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maravilha e magia.

Mas o Mercado Ocidental cheirava a casa.

Enquanto Irri e Jhiqui a ajudavam a sair da liteira, inspirou e

reconheceu os cheiros vivos do alho e da pimenta, fragrâncias que

lhe lembravam dias há muito passados nas vielas de Tyrosh e Myr e

lhe trouxeram um leve sorriso aos lábios. Por baixo daqueles odores

sentiu os pesados perfumes doces de Lys. Viu escravos transportando

braçadas da intrincada renda de Myr e boas lãs numa dúzia de cores

ricas. Guardas de caravana vagueavam pelas passagens com capacetes

de cobre e túnicas até os joelhos de algodão amarelo acolchoado,

com bainhas de espadas vazias pendendo de cintos de couro

trançado. Atrás de uma barraca, um armeiro exibia placas peitorais

de aço, trabalhadas com ouro e prata em padrões intrincados, e

elmos batidos até tomar a forma de animais extravagantes. Ao seu

lado estava uma jovem bonita vendendo ourivesaria de Lannisporto,

anéis, broches, colares e medalhões magnificamente trabalhados,

bons para fazer cintos. Um enorme eunuco guardava-lhe a barraca,

mudo e calvo, vestido com veludos manchados de suor e fechando a

cara a todos que se aproximassem. Em frente, um gordo comerciante

de tecidos de Yi Ti regateava com um pentoshi o preço de um

corante verde qualquer, fazendo oscilar de um lado para o outro a

cauda de macaco do chapéu quando abanava a cabeça.

- Quando era menina adorava brincar no bazar - disse Dany a Sor

Jorah enquanto vagueavam pela passagem coberta entre as barracas.

- Era um lugar tão vivo, com todo mundo gritando e rindo, tantas

coisas maravilhosas para admirar... embora raramente tivéssemos

dinheiro suficiente para comprar alguma coisa... Bem, exceto uma

salsicha de vez em quando, ou dedos-de-mel... Há dedos-de-mel nos

Sete Reinos, como os que fazem em Tyrosh?

- São bolos? Não sei dizer, princesa - o cavaleiro fez uma reverência.

- Se me liberar por algum tempo, irei em busca do capitão para ver

se tem letras para nós.

- Muito bem. Ajudarei a encontrá-lo.

- Não há necessidade de se incomodar. - Sor Jorah afastou o olhar

com impaciência. - Desfrute do mercado. Volto quando concluir os

meus assuntos.

Curioso, pensou Dany enquanto o observava afastar-se a passos

largos por entre a multidão. Não compreendia por que não devia ir

com ele. Talvez Sor Jorah pretendesse encontrar uma mulher depois

de se reunir com o capitão mercador. Sabia que era frequente

prostitutas viajarem com as caravanas, e alguns homens eram

estranhamente tímidos a respeito de suas vidas íntimas. Encolheu os

ombros.

- Venham - disse aos outros.

As aias seguiram-na quando Dany reatou o passeio pelo mercado.

- Ah, olha - exclamou para Doreah -, é aquele o tipo de salsicha de

que falava - apontava para uma barraca onde uma mulherzinha

mirrada grelhava carne e cebolas numa pedra quente.

- São preparadas com montes de alho e malaguetas - deliciada com a

descoberta, Dany insistiu para que os outros a acompanhassem para

comer salsicha. As aias devoraram as suas, aos risinhos e sorrisinhos,

embora os homens do seu khas cheirassem com suspeita a carne

grelhada. - Têm um sabor diferente do que eu recordava - disse

Dany depois das primeiras dentadas.

- Em Pentos, eu as fazia com carne de porco - disse a velha -, mas

todos os meus porcos morreram no mar dothraki. Estas são feitas

com carne de cavalo, khaleesi, mas eu as tempero da mesma forma.

- Ah - Dany sentiu-se desapontada, mas Quaro gostou tanto da sua

salsicha que decidiu comer outra, e Rakharo o superou, comendo

mais três e arrotando sonoramente. Dany riu.

