couro e da cota de malha de um batedor, mas seu peixe de obsidiana
ainda segurava seu manto.
O rosto do tio de Catelyn mostrava-se grave ao descer do cavalo.
- Houve uma batalha sob as muralhas de Correrrio - disse, com uma
expressão sinistra na boca. - Ouvimos de um batedor Lannister que
capturamos. O Regicida destruiu a tropa de Edmure e pôs os
senhores do Tridente em fuga.
Uma mão fria apertou o coração de Catelyn.
- E meu irmão?
- Foi ferido e feito prisioneiro - disse Sor Brynden. - Lorde
Blackwood e os outros sobreviventes estão sob cerco no interior de
Correrrio, rodeados pela hoste de Jaime.
Robb mostrou-se insatisfeito.
- Temos de atravessar este maldito rio se queremos ter alguma
esperança de socorrê-los a tempo.
- Isso não será fácil - preveniu o tio. - Lorde Frey chamou todas as
suas forças para o interior dos castelos e tem os portões fechados e
trancados.
- Maldito seja esse homem - praguejou Robb. - Se o velho tonto não
cede e me deixa atravessar, não me deixa alternativa a não ser
assaltar suas muralhas. Hei de pôr as Gêmeas abaixo à volta dele,
veremos se gosta disso!
- Parece um rapaz birrento, Robb - disse Catelyn em tom cortante. -
Uma criança vê um obstáculo e a primeira coisa em que pensa é
correr à sua volta ou pô-lo abaixo. Um senhor tem de aprender que
por vezes as palavras são capazes de alcançar o que as espadas não
são.
O pescoço de Robb ficou vermelho ao ouvir a reprimenda,
- Explique-me o que quer dizer, mãe - disse ele brandamente.
- Os Frey possuem a travessia há seiscentos anos, e desde então
nunca deixaram de cobrar a sua taxa.
- Que taxa? O que é que ele quer?
Ela sorriu.
- É isso que temos de descobrir.
- E se eu preferir não pagar esta taxa?
- Então é melhor que se retire de volta para Fosso Cailin, disponha
as tropas para enfrentar Lorde Tywin em batalha,., ou arranje asas.
Não vejo outras hipóteses - Catelyn esporeou o cavalo e afastou-se,
deixando o filho pesar o que dissera. Não seria bom fazê-lo sentir
que a mãe estava usurpando seu lugar. Ensinou-lhe sabedoria como
lhe ensinou valor, Ned?, perguntou a si própria. Ensinou-lhe a
ajoelhar-se? Os cemitérios dos Sete Reinos estavam cheios de homens
corajosos que nunca aprenderam essa lição.
Era perto do meio-dia quando a vanguarda chegou à vista das
Gêmeas, onde os Senhores da Travessia tinham a sua sede.
O Ramo Verde corria ali rápido e profundo, mas os Frey tinham
construído uma ponte sobre ele havia muitos séculos e enriquecido
com o dinheiro que os homens pagavam para atravessar. A ponte era
um sólido arco de pedra lisa e cinzenta, suficientemente largo para
qué duas carroças passassem lado a lado; a Torre da Água erguia-se
no centro da ponte, dominando quer a estrada, quer o rio com suas
seteiras, alçapões e portas levadiças. Os Frey levaram três gerações
para completar a ponte; quando terminaram, construíram robustas
fortalezas de madeira em cada extremidade para que ninguém a
atravessasse sem sua autorização.
Havia muito tempo a madeira tinha dado lugar à pedra. As Gêmeas,
dois castelos atarracados, feios e fortes, idênticos em todos os
aspectos, com a ponte unindo-os em arco, guardavam a travessia
havia séculos. Grandes muralhas exteriores, profundos fossos e
pesados portões de carvalho e ferro protegiam os caminhos, as bases
da ponte erguiam-se do interior de robustas fortalezas internas, havia
um antemuro e uma porta levadiça em cada margem, e a Torre da
Água defendia o arco propriamente dito.
