Morrerei como cavaleiro.
- Um cavaleiro nu, aparentemente - observou Mindinho.
Todos riram, Joffrey de seu trono, os senhores presentes, Janos Slynt,
a Rainha Cersei e San-dor Clegane, e mesmo os outros homens da
Guarda Real, os cinco que tinham sido seus irmãos até um momento
antes. Certamente que isso deve ter sido o que mais magoou, pensou
Sansa. Seu coração compadeceu-se do galante senhor, que ali estava
envergonhado e corado, zangado demais para falar. Por fim, puxou a
espada.
Sansa ouviu alguém ofegar. Sor Borós e Sor Meryn avançaram para
enfrentá-lo, mas Sor Barristan congelou-os no lugar com um olhar
que pingava desprezo.
- Nada temam, senhores, vosso rei está a salvo... mas não graças a
vocês. Mesmo agora, poderia abrir caminho através dos cinco tão
facilmente como um punhal corta o queijo. Se aceitam servir às
ordens do Regicida, então nem um é digno de usar o branco - atirou
a espada aos pés do Trono de Ferro. - Tome, rapaz. Funda-a e junte-
a às outras, se quiser. Fará melhor serviço que as espadas nas mãos
destes cinco. Talvez calhe que Lorde Stannis se sente em cima dela
quando lhe tomar o trono.
Atravessou toda a sala para sair, com os passos ressoando
ruidosamente no chão, arrancando ecos das paredes de pedra nua.
Senhores e senhoras abriram alas para ele passar. Sansa só voltou a
ouvir sons depois de os pajens fecharem as grandes portas de
carvalho e bronze às suas costas: vozes baixas, movimentos
incomodados, o rumor de papéis vindo da mesa do conselho.
- Ele me chamou de rapaz - disse Joffrey em tom rabugento, soando
mais novo do que era.
- E também falou de meu tio Stannis.
- Conversa fiada - disse Varys, o eunuco. - Sem significado...
- Pode estar conspirando com meus tios. Quero-o capturado e
interrogado - ninguém se moveu. Joffrey ergueu a voz. - Eu disse que
o quero capturado!
Janos Slynt levantou-se da mesa do conselho.
- Meus homens tratarão disso, Vossa Graça.
- Ótimo - disse o Rei Joffrey. Lorde Janos saiu do salão, com os filhos
feios correndo para acompanhar seu passo enquanto arrastavam com
dificuldade o grande escudo de metal com as armas da Casa Slynt.
- Vossa Graça - relembrou Mindinho ao rei. - Se pudéssemos
recomeçar, os sete são agora seis. Falta-nos uma nova espada para a
Guarda Real.
Joffrey sorriu.
- Diga-lhes, mãe.
- O rei e o conselho decidiram que não há homem nos Sete Reinos
mais capaz de guardar e proteger Sua Graça do que o seu escudo
juramentado, Sandor Clegane.
- Que acha disso, Cão? - perguntou o Rei Joffrey.
Era difícil ler o rosto cheio de cicatrizes de Cão de Caça, que levou
um longo momento refletindo.
- E por que não? Não tenho terras nem esposa para deixar, e quem
se importaria se tivesse?
- o lado queimado da boca retorceu-se. - Mas aviso que não farei
votos de cavaleiro.
- Os Irmãos Juramentados da Guarda Real sempre foram cavaleiros -
disse firmemente Sor Borós.
- Até agora - disse Cão de Caça na sua profunda voz áspera, e Sor
Borós calou-se. Quando o arauto do rei avançou, Sansa compreendeu
que o momento tinha quase chegado.
Alisou nervosamente o tecido da saia. Estava vestida de luto, em sinal
de respeito pelo rei morto, mas tinha tido especial cuidado em ficar
bela. O vestido era o de seda cor de marfim que a rainha lhe dera,
aquele que Arya estragara, mas havia mandado tingir de negro e não
era possível ver a mancha. Levara horas atormentada com as jóias, e
por fim decidira-se pela elegante simplicidade de uma corrente de
prata sem adornos. A voz do arauto retumbou.