- E a primeira vez que ri desde que vosso irmão, o Khal Rhaggat, foi

coroado por Drogo

- disse Irri, - É bom de ver, khaleesi.

Dany deu um sorriso tímido. Realmente era bom rir. Sentia-se quase

menina de novo.

Vaguearam durante metade da manhã. Dany viu um belo manto de

penas das Ilhas do Verão e o obteve de presente. Em troca, deu ao

mercador um medalhão de prata que tirou do cinto. Era assim que

as coisas eram feitas entre os dothrakis. Um vendedor de aves

ensinou um papagaio verde e vermelho a dizer o seu nome, e Dany

voltou a rir, mas recusou-se a ficar com ele. Que faria ela com um

papagaio vermelho e verde num khalasar? Já ficara com uma dúzia

de frascos de óleos aromáticos, os perfumes da sua infância; bastava

fechar os olhos e senti-los para voltar a ver a casa grande de porta

vermelha. Quando Doreah se pôs a olhar ansiosamente para um

amuleto de fertilidade na tenda de um mago, Dany também ficou

com ele e o deu à aia, pensando que agora tinha de encontrar

também qualquer coisa para Irri e Jhiqui.

Ao virar uma esquina, depararam com um negociante de vinhos que

oferecia taças do tamanho de dedais de seus produtos a quem

passava por ali.

- Tintos doces - gritou em fluente dothraki -, tenho tintos doces, de

Lys, de Volantis e da Árvore. Brancos de Lys. Aguardente de pera de

Tyrosh, vinhardente, vinho apimentado e os néctares verde-claros de

Myr. Castanhos de baga-fumo e amargos dos ándalos, tenho todos

- era um homem pequeno, esguio e bonito, com cabelos louros

ondulados e perfumados à maneira de Lys. Quando Dany parou na

frente da barraca, o homem fez uma profunda reverência.

- A khaleesi deseja uma prova? Tenho um tinto doce de Dorne,

senhora, que canta uma canção de passas, cerejas e rico carvalho

escuro. Um barril, uma taça, um gole? Bastará que o prove, e darei a

seu filho o meu nome. Dany sorriu.

- Meu filho já tem nome, mas vou experimentar o vinho de verão -

disse, em valiriano, aquele valiriano que falavam nas Cidades Livres.

Sentiu as palavras estranhas na língua, depois de tanto tempo. - Só

uma gota, por gentileza.

O mercador devia tê-la tomado por uma dothraki, devido aos seus

trajes, aos cabelos oleados e à pele bronzeada. Quando falou, o

homem abriu a boca de espanto.

- Senhora, é.. tyroshi? Poderá ser?

- Minha fala pode ser tyroshi, e os meus trajes, dothrakis, mas sou de

Westeros, dos Reinos do Poente - disse-lhe Dany.

Doreah aproximou-se.

- Tem a honra de se dirigir a Daenerys da Casa Targaryen, Daenerys,

Filha da Tormenta, khaleesi dos homens a cavalo e princesa dos Sete

Reinos.

O mercador de vinhos caiu de joelhos.

- Princesa - disse, abaixando a cabeça.

- Erga-se - Dany ordenou. - Ainda gostaria de provar esse vinho de

verão de que falou. O homem pôs-se em pé de um salto.

- Isso? Zurrapa de Dorne. Não é digno de uma princesa. Tenho um

tinto seco da Árvore, vivo e agradável. Por favor, deixe-me oferecer

um barril.

As visitas de Khal Drogo às Cidades Livres tinham lhe deixado o

gosto por bom vinho, e Dany sabia que uma colheita tão nobre lhe

agradaria.

- Honra-me, sor - murmurou docemente,

- A honra é minha - o mercador esquadrinhou os fundos da barraca

e voltou com uma pequena barrica de carvalho. Via-se um cacho de

uvas desenhado a fogo na madeira. - O símbolo dos Redwyne - disse,

apontando -, da Árvore. Não há bebida mais fina.

- Khal Drogo e eu a partilharemos. Aggo, leva isto para a liteira, por