Comandante Sor Gerold Hightower, prendeu o nevado manto da
Guarda Real em volta de seus ombros. Todas as seis Espadas Brancas
estavam lá para dar as boas-vindas ao seu irmão mais novo.
Mas quando a justa começou, o dia foi de Rhaegar Targaryen. O
príncipe herdeiro usava a armadura em que acabaria por morrer:
cintilante placa negra com o dragão de três cabeças de sua Casa
trabalhado em rubis no peito. Uma pluma de seda escarlate estendia-
se atrás dele enquanto cavalgaya, e parecia que nenhuma lança
conseguia tocá-lo. Brandon caiu perante ele, tal como Bronze Yohn
Royce e até o magnífico Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã.
Robert tinha feito comentários jocosos com Jon e o velho Lorde
Hunter enquanto o príncipe dava a volta ao campo depois de
derrubar Sor Barristan na última justa pela coroa de campeão. Ned
lembrava-se do momento em que todos os risos tinham morrido,
quando o Príncipe Rhaegar Targaryen fez o cavalo passar por sua
esposa, a princesa dorniana Elia Martell, e depositou a coroa da
rainha da beleza no colo de Lyanna. Ainda conseguia vê-la: uma
coroa de rosas de inverno, azuis como a geada.
Ned Stark estendeu a mão para agarrar a coroa de flores, mas sob as
pétalas azul-claras estavam escondidos espinhos. Sentiu-os penetrar-
lhe a pele, aguçados e cruéis, viu o lento fio de sangue correr pelos
seus dedos e acordou, tremendo, na escuridão.
Prometa-me, Ned, sussurrara a irmã de sua cama de sangue. Ela
adorava o odor de rosas de inverno.
- Que os deuses me salvem - chorou Ned. - Estou enlouquecendo. Os
deuses não se dignaram a responder.
Cada vez que o carcereiro lhe trazia água, dizia a si mesmo que se
passara mais um dia. A princípio suplicava ao homem alguma notícia
sobre as filhas e o mundo para lá de sua cela. As únicas respostas
eram grunhidos e pontapés. Mais tarde, quando começaram as dores
de estômago, começou a suplicar por comida. Não fazia diferença;
não era alimentado. Os Lannister talvez pretendessem que ele
morresse de fome. "Não", disse consigo mesmo. Se Cersei o quisesse
morto, teria sido abatido na sala do trono com seus homens. Ela o
queria vivo. Fraco, desesperado, mas vivo. Catelyn tinha seu irmão;
não se atreveria a matá-lo, ou a vida do Duende estaria também
perdida.
De fora da sua cela chegou-lhe o chocalhar de correntes de ferro.
Quando a porta se abriu, rangendo, Ned pôs a mão na parede úmida
e empurrou-se para a luz. O clarão de um archote o fez desviar o
rosto.
- Comida - grasnou.
- Vinho - respondeu uma voz. Não era o homem com cara de rato.
Aquele carcereiro era mais robusto e mais baixo, embora usasse a
mesma meia capa de couro e o mesmo capacete de aço com espigão.
- Beba, Lorde Eddard - enfiou um odre de vinho nas mãos de Ned.
A voz do homem era estranhamente familiar, mas Ned Stark
precisou de um momento para a identificar.
- Varys? - disse, vacilante, quando o reconhecimento chegou. Tocou o
rosto do homem. - Não estou... não estou sonhando. Está aqui - as
rechonchudas bochechas do eunuco estavam cobertas com uma
barba cheia e escura. Ned sentiu os pelos rudes com os dedos. Varys
transformara-se num carcereiro grisalho, que fedia a suor e a vinho
amargo. - Como conseguiu... Que tipo de mago é você?
- Um mago sedento - disse Varys. - Beba, senhor. As mãos de Ned
apalparam o odre.
- Este é o mesmo veneno que deram a Robert?
