chegado a receber minha carta. Aemon mandou duas cópias, com as
suas melhores aves, mas, quem sabe? O mais provável é que Pycelle
não tenha se dignado a responder. Não seria nem a primeira nem a
última vez. Temo que contemos com menos que nada em Porto Real.
Contam-nos o que querem que saibamos, e isso é bem pouco.
E você me conta o que quer que eu saiba, e isso é ainda menos,
pensou Jon com ressentimento. Seu irmão Robb convocara os
vassalos e partira para o sul, para a guerra, e nem uma palavra sobre
isso lhe fora ventilada... exceto por Samwell Tarly, que lera a carta
para Meistre Aemon e sussurrara o conteúdo a Jon naquela noite, em
segredo, enquanto repetia que não devia fazê-lo, Não havia dúvida de
que pensavam que a guerra do irmão não lhe dizia respeito.
Perturbava-o mais do que conseguia exprimir. Robb marchava, e ele,
não. Não importava quantas vezes Jon dissesse a si próprio que seu
lugar agora era ali, com seus novos irmãos na Muralha, sentia-se um
covarde do mesmo jeito.
"Grão", gritava o corvo. "Grão, grão".
- Ah, cale-se - disse-lhe o Velho Urso. - Snow, daqui a quanto tempo,
segundo Meistre Aemon, terá essa mão em boas condições?
- Em breve - Jon respondeu.
- Ótimo - sobre a mesa, entre os dois, Lorde Mormont depositou
uma grande espada numa bainha de metal negro ligado com prata. -
Toma. Neste caso, está pronto para isto.
O corvo desceu e aterrissou sobre a mesa, pavoneando-se na direção
da espada, com a cabeça inclinada de um modo curioso. Jon hesitou.
Não fazia nem uma vaga ideia do que aquilo significava.
- Senhor?
- O fogo derreteu a prata do botão e queimou a guarda e o punho.
Bem, que se podia esperar de couro seco e madeira velha? Mas a
lâmina... seria necessário um fogo cem vezes mais quente que aquele
para danificar a lâmina - Mormont empurrou a bainha sobre as
pranchas grossas de carvalho. - Mandei fazer o resto de novo. Toma.
"Toma", repetiu o corvo num eco, arranjando as penas com o bico.
"Toma, toma."
Com movimentos inábeis Jon pegou a espada. Pegou-a com a mão
esquerda, pois a direita, envolta em ataduras, estava ainda muito
dolorida e desajeitada. Com cuidado, puxou-a da bainha e ergueu-a
até os olhos.
O botão da espada era um pedaço de pedra clara recheado de
chumbo para equilibrar a longa lâmina. Fora esculpida à semelhança
de uma cabeça de lobo rosnando, com lascas de granada para os
olhos. O punho era de couro virgem, suave e negro, ainda sem
manchas de suor ou sangue. A lâmina propriamente dita era cerca de
quinze centímetros mais longa que aquelas a que Jon estava
habituado, delgada de forma a poder trespassar tão bem como
cortar, com três caneluras profundamente entalhadas no metal.
Enquanto Gelo era uma verdadeira espada longa de duas mãos, esta
era uma espada de mão e meia, por vezes denominada "espada
bastarda". Mas a espada do lobo, na verdade, parecia mais leve que
as que manejara antes. Quando Jon a virou de lado, conseguiu ver as
ondulações do aço escuro, onde o metal fora dobrado sobre si
próprio uma e outra vez.
- Isto é aço valiriano, senhor - disse, espantado. Seu pai o deixara
segurar Gelo muitas vezes; conhecia o aspecto e a sensação.
- É - disse-lhe o Velho Urso. - Foi a espada de meu pai, e antes, do
pai dele. Os Mormont a usaram ao longo de cinco séculos. Manejei-a
nos meus tempos, e a passei a meu filho quando vesti o negro.
Está me dando a espada do filho. Jon quase não conseguia acreditar.
