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agradeça. Honre o aço com ações, não com palavras.

Jon fez um aceno com a cabeça.

- Tem nome, senhor?

- Em tempos passados teve. Chamava-se Garralonga. "Garra", gritou

o corvo."Garra"

- Garralonga é um bom nome - Jon experimentou um golpe. Era

desastrado e sentia-se desconfortável com a mão esquerda, mas

mesmo assim o aço pareceu fluir pelo ar, como se tivesse vontade

própria. - Os lobos têm garras, tal como os ursos.

O Velho Urso parecia satisfeito.

- Suponho que sim. Imagino que vá preferir usar isso sobre o ombro.

E longa demais para a coxa, pelo menos até que cresça um pouco

mais. E será preciso praticar seus golpes com as duas mãos. Sor

Endrew pode lhe mostrar alguns movimentos quando as

queimaduras sararem.

- Sor Endrew? - Jon não conhecia o nome.

- Sor Endrew Tarth, um bom homem. Vem a caminho, desde a Torre

das Sombras, para assumir o cargo de mestre de armas. Sor Alliser

Thorne partiu ontem de manhã para Atalaialeste do Mar.

Jon baixou a espada.

- Por quê? - perguntou, estupidamente.

Mormont resfolegou.

- Por que o mandei, o que acha? Transporta a mão que o seu

Fantasma arrancou do pulso de Jafer Flowers. Ordenei-lhe que

embarcasse para Porto Real e a apresentasse a esse rei rapaz. Isso

deve chamar a atenção do jovem Joffrey, julgo eu... e Sor Alliser é um

cavaleiro, bem-nascido, ungido, com velhos amigos na corte, muito

mais difícil de ignorar que uma gralha com fama de grandeza.

"Gralha," Pareceu a Jon que o corvo soava vagamente indignado.

- E, além disso - prosseguiu o Senhor Comandante, ignorando o

protesto da ave -, coloca mil léguas entre você e ele sem que pareça

uma reprimenda - sacudiu o dedo na cara de Jon. - E não pense que

isto quer dizer que aprovo aquele disparate na sala comum. O valor

compensa um bom bocado de tolice, mas já não é um rapaz,

independente da idade que tenha. Isso que tem aí é uma espada de

homem, e é preciso ser homem para brandi-la. Espero que de hoje

em diante desempenhe esse papel.

- Sim, senhor - Jon voltou a enfiar a espada na bainha ligada com

prata. Mesmo que não fosse a lâmina que ele teria escolhido, era de

qualquer forma um presente nobre, e libertá-lo da malevolência de

Alliser Thorne era mais nobre ainda.

O Velho Urso coçou o queixo.

- Tinha me esquecido de como uma barba nova dá comichão - disse.

- Bem, não há como evitá-la. Estará essa sua mão suficientemente sã

para retomar seus deveres?

- Sim, senhor.

- Ótimo. A noite será fria e vou querer vinho quente com especiarias.

Arranje-me um jarro de tinto que não seja demasiado amargo, e não

seja sovina com as especiarias. E diga a Hobb que, se voltar a me

enviar carneiro cozido, o mais certo é que eu o cozinhe. Aquele

último quadril estava cinzento. Nem o pássaro o tocou - afagou a

cabeça do corvo com o polegar, e a ave soltou um quorc de

satisfação. - Desapareça. Tenho trabalho a fazer.

Os guardas sorriram-lhe de seus nichos enquanto ia serpenteando

pela escada da torre abaixo, levando a espada na mão boa.

- Bom aço - disse um homem.

- Você ganhou isso, Snow - disse-lhe outro. Jon obrigou-se a sorrir-

lhes de volta, mas não pôs o coração nos sorrisos. Sabia que devia

estar contente, mas não se sentia assim. A mão doía-lhe, e tinha na

boca o sabor da ira, embora não pudesse explicar com o que estava

irritado, ou por quê.

Meia dúzia dos seus amigos estava à espreita lá fora quando saiu da

Torre do Rei, onde o Senhor Comandante Mormont residia agora.

Tinham pendurado um alvo na porta do celeiro, para que

parecessem estar afinