Winterfell - disse-lhe ela. - Concordei em recebemos como
protegidos. São novos, com oito e sete anos. Parece que ambos se
chamam Walder. Julgo que seu irmão Bran acolherá bem a
companhia de rapazes próximos da idade dele.
- É tudo? Dois protegidos? Este é um preço bastante pequeno por...
- O filho de Lorde Frey, Olyvar, virá conosco - ela prosseguiu. -
Deverá servir como seu escudeiro pessoal. O pai quer vê-lo feito
cavaleiro a seu tempo.
- Um escudeiro - encolheu os ombros. - Certo, está bem, se ele...
- Além disso, se sua irmã Arya regressar em segurança para junto de
nós, está acordado que se casará com o filho mais novo de Lorde
Walder, Elmar, quando ambos tiverem idade.
Robb pareceu embaraçado.
- Arya não vai gostar nem um bocadinho disso.
- E você deverá casar com uma das filhas dele quando a luta
terminar - Catelyn terminou. - Sua senhoria consentiu amavelmente
em deixá-lo escolher a moça que preferir. Tem uma quantidade delas
que julga serem adequadas.
Para seu crédito, Robb não vacilou.
- Entendo.
- Consente?
- Posso recusar?
- Se quiser atravessar, não.
- Consinto - disse solenemente Robb. Nunca lhe parecera mais
homem do que naquele momento. Rapazes podem brincar com
espadas, mas era preciso ser um senhor para fazer um pacto de
casamento com a consciência do que ele significava.
Atravessaram ao cair da noite enquanto um quarto de lua flutuava
sobre o rio, A dupla coluna serpenteou pelo portão da gêmea
oriental como uma grande serpente de aço, deslizando pelo pátio, no
interior da fortaleza e através da ponte, irrompendo de novo do
segundo castelo na margem ocidental.
Catelyn seguiu à cabeça da serpente, com o filho, o tio, Sor Brynden
e Sor Stevron Frey. Atrás, seguiam nove décimos da cavalaria;
cavaleiros, lanceiros, cavaleiros livres e arqueiros montados. Foram
necessárias horas para que todos atravessassem. Mais tarde, Catelyn
se recordaria do barulho de incontáveis cascos na ponte levadiça, de
Lorde Walder Frey, em sua liteira, vendo--os passar, do brilho de
olhos que espreitavam entre as tábuas dos alçapões no teto enquanto
cavalgavam através da Torre da Água.
A parte maior da tropa nortenha, lanceiros, arqueiros e grandes
massas de homens de armas a pé, permaneceu na margem oriental
sob o comando de Roose Bolton. Robb ordenara-lhe que prosseguisse
a marcha para o sul, a fim de defrontar o enorme exército Lannister
que vinha para o norte sob o comando de Lorde Tywin.
Para o bem ou para o mal, seu filho lançara os dados.
J o n
- E s t á bem, Snow? - perguntou Lorde Mormont, franzindo as
sobrancelhas. B e m " , grasnou o corvo. "Bem."
- Estou, senhor - mentiu Jon... muito alto, como se isso pudesse
transformar a mentira em verdade. - E o senhor?
Mormont franziu a testa.
- Um morto tentou matar-me. Como poderia estar bem? - coçou o
queixo. Sua barba cinzenta tinha sido chamuscada pelo fogo e ele a
cortara. Os curtos pelos brancos de suas novas suíças faziam-no
parecer velho, pouco confiável e mal-humorado. - Não parece estar
bem. Como está sua mão?
- Vai sarando - Jon dobrou os dedos enfaixados para lhe mostrar.
Tinha se queimado mais do que supunha ao atirar as cortinas em
chamas, e a mão direita estava enfaixada com seda até a metade do
antebraço. Na hora nada sentira; a agonia chegara mais tarde. A pele
vermelha e fendida segregou fluido, e borbulhas negras com um
aspecto terrível surgiram entre os dedos, grandes como baratas. - O
meistre diz que vou ficar com cicatrizes, mas fora isso a mão deve
ficar tão boa como era antes.