A lâmina tinha um equilíbrio magnífico. As arestas cintilavam
levemente quando beijavam a luz.
- Seu filho...
- Meu filho trouxe desonra à Casa Mormont, mas pelo menos teve a
elegância de deixar a espada quando fugiu. Minha irmã a devolveu à
minha guarda, mas bastava que a visse para me recordar da desgraça
de Jorah, então a coloquei de lado e não voltei a pensar nela até que
a encontramos nas cinzas do meu quarto. O botão original era uma
cabeça de urso, em prata, mas tão desgastada que seus traços
estavam praticamente indistinguíveis. Para você, pensei que um lobo
branco seria mais adequado. Um dos nossos construtores é um
escultor razoável.
Quando Jon tinha a idade de Bran, sonhara com a realização de
grandes feitos, como os rapazes sonhavam sempre. Os detalhes de
seus feitos mudavam em cada sonho, mas era frequente imaginar
que salvava a vida do pai. Depois, Lorde Eddard declararia que Jon
provara ser um verdadeiro Stark e colocaria Gelo em suas mãos.
Mesmo então soubera que aquilo não passava de delírio de criança;
nenhum bastardo poderia jamais esperar manejar a espada do pai.
Até a recordação o envergonhava. Que tipo de homem roubava os
direitos de nascença do próprio irmão? Não tenho direito a isto,
pensou, tal como não tenho direito a Gelo. Contraiu subitamente os
dedos, sentindo uma palpitação de dor bem fundo sob a pele.
- Senhor, honra-me, mas. .
- Poupe-me os seus mas, rapaz - interrompeu Lorde Mormont. - Não
estaria aqui se não fosse você e aquele seu animal. Lutou
bravamente... e, mais importante, pensou depressa. Fogol Sim,
maldição. Já devíamos saber. Devíamos ter lembrado, A Longa Noite
já chegou antes. Ah, oito mil anos é bastante tempo, com certeza...
mas, se a Patrulha da Noite não recorda, quem recordará?
"Quem recordara, concordou o corvo falador."Quem recordará"
Na verdade, os deuses tinham atendido às preces de Jon naquela
noite; o fogo pegara nas roupas do morto e o consumira como se a
carne fosse cera e os ossos, madeira velha e seca. Bastava a Jon
fechar os olhos para ver a coisa cambalear no aposento privado,
esbarrando contra a mobília e batendo nas chamas. Era o rosto que
mais o assombrava; rodeado por uma auréola de fogo, com os
cabelos em brasa como se fossem palha, a carne morta derretendo e
escorrendo do crânio, revelando o brilho do osso que estava por
baixo.
Qualquer que fosse a força demoníaca que animava Othor, fora
expulsa pelas chamas; a coisa retorcida que tinham encontrado nas
cinzas não passava de carne queimada e ossos carbonizados. Mas em
seus pesadelos voltava a enfrentá-la... e dessa vez o cadáver ardente
tinha as feições de Lorde Eddard. Era a pele do pai que estourava e
enegrecia, os olhos do pai que escorriam pelo rosto como lágrimas
de gelatina. Jon não compreendia por que era assim, ou o que aquilo
significava, mas o assustava mais do que era capaz de exprimir.
- Uma espada é pagamento pequeno por uma vida - concluiu
Mormont. - Fique com ela. Não quero mais ouvir falar disso,
compreendido?
- Sim, senhor - o couro suave cedeu sob os dedos de Jon, como se a
espada já estivesse se moldando à sua mão. Sabia que devia sentir-se
honrado, e se sentia, no entanto...
Ele não é meu pai, O pensamento surgiu sem ser convidado na
mente de Jon. Lorde Eddard Stark é meu pai. Não o esquecerei, e não
importa quantas espadas me ofereçam. Mas não podia dizer a Lorde
Mormont que era com a espada de outro homem que sonhava..
- Também não quero cortesias - disse Mormont -, por isso, não me