Um relance foi o suficiente para Catelyn compreender que o castelo
não seria tomado de assalto. As ameias eriçavam-se de lanças,
espadas e atiradeiras, havia um arqueiro em cada ameia e seteira, a
ponte levadiça estava erguida, a porta levadiça, descida, os portões
fechados e trancados.
Grande-Jon começou a praguejar assim que viu o que os esperava.
Lorde Rickard Karstark olhava, carrancudo e em silêncio.
- Aquilo não pode ser assaltado, senhores - anunciou Roose Bolton.
- E tampouco podemos tomá-lo por cerco sem um exército na
margem de lá para investir contra a outra fortaleza - Heiman
Tallhart disse sombriamente. Do outro lado das profundas águas
verdes, a gêmea ocidental era como um reflexo da sua irmã do
oriente. - Mesmo se dispuséssemos de tempo, Do qual, na verdade,
não dispomos.
Enquanto os senhores do Norte estudavam o castelo, uma porta
abriu-se, uma ponte de pranchas deslizou através do fosso e uma
dúzia de cavaleiros a atravessou a cavalo para enfrentá-los, liderados
por quatro dos muitos filhos de Lorde Walder. Seu estandarte exibia
torres gêmeas azul-escuras em fundo cinza-prateado claro. Sor
Stevron Frey, herdeiro de Lorde Walder, falou por eles. Todos os
Frey tinham cara de fuinha; Sor Stevron, já com mais de sessenta
anos e com netos seus, assemelhava-se a uma fuinha particularmente
velha e cansada, mas foi bastante bem-educado.
- O senhor meu pai me enviou para saudá-los e perguntar quem
lidera esta poderosa hoste.
- Sou eu - Robb esporeou o cavalo e avançou. Usava sua armadura,
com o escudo do lobo gigante de Winterfell atado à sela, e Vento
Cinzento caminhava ao seu lado.
O velho cavaleiro olhou para o filho de Catelyn com uma leve
cintilação de divertimento nos aguados olhos cinzentos, embora seu
cavalo castrado relinchasse, inquieto, e se afastasse, de lado, do lobo
gigante.
- O senhor meu pai ficaria muito honrado se pudessem partilhar a
sua comida e bebida no castelo e explicar o que os traz aqui.
Aquelas palavras caíram sobre os senhores vassalos como uma
grande pedra atirada por uma catapulta. Nenhum deles aprovou a
ideia. Praguejaram, discutiram e gritaram uns com os outros.
- Não deve fazer isto, senhor - argumentou Galbart Glover com
Robb. - Lorde Walder não é de confiança.
Roose Bolton fez um meneio de concordância.
- Entre ali sozinho e pertencerá a eles. Poderá vendê-lo aos Lannister,
atirá-lo para uma masmorra ou cortar-lhe a garganta, como quiser,
- Se quiser conversar conosco, que abra os portões e partilharemos
todos a sua comida e bebida - declarou Sor Wendel Manderly.
- Ou que saia e converse com Robb aqui, à vista de seus homens e
dos nossos - sugeriu o irmão, Sor Wylis.
Catelyn Stark partilhava todas aquelas dúvidas, mas bastava-lhe olhar
de relance para Sor Stevron para saber que não lhe agradava o que
estava ouvindo. Mais algumas palavras e a chance estaria perdida.
Tinha de agir, e depressa.
- Eu vou - disse em voz alta.
- A senhora? - Grande-Jon enrugou a testa.
- Mãe, tem certeza? - era claro que Robb não tinha.
- Nunca tive tanta - mentiu Catelyn com leveza. - Lorde Walder é
vassalo de meu pai. Conheço-o desde menina. Nunca me faria
nenhum mal - a menos que visse nisso algum lucro, acrescentou em
silêncio, mas algumas verdades não podiam ser ditas, e algumas
mentiras eram necessárias,
- Estou certo de que o senhor meu pai ficaria feliz por falar com a
Senhora Catelyn - disse Sor Stevron. - A fim de atestar as nossas