- Minha princesa. Como posso servi-la?

- Precisa falar com o senhor meu marido. Drogo diz que o garanhão

que monta o mundo terá todas as terras para governar e não

precisará atravessar a água venenosa. Fala em levar o kha-lasar para

o leste depois de Rhaego nascer, a fim de saquear as terras em torno

do Mar de Jade.

O cavaleiro ficou pensativo.

- O khal nunca viu os Sete Reinos - ele respondeu. - Para ele, não são

nada. Se chega a pensar neles, não há dúvida que pensa em ilhas,

algumas cidades pequenas agarradas às rochas à maneira de Lorath

ou Lys, rodeadas por mares tempestuosos. As riquezas do leste

devem parecer-lhe uma possibilidade mais tentadora.

- Mas ele tem de ir para oeste - disse Dany, desesperada. - Por favor,

ajude-me a fazê-lo compreender - ela também nunca vira os Sete

Reinos, tal como Drogo, mas era como se os conhecesse de todas as

histórias que o irmão lhe contara. Viserys prometera-lhe mil vezes

que um dia a levaria de volta, mas agora estava morto e as

promessas tinham morrido com ele.

- Os dothrakis fazem as coisas ao seu ritmo, pelas suas razões -

respondeu o cavaleiro. -Tenha paciência, princesa. Não cometa o erro

do seu irmão. Iremos para casa, prometo-lhe.

Casa? A palavra a fez sentir-se triste. Sor Jorah tinha sua Ilha dos

Ursos, mas o que era casa para ela? Algumas histórias, nomes

recitados tão solenemente como as palavras de uma prece, a

memória que se atenuava de uma porta vermelha... Estaria Vaes

Dothrak destinada a ser a sua casa para sempre? Quando olhava

para as feiticeiras do dosh khaleen, estaria olhando para o seu

futuro?

Sor Jorah deve ter visto a tristeza em seu rosto.

- Uma grande caravana chegou durante a noite, khaleesi.

Quatrocentos cavalos vindos de Pentos, via Norvos e Qohor, sob o

comando do Capitão Mercador Byan Votyris. Illyrio pode ter enviado

uma carta. Deseja visitar o Mercado Ocidental?

Dany agitou-se.

- Sim. Gostaria - os mercados ganhavam vida quando uma caravana

chegava. Nunca se sabia que tesouros os comerciantes poderiam

trazer, e seria bom voltar a ouvir homens a falar valiriano, como nas

Cidades Livres. - Irri, diga-lhes para prepararem uma liteira.

- Vou dizer ao seu khas - disse Sor Jorah, retirando-se.

Se Khal Drogo estivesse com ela, Dany teria montado sua prata.

Entre os dothrakis, as mães permaneciam montadas quase até o

momento do parto, e ela não queria parecer fraca aos olhos do

marido. Mas com o khal longe, na caça, era agradável encostar-se a

almofadas suaves e ser transportada através de Vaes Dothrak, com

cortinas de seda vermelha para protegê-la do sol. Sor Jorah selou o

cavalo e seguiu a seu lado, com os quatro jovens do seu khas e as

aias.

O dia estava quente e sem nuvens, o céu de um azul profundo.

Quando o vento soprava, Dany conseguia sentir os ricos odores das

plantas e da terra. A medida que a liteira ia passando sob os

monumentos roubados, passava da sombra para o sol, e de volta à

sombra, balançando, estudando o rosto de heróis mortos e de reis

esquecidos. Perguntou a si mesma se os deuses de cidades queimadas

ainda podiam atender a preces.

Se eu não fosse do sangue do dragão, pensou, melancólica, esta

poderia ser a minha casa. Era khaleesi, tinha um homem forte e um

cavalo rápido, aias para servi-la, guerreiros para mantê-la a salvo, um

lugar de honra no dosh khaleen à sua espera quando envelhecesse,,. e

no seu ventre crescia o filho que um dia montaria o mundo. Isso

seria suficiente para qualquer mulher..., mas não para o dragão. Com

Viserys morto, Daenerys era a última, a última mesmo. Pertencia à

linhagem de reis e conquistadores, e o mesmo acontecia ao filho que

trazia na barriga. Não podia esquecê-lo.

O Mercado Ocidental era uma grande praça de terra batida rodeada

por coelheiras de tijolo de barro cozido, recintos para animais, salas

caiadas para se refrescar. Outeiros elevavam-se do chão como se

fossem dorsos de grandes animais subterrâneos que rompiam a

superfície, com bocejantes bocas negras que levavam a frios e

cavernosos armazéns subterrâneos. O interior da praça era um

labirinto de barracas e passagens retorcidas, ensombradas por toldos

de hera entretecida.

Uma centena de mercadores e comerciantes descarregavam suas

mercadorias e instalavam-se em barracas depois que chegaram, mas,

mesmo assim, o grande mercado parecia silencioso e deserto quando

comparado com os bazares apinhados que Dany recordava dos

tempos passados em Pentos e nas outras Cidades Livres. As

caravanas dirigiam-se a Vaes Dothrak, vindas do leste e do oeste, não

tanto para vender aos dothrakis como para comerciar umas com as

outras, explicou Sor Jorah. Os cavaleiros deixavam-nas ir e vir sem

ser incomodadas, desde que mantivessem a paz da cidade sagrada,

não profanassem a Mãe das Montanhas ou o Ventre do Mundo e

honrassem as feiticeiras do dosh khaleen com os presentes

tradicionais de sal, prata e sementes. Os dothrakis não

compreendiam verdadeiramente este negócio de compras e vendas.

Dany também gostava da estranheza do Mercado Oriental, com todas

as invulgares visões, sons e cheiros que lá havia. Passava com

frequência suas manhãs ali, mordiscando ovos de árvore, torta de

gafanhotos e tiras de massa verde, escutando as agudas vozes

ululantes dos encantores, embasbacando-se perante manticoras em

jaulas de prata, imensos elefantes cinzentos e os cavalos listrados de

preto e branco de Jogos Nhai. Também gostava de observar as

pessoas: os escuros e solenes Asshafi e os altos e claros Qartheens, os

homens de olhos brilhantes de Yi Ti com seus chapéus de cauda de

macaco, as donzelas guerreiras de Bayasabhad, Shamyriana e

Kayakayanaya com anéis de ferro nos mamilos e rubis nas bochechas,

e até mesmo os severos e assustadores Homens das Sombras, que

cobriam os braços e as pernas com tatuagens e escondiam o rosto

atrás de máscaras. Para Dany, o Mercado Oriental era um lugar de