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gentileza - o vendedor de vinhos mostrou-se radiante quando o

dothraki ergueu o barril.

Dany só reparou que Sor Jorah tinha regressado quando ouviu o

cavaleiro dizer:

- Não - tinha a voz estranha, brusca. - Aggo, coloque esse barril aí.

Aggo olhou para Dany. Ela anuiu, hesitante.

- Sor Jorah, o que há?

- Tenho sede. Abra-o, vendedor.

O mercador franziu as sobrancelhas.

- O vinho é para a khaleesi, não para homens da sua laia, sor. Sor

Jorah aproximou-se da barraca.

- Se não o abrir, parto-o na sua cabeça - ali, na cidade sagrada, não

se transportavam armas a não ser as mãos.. mas as mãos eram o

bastante, grandes, duras e perigosas, com os nós dos dedos cobertos

de rudes pelos escuros. O vendedor de vinhos hesitou um momento,

mas depois pegou no martelo e arrancou o tampão do barril.

- Sirva - ordenou Sor Jorah. Os quatro jovens guerreiros do khas de

Dany dispuseram-se atrás dele, franzindo as sobrancelhas,

observando com seus olhos escuros e amendoados.

- Seria um crime beber um vinho tão rico sem deixá-lo respirar - o

vendedor de vinhos não largara o martelo.

Jhogo estendeu a mão para o chicote que trazia à cintura, mas Dany

o fez parar com um ligeiro toque no braço.

- Faça como diz Sor Jorah - disse. Havia pessoas que paravam para

ver o que se passava. O homem deu um olhar rápido e carrancudo.

- As ordens da princesa - teve de pôr de lado o martelo para erguer

o barril. Encheu duas taças de prova do tamanho de dedais,

despejando tão habilmente o vinho que não derramou uma gota.

Sor Jorah ergueu uma taça e cheirou o vinho, de testa franzida.

- É doce, não é? - disse o vendedor de vinhos, sorrindo. - Conseguiu

sentir o aroma da fruta, sor? O perfume da Árvore. Prove-o, senhor,

e diga-me se não é o mais fino, o mais rico vinho que alguma vez

tocou vossa língua.

Sor Jorah ofereceu-lhe a taça.

- Prove-o você primeiro,

- Eu? - o homem soltou uma gargalhada. - Eu não sou digno deste

vinho, senhor. E o mercador de vinhos que bebe a própria

mercadoria é um pobre mercador - seu sorriso era amigável, mas

Dany conseguia ver o reflexo do suor na sua testa.

- Irá beber - disse Dany, fria como gelo. - Esvazie a taça, senão lhes

digo para que o segurem enquanto Sor Jorah despeja o barril inteiro

pela sua goela abaixo.

O vendedor de vinhos encolheu os ombros, estendeu a mão para a

taça... mas agarrou o barril, atirando-o com as duas mãos. Sor Jorah

atirou-se sobre Dany, afastando-a com um empurrão. A barrica

quicou no ombro do cavaleiro e esmagou-se no chão. Dany tropeçou

e perdeu o equilíbrio.

- Não - gritou, atirando as mãos para a frente a fim de aparar a

queda... Doreah a agarrou pelo braço e a puxou para trás, de modo

que Dany caiu sobre as costas, e não sobre a barriga.

O mercador saltou sobre a bancada, passando como um dardo entre

Aggo e Rakharo. Quaro estendeu a mão para um arakh, que não se

encontrava lá, ao mesmo tempo em que o homem louro o afastava

com um encontrão. Dany ouviu o estalido do chicote de Jhogo, viu o

couro estender-se e enrolar-se em volta da perna do vendedor de

vinhos. O homem estatelou-se de bruços na terra batida.

Uma dúzia de guardas da caravana tinha chegado correndo. Com eles

viera o próprio mestre, o Capitão Mercador Byan Votyris, um

minúsculo norvoshi cuja pele era como couro velho e que tinha um

farto bigode azul que lhe chegava às orelhas. Pareceu compreender o

que se passara sem que uma palavra fosse dita.

