dos Primeiros Homens eram três torres... três que antes tinham sido
vinte, caso seja possível crer nos contadores de histórias.
A Torre do Portão parecia em bastante bom estado, e até podia se
vangloriar de alguns metros de muralha de ambos os lados. A Torre
do Bêbado, no pântano, onde outrora se encontravam as muralhas
sul e oeste, inclinava-se como um homem empanturrado de vinho
prestes a vomitar na sarjeta. E a alta e esguia Torre dos Filhos, onde
segundo a lenda os filhos da floresta tinham um dia convocado seus
deuses sem nome para enviar o martelo das águas, tinha perdido
metade de sua coroa. Era como se algum grande animal tivesse dado
uma dentada nas ameias ao longo do topo da torre e cuspido o
cascalho para o pântano. As três torres estavam verdes de musgo.
Uma árvore crescia entre as pedras do lado norte da Torre do
Portão, com ramos retorcidos ornados com mantos viscosos e
brancos de pele-de-fantasma.
- Que os deuses tenham piedade - exclamou Sor Brynden quando viu
o que se estendia à sua frente. - Isto é Fosso Cailin? Não passa de...
- ...uma armadilha mortal - terminou Catelyn. - Eu sei o que parece,
tio. Pensei o mesmo da primeira vez que o vi, mas Ned assegurou-me
que esta ruína é mais poderosa do que parece. As três torres
sobreviventes dominam o talude de todos os lados, e qualquer
inimigo tem de passar entre elas. Os pântanos, aqui, são
impenetráveis, cheios de areia movediça e poços, e repletos de
serpentes. Para assaltar qualquer uma das torres, um exército teria
de avançar através de esterco negro que chega ao peito dos homens,
atravessar um fosso cheio de lagartos-leões e escalar muralhas
escorregadias com musgo, e tudo isso enquanto fica exposto ao fogo
dos arqueiros nas outras torres - deu um sorriso sombrio para o tio,
- E quando a noite cai, dizem que há fantasmas, espíritos frios e
vingativos do Norte que têm fome de sangue sulista.
Sor Brynden soltou um risinho.
- Lembre-me de não ficar muito tempo por aqui. Da última vez que
verifiquei, eu próprio era sulista.
Tinham sido desfraldados estandartes nas três torres. O resplendor
dos Karstark esvoaçava da Torre do Bêbado sob o lobo gigante; na
Torre das Crianças, era o gigante com as correntes quebradas de
Grande-Jon. Mas na Torre do Portão a bandeira dos Stark voava
sozinha. Fora aí que Robb estabelecera sua base. Catelyn dirigiu-se
para lá, com Sor Brynden e Sor Wendel atrás, levando os cavalos a
passo lento pela estrada de tábuas e troncos que tinha sido disposta
sobre o verde e o negro dos campos de lama.
Encontrou o filho rodeado pelos senhores vassalos do pai, em um
salão cheio de correntes de ar, com um fogo de turfa fumegando em
uma lareira negra. Estava sentado a uma maciça mesa de pedra, com
uma pilha de papéis e mapas à sua frente, conversando seriamente
com Roose Bolton e Grande-Jon. A princípio não reparou nela... mas
o lobo, sim. O grande animal cinzento estava deitado perto do fogo,
mas, quando Catelyn entrou, ergueu a cabeça, e os olhos dourados
encontraram os dela. Os senhores calaram-se, um por um, e Robb
ergueu os olhos perante o súbito silêncio e a viu.
- Mãe? - disse, com a voz pesada de emoção.
Catelyn quis correr para ele, beijar sua querida testa, envolvê-lo nos
braços e apertá-lo com força para que nunca lhe acontecesse
nenhum mal. . mas ali, na frente de seus senhores, não se atrevia. Ele
agora desempenhava um papel de homem, e ela não lhe queria tirar
isto. Por isso, deteve-se na ponta mais distante da laje de basalto que
estavam usando como mesa. O lobo selvagem pôs-se em pé e
caminhou pela sala até ela. Parecia maior do que um lobo deveria
ser.
