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Catelyn lutara por manter-se forte, para o bem de Ned e deste

teimoso e corajoso filho de ambos. Pusera de lado o desespero e o

medo, como se fossem roupas que escolhera não vestir... mas agora

descobria que afinal de contas as usava.

- Não vou para Winterfell - ouviu-se dizer, surpresa com a súbita

torrente de lágrimas que lhe cobriu a visão. - Meu pai pode estar

morrendo atrás das muralhas de Correrrio. Meu irmão está rodeado

de inimigos. Tenho de ir encontrá-los.

Tyrion

Chella, filha de Cheyk. dos Orelhas Negras, tinha se adiantado para

reconhecer o terreno, e foi ela quem trouxe a notícia sobre o exército

na encruzilhada.

- Pelas fogueiras, digo que são vinte mil homens - ela disse. - Os

estandartes são vermelhos, com um leão dourado.

- Seu pai? - perguntou Bronn.

- Ou meu irmão Jaime - Tyrion respondeu. - Saberemos em breve -

examinou seu andrajoso bando de salteadores: quase trezentos

Corvos de Pedra, Irmãos da Lua, Orelhas Negras e Homens

Queimados, e estes eram apenas a semente do exército que esperava

cultivar. Gunthor, filho de Gurn, andava ainda recrutando os outros

clãs. Perguntou a si mesmo o que o senhor seu pai acharia deles,

com suas peles e pedaços de aço roubado. A bem da verdade, ele

próprio não sabia o que achar. Seria seu comandante ou seu

prisioneiro? Durante a maior parte do tempo, parecia ser um pouco

de ambos. - Pode ser melhor que eu desça sozinho - sugeriu.

- Melhor para Tyrion, filho de Tywin - disse Ulf, que falava pelos

Irmãos da Lua. Shagga apertou as sobrancelhas, o que era uma visão

assustadora.

- Shagga, filho de Dolf, não gosta disto. Shagga irá com o homem-

rapaz, e se o homem-rapaz mente, Shagga lhe cortará o membro

viril...

- ... e o dará de comer às cabras, já sei - disse Tyrion num tom

fatigado. - Sagga, eu voltarei, dou a minha palavra como Lannister.

- E por que deveríamos confiar na sua palavra? - Chella era uma

mulher pequena e dura, reta como um rapaz, e não era nada tola. -

Os senhores das terras baixas já mentiram antes aos clãs.

- Você me magoa, Chella - disse Tyrion. - E eu que pensava que nos

tínhamos tornado tão bons amigos. Mas seja como quiser. Virá

comigo, e também Shagga e Cronn pelos Corvos de Pedra, Ulf pelos

Irmãos da Lua e Timett, filho de Timett, pelos Homens Queimados -

os homens dos clãs trocaram olhares cautelosos à medida que os ia

nomeando. - Os outros ficarão aqui até que os mande chamar.

Tentem não se matar ou mutilar uns aos outros enquanto eu estiver

fora.

Esporeou o cavalo e afastou-se a trote, não lhes deixando escolha que

não fosse segui-lo ou ficar para trás. Uma ou outra coisa para ele

estava bem, bastava que não se sentassem para conversar durante

um dia e uma noite. Era este o problema dos clãs; tinham a ideia

absurda de que a voz de todos os homens devia ser ouvida em

conselho, e por isso discutiam sem fim sobre tudo. Até as mulheres

eram autorizadas a falar. Pouco admirava que se tivessem passado

centenas de anos desde a última vez que ameaçaram o Vale com algo

mais que uma incursão ocasional. Tyrion pretendia mudar isso.

Bronn o acompanhou. Atrás deles, depois de uma rápida sessão de

resmungos, os cinco homens dos clãs seguiram-nos em seus

pequenos cavalos, umas coisas magricelas que pareciam pôneis e

subiam vertentes pedregosas como cabras.