- Levem este daqui para esperar a vontade do khal - ordenou,

fazendo um gesto para o homem que estava no chão. Dois guardas

puseram o vendedor de vinhos em pé. - Também a presenteio com

os seus bens, princesa - continuou o capitão mercador. - É um

pequeno sinal de pesar por um dos meus ter feito uma coisa destas.

Doreah e Jhiqui ajudaram Dany a se erguer. O vinho envenenado

jorrava da barrica partida no chão.

- Como soube? - ela perguntou a Sor Jorah, tremendo. - Como?

- Não sabia, khaleesi, pelo menos até que o homem se recusou a

beber, mas assim que li a carta de Magíster Illyrio, tive receio - seus

olhos escuros varreram os rostos estranhos no mercado. - Venha. É

melhor não falar disto aqui.

Dany estava quase às lágrimas quando a levaram de volta. O sabor

que trazia na boca era um que já conhecera: o medo. Vivera anos no

terror de Viserys, com medo de acordar o dragão.

Isto era ainda pior. Agora não temia apenas por si própria, mas pelo

bebê. Ele devia ter sentido seu medo, porque se movia sem descanso

no seu interior. Dany afagou suavemente o inchaço da barriga,

desejando poder alcançá-lo, tocá-lo, acalmá-lo.

- Você é do sangue do dragão, pequeno - segredou enquanto a liteira

balançava pelo caminho, de cortinas bem cerradas. - Você é do

sangue do dragão, e o dragão não sente medo.

Sob o outeiro oco de terra que era a sua casa em Vaes Dothrak,

Dany ordenou-lhes que a deixassem. . todos, menos Sor Jorah.

- Diga-me - ordenou, enquanto se deixava cair sobre as almofadas. -

Foi o Usurpador?

- Sim - o cavaleiro pegou um pergaminho dobrado. - Uma carta para

Viserys, de Magíster Illyrio. Robert Baratheon oferece terras e títulos

pela sua morte ou de seu irmão.

- Do meu irmão? - o soluço soou como meia gargalhada. - Ele ainda

não sabe, não é? O Usurpador deve a Drogo um título - agora, a

gargalhada foi meio soluço. Apertou os braços em volta do corpo,

num gesto protetor. - E pela minha, o senhor disse. Só a minha?

- A sua e a da criança - respondeu Sor Jorah, sombrio.

- Não. Ele não pode ter o meu filho - não choraria, Dany decidiu. Não

tremeria de medo. O Usurpador agora acordou o dragão, disse a si

mesma... e seus olhos desviaram-se para os ovos de dragão que

descansavam em seu ninho de veludo escuro. A oscilante luz da

candeia iluminava as escamas de pedra, e grãos de pó que

tremeluziam em jade, escarlate e ouro dançavam no ar à sua volta,

como cortesãos em torno de um rei.

Teria sido a loucura que a tomara naquele momento, nascida do

medo? Ou alguma estranha sabedoria enterrada em seu sangue?

Dany não saberia dizer. Ouviu a própria voz dizendo:

- Sor Jorah, acenda o braseiro.

- Khaleesi? - o cavaleiro olhou-a de um modo estranho. - Está tão

quente. Tem certeza? Nunca tivera tanta certeza de nada.

- Sim, eu.. eu estou arrepiada. Acenda o braseiro. Ele fez uma

reverência.

- Às suas ordens.

Quando os carvões se incendiaram, Dany mandou Sor Jorah embora.

Tinha de estar só para fazer o que tinha de fazer. Isto é uma loucura,

disse a si mesma enquanto tirava do veludo o ovo negro e escarlate.

Só vai partir-se e arder, e é tão belo, Sor Jorah me chamará de tonta

se estragá-lo, no entanto, no entanto..

Embalando o ovo com as mãos, levou-o para o fogo e o empurrou

para o interior dos carvões ardentes. As escamas negras pareceram

brilhar quando beberam o calor. Chamas lamberam a pedra com

pequenas línguas vermelhas. Dany depositou os outros dois ovos ao

lado do negro, no fogo. Quando deu um passo para longe do

braseiro, a respiração tremeu-lhe na garganta.