- Ofende-me - disse Varys num tom triste, - É verdade que ninguém
gosta de um eunuco. Dê-me o odre - ele bebeu, com um fio
vermelho escorrendo pelo canto da boca gorda. - Não se compara à
safra que me você ofereceu na noite do torneio, mas não é mais
venenoso que a maioria - concluiu, limpando os lábios. - Aqui está.
Ned experimentou um gole.
- Borras - sentiu-se a ponto de regurgitar o vinho.
- Qualquer homem deve engolir o amargo com o doce. Tanto os
grandes senhores como os eunucos. Sua hora chegou, senhor.
- As minhas filhas...
- A mais nova escapou de Sor Meryn e fugiu - disse-lhe Varys. - Não
fui capaz de encontrá-la. Nem os Lannister. Uma coisa boa, essa.
Nosso novo rei não a ama. Sua filha mais velha continua prometida a
Joffrey. Cersei a mantém por perto. Veio a uma audiência há alguns
dias suplicar que o senhor fosse poupado. Uma pena que não
pudesse estar lá, ficaria comovido - inclinou-se para a frente com
uma expressão séria. - Creio que o senhor compreende que é um
homem morto, Lorde Eddard?
- A rainha não me matará - disse Ned. Sentia a cabeça flutuar; o
vinho era forte, e passara-se muito tempo desde que comera. - Cat..
Cat tem o irmão dela. .
- O irmão errado - suspirou Varys. - E de qualquer modo, está
perdido. Ela deixou que o Duende lhe fugisse por entre os dedos.
Suponho que esteja morto agora, em algum lugar nas Montanhas da
Lua.
- Se isso é verdade, corte-me a garganta e acabe com isto - estava
tonto do vinho, cansado e desolado.
- Seu sangue é a última coisa que desejo. Ned franziu as
sobrancelhas.
- Quando assassinaram minha guarda, você ficou ao lado da rainha,
observando, sem dizer uma palavra.
- E o faria de novo. Julgo recordar que estava desarmado, sem
armadura e rodeado por espadas dos Lannister - o eunuco olhou-o
de forma curiosa, inclinando a cabeça. - Quando era um rapazinho,
antes de ser cortado, viajei com uma trupe de pantomimeiros pelas
Cidades Livres. Ensinaram-me que cada homem tem um papel a
desempenhar, quer na vida quer na pantomima. Assim é na corte. O
Magistrado do Rei tem de ser temível, o mestre da moeda deve ser
frugal, o Senhor Comandante da Guarda Real tem de ser valente... e
o mestre dos espiões deve ser dissimulado, obsequioso e sem
escrúpulos. Um informante corajoso seria tão inútil como um
cavaleiro covarde - recuperou o odre e bebeu.
Ned estudou o rosto do eunuco, procurando a verdade sob as
cicatrizes de pantomimeiro e a barba falsa. Bebeu mais um pouco de
vinho. Desta vez desceu mais facilmente.
- É capaz de me libertar deste buraco?
- Seria... Mas vou fazê-lo? Não. Seriam feitas perguntas, e as
respostas levariam até mim. Ned não esperava outra coisa.
- Você é direto.
- Um eunuco não tem honra, e uma aranha não se beneficia do luxo
dos escrúpulos, senhor,
- Ao menos poderia levar uma mensagem minha?
- Dependeria da mensagem. De bom grado lhe fornecerei papel e
tinta. E depois de escrita, levarei a carta, lerei e a entregarei ou não,
conforme o que melhor sirva aos meus fins.
- Seus fins. E que fins são esses, Lorde Varys?
- A paz - respondeu Varys sem hesitação. - Se havia uma alma em
Porto Real verdadeiramente desesperada por manter Robert
Baratheon vivo era eu - suspirou. - Protegi-o de seus inimigos
durante quinze anos, mas não consegui protegê-lo de seus amigos,
Que estranho ataque de loucura o levou a dizer à rainha que sabia
da verdade sobre o nascimento de Joffrey?
- A loucura da misericórdia - admitiu Ned.
- Ah - disse Varys. - Com certeza. E um homem honesto e honroso,