- Uma mão com cicatrizes não é nada, Na Muralha usará luvas com
frequência.
- É como diz, senhor - não eram as cicatrizes que perturbavam Jon;
era o resto, Meistre Aemon dera-lhe leite da papoula, mas mesmo
assim a dor fora terrível. A princípio sentira como se a mão ainda
estivesse em chamas, ardendo dia e noite. Só mergulhá-la em bacias
de neve e gelo moído lhe dava algum alívio. Jon estava agradecido aos
deuses por ninguém, além de Fantasma, tê-lo visto se contorcer na
cama, choramingando de dor. Quando por fim dormiu, sonhou, e
isso foi ainda pior. No sonho, o cadáver com que lutara tinha olhos
azuis, mãos negras e o rosto do pai, mas não se atrevia a contar isso
a Mormont.
- Dywen e Hake regressaram ontem à noite - disse o Velho Urso. -
Não encontraram sinal algum do seu tio, tal como os outros.
- Eu sei - Jon arrastara-se até a sala comum para jantar com os
amigos, e o fracasso na busca dos patrulheiros fora o único tema das
conversas.
- Você sabe - resmungou Mormont. - Como é que todo mundo sabe
de tudo por aqui? - não parecia esperar uma resposta. - Parece que
havia só dois... duas dessas criaturas, fossem elas o que fossem, não
os chamarei de homens. E devemos dar graças aos deuses. Mais e...
bom, não vale a pena pensar nisso. Mas vai haver mais. Posso senti-lo
nestes meus velhos ossos, e Meistre Aemon concorda. Os ventos frios
estão se erguendo. O verão está no fim, e está para chegar um
inverno como o mundo nunca viu.
O inverno está para chegar. As palavras dos Stark nunca tinham
soado ajon tão sombrias e de mau agouro como agora,
- Senhor - perguntou, hesitante -, ouvi dizer que chegou uma ave
ontem à noite..
- Chegou. Por quê?
- Tinha esperança de que trouxesse alguma notícia de meu pai.
"Pai", escarneceu o velho corvo, inclinando a cabeça enquanto
passeava pelos ombros de Mormont. "Pai"
O Senhor Comandante levantou a mão para lhe fechar o bico, mas o
corvo saltou para cima de sua cabeça, sacudiu as asas e voou através
do aposento para ir se empoleirar sobre uma janela.
- Dor e ruído - resmungou Mormont. - É só para isso que servem os
corvos. Por que aguento esse pestilento pássaro...? Se houvesse
notícias de Lorde Eddard, não acha que teria mandado te chamar?
Bastardo ou não, pertence ao seu sangue. A mensagem dizia respeito
a Sor Barristan Selmy. Parece que foi destituído da Guarda Real.
Deram seu lugar àquele cão negro Clegane, e agora Selmy é
procurado por traição. Os tontos mandaram um grupo de vigias para
capturá-lo, mas ele matou dois e escapou - Mormont bufou, não
deixando lugar a dúvidas a respeito do que pensava de homens que
mandavam guardas de mantos dourados contra um cavaleiro de
tanto renome como Barristan, o Ousado. - Temos sombras brancas
na floresta e mortos irrequietos que caminham furtivamente pelos
nossos salões, e é um rapaz que ocupa o Trono de Ferro - disse,
desgostoso.
O corvo riu estridentemente. "Rapaz, rapaz, rapaz, rapaz"
jon recordou que Sor Barristan fora a melhor esperança do Velho
Urso; se caíra, que hipótese havia de que a carta de Mormont
recebesse atenção? Fechou a mão em punho, A dor rompeu dos
dedos queimados.
- E minhas irmãs?
- A mensagem não fazia menção alguma a Lorde Eddard ou às
meninas - encolheu os ombros, irritado. - Talvez não tenham