Os Corvos de Pedra iam juntos, e Chella e Ulf também se

mantinham perto um do outro, uma vez que os Irmãos da Lua e os

Orelhas Negras tinham laços fortes entre si. Timett, filho de Timett,

ia só. Todos os clãs das Montanhas da Lua temiam os Homens

Queimados, que flagelavam a carne com fogo para provar sua

coragem e (segundo os outros) assavam bebês em seus banquetes. E

mesmo os outros Homens Queimados temiam Timett, que arrancara

o próprio olho esquerdo com uma faca incandescente quando chegou

à idade adulta. Tyrion deduzira que era mais habitual que um rapaz

arrancasse a fogo um mamilo, um dedo ou (se fosse realmente bravo,

ou realmente louco) uma orelha. Os outros Homens Queimados

ficaram tão atemorizados pela sua escolha de um olho que

imediatamente o nomearam Mão Vermelha, o que parecia ser algum

tipo de chefe de guerra.

- Pergunto a mim mesmo o que o rei deles queimou - dissera Tyrion

a Bronn quando ouviu a história. Sorrindo, o mercenário agarrara a

virilha... mas até Bronn mantinha um respeitoso cuidado com a

língua perto de Timett. Se um homem era suficientemente louco

para destruir o próprio olho, era pouco provável que se mostrasse

gentil para com os inimigos.

Vigias distantes espreitavam de torres de pedra solta quando o grupo

desceu pelo sopé dos montes, e uma vez Tyrion viu um corvo

levantando voo. Onde a estrada de altitude se retorcia entre dois

afloramentos rochosos, chegaram ao primeiro ponto fortificado. Um

muro baixo de terra com um metro e vinte de altura fechava a

estrada, e uma dúzia de soldados com atiradeiras guarnecia os

pontos altos. Tyrion fez seus homens parar fora do alcance e se

dirigiu sozinho para a muralha.

- Quem comanda aqui? - gritou.

O capitão foi rápido para surgir, e ainda mais rápido para

providenciar uma escolta a Tyrion quando reconheceu o filho do seu

senhor. Passaram a trote por campos enegrecidos e fortificações

queimadas, até as terras do rio e o Ramo Verde do Tridente. Tyrion

não viu cadáveres, mas o ar estava cheio de corvos e gralhas-pretas;

tinha havido luta ali, e recentemente.

A meia légua da encruzilhada, tinha sido erigida uma barricada de

estacas aguçadas, guarnecida por lanceiros e arqueiros. Atrás dessa

linha, o acampamento estendia-se até perder de vista. Finos pilares

de fumaça erguiam-se de centenas de fogueiras para cozinhar;

homens vestidos de cota de malha sentavam-se à sombra de árvores

e amolavam suas lâminas; estandartes familiares ondulavam em

mastros enfiados no terreno lamacento,

Um grupo de cavaleiros avançou ao seu encontro quando se

aproximaram das estacas. O cavaleiro que os liderava usava uma

armadura prateada com ametistas encravadas e um manto listrado

de púrpura e prata. Seu escudo mostrava o símbolo do unicórnio, e

um corno em espiral com sessenta centímetros de comprimento

projetava-se da testa de seu elmo em forma de cabeça de cavalo.

Tyrion puxou as rédeas para saudá-lo.

- Sor Flement.

Sor Flement Brax ergueu o visor.

-Tyrion - disse, espantado. - Senhor, todos temíamos que estivesse

morto, ou... - olhou incerto para os homens dos clãs. - Estes... seus

companheiros...

- Amigos de peito e vassalos leais - disse Tyrion. - Onde poderei

encontrar o senhor meu pai?

- Usa a estalagem no entroncamento como abrigo.

Tyrion soltou uma gargalhada, A estalagem no entroncamento!

Talvez os deuses afinal fossem justos.

- Desejo vê-lo de imediato.

- Às suas ordens, senhor - Sor Flement virou o cavalo e gritou

ordens. Três filas de estacas foram arrancadas do chão para abrir um