- Se algum homem neste salão tem outros assuntos para colocar a
Sua Graça, que fale agora ou se mantenha em silêncio.
Sansa vacilou. Agora, disse a si mesma, tenho de fazê-lo agora. Que
os deuses me dêem coragem. Deu um passo, depois outro. Senhores
e cavaleiros afastaram-se silenciosamente para deixá-la passar, e
sentiu o peso daqueles olhos em cima de si. Tenho de ser tão forte
como a senhora minha mãe.
- Vossa Graça - chamou, numa voz suave e trêmula.
A altura do Trono de Ferro dava a Joffrey uma visão melhor que a
qualquer outro dos presentes no salão. Foi o primeiro a vê-la.
- Avance, senhora - disse, sorrindo.
O sorriso dele a encorajou, a fez sentir-se bela e forte. Ele me ama
mesmo, ama mesmo. Sansa ergueu a cabeça e caminhou em sua
direção, nem devagar nem depressa demais. Não podia deixá--los ver
como estava nervosa.
- A Senhora Sansa, da Casa Stark - gritou o arauto.
Parou sob o trono, no lugar onde o manto branco de Sor Barristan
estava amontoado no chão, ao lado de seu elmo e sua placa de peito.
- Tem algum assunto para o rei e o conselho, Sansa? - perguntou a
rainha da mesa do conselho.
- Tenho - ajoelhou-se sobre o manto, para não estragar o vestido, e
olhou para seu príncipe naquele temível trono negro. - Se for desejo
de Vossa Graça, peço misericórdia para meu pai, Lorde Eddard Stark,
que foi Mão do Rei - treinara as palavras uma centena de vezes.
A rainha suspirou.
- Sansa, você me desilude. O que lhe disse a respeito do sangue do
traidor?
- Seu pai cometeu graves e terríveis crimes, senhora - entoou o
Grande Meistre Pycelle,
- Ah, pobre coisinha triste - suspirou Varys. - Não é mais que uma
criança inocente, senhores, não sabe o que está pedindo.
Sansa só tinha olhos para Joffrey. Ele tem de me ouvir, tem de me
ouvir, pensou. O rei mudou de posição.
- Deixe-a falar - ordenou, - Quero ouvir o que ela diz.
- Obrigada, Vossa Graça - Sansa sorriu, um tímido sorriso secreto, só
para ele. Ele estava ouvindo. Ela sabia que ouviria.
- A traição é uma erva daninha - declarou solenemente Pycelle. -
Tem de ser arrancada, raiz, caule e semente, para que novos
traidores não nasçam na beira de cada estrada.
- Nega o crime de seu pai? - perguntou Lorde Baelish.
- Não, senhores - Sansa não era assim tão tola. - Sei que ele deve ser
punido. Tudo o que peço é misericórdia. Sei que o senhor meu pai
deve se arrepender do que fez. Era amigo do Rei Robert, e adorava-o,
todos sabem que o adorava. Nunca quis ser Mão até que o rei lhe
pediu. Devem ter mentido para ele. Lorde Renly, ou Lorde Stannis,
ou... ou alguém, devem ter mentido, de outra forma...
O Rei Joffrey inclinou-se para a frente, com as mãos agarrando os
braços do trono. Pontas de espadas quebradas projetaram-se entre
seus dedos.
- Ele disse que eu não era o rei. Por que ele disse isso?
- Tinha a perna quebrada - respondeu ansiosamente Sansa. - Doía
tanto que Meistre Pycelle dava-lhe leite da papoula, e dizem que o
leite da papoula enche a cabeça de nuvens. De outra forma, nunca o
teria dito.
Varys disse:
- A fé de uma criança... que doce inocência.. e, no entanto, dizem
que a sabedoria surge frequentemente das bocas dos inexperientes.
- Traição é traição - Pycelle respondeu imediatamente. Joffrey
agitava-se no trono.
- Mãe?
Cersei Lannister avaliou Sansa pensativamente.
- Se Lorde Eddard confessasse seu crime - acabou por dizer -,
saberíamos que se arrependeu da sua loucura.
Joffrey pôs-se em pé. Por favor, pensou Sansa, por favor, por favor,