- Deixou crescer a barba - disse ela para Robb, enquanto Vento
Cinzento lhe farejava a mão. Ele esfregou o queixo, de repente
atrapalhado.
- Sim - os pelos no queixo eram mais vermelhos que os cabelos.
- Gostei - Catelyn afagou suavemente a cabeça do lobo. - Torna-o
parecido com meu irmão Edmure - Vento Cinzento mordiscou-lhe os
dedos, de um jeito brincalhão, e regressou a trote para seu lugar
perto do fogo.
Sor Haleman Tallhart foi o primeiro a seguir o lobo gigante,
atravessando a sala para saudá--la, ajoelhando à sua frente e
encostando a testa à sua mão.
- Senhora Catelyn - disse -, está bela como sempre, uma visão bem-
vinda em tempos conturbados - seguiram-se os Glover, Galbart e
Robett, e Grande-Jon Umber, e os outros, um por um. Theon Greyjoy
foi o último.
- Não esperava vê-la aqui, senhora - disse enquanto se ajoelhava.
- Não pensei em vir - disse Catelyn -, até que desembarquei em
Porto Branco e Lorde Wy-man me disse que Robb convocara os
vassalos. Conheça seu filho, Sor Wendel - Wendel Man-derly avançou
e fez uma reverência tão profunda quanto a barriga lhe permitia. - E
meu tio, Sor Brynden Tully, que trocou o serviço da minha irmã pelo
meu.
- O Peixe Negro - Robb disse, - Obrigado por se juntar a nós, sor.
Precisamos de homens com a sua coragem. E o senhor também, Sor
Wendel, estou contente por tê-lo aqui. Sor Rodrik também está com
a senhora, mãe? Senti a sua falta.
- Sor Rodrik saiu de Porto Branco para o norte. Nomeei-o castelão e
ordenei-lhe que defendesse Winterfell até o nosso regresso. Meistre
Luwin é um sábio conselheiro, mas não tem experiência nas artes da
guerra.
- Nada tema a esse respeito, Senhora Stark - disse-lhe Grande-Jon, no
seu rugido de baixo. - Winterfell está seguro. Vamos enfiar nossas
espadas em breve em Tywin Lannister, com a sua licença, e depois
seguimos a caminho da Fortaleza Vermelha para libertar Ned.
- Senhora, uma pergunta, se me dá licença - Roose Bolton, senhor do
Forte do Pavor, tinha voz fraca, mas, quando falava, os homens
maiores silenciavam-se para ouvir. Seus olhos eram curiosamente
claros, quase desprovidos de cor, e o olhar era perturbador. - Diz-se
que a senhora tem o filho anão de Lorde Tywin cativo. Trouxe o
Duende até nós? Juro, faríamos bom uso de tal refém.
- É verdade que capturei Tyrion Lannister, mas já não o tenho em
meu poder - Catelyn foi forçada a admitir. Um coro de consternação
recebeu a notícia. - Não fiquei mais satisfeita do que os senhores. Os
deuses acharam por bem libertá-lo, com alguma ajuda da tola da
minha irmã - não devia exprimir tão abertamente o seu desprezo,
bem o sabia, mas a partida do Ninho da Águia não fora agradável.
Oferecera-se para levar consigo Lorde Robert, para criá-lo em
Winterfell durante alguns anos. Atrevera-se a sugerir que a
companhia de outros rapazes lhe faria bem. A ira de Lysa fora uma
visão assustadora."Irmã ou não", replicara “se tentar roubar-me meu
filho, sairá pela Porta da Lua." Depois daquilo nada mais tivera a
dizer.
Os senhores estavam ansiosos por lhe colocar mais questões, mas
Catelyn ergueu a mão.
- Sem dúvida que teremos tempo para tudo isso mais tarde, mas a
viagem fatigou-me. Gostaria de falar a sós com meu filho. Sei que me
perdoarão, senhores - não lhes deixou escolha. Liderados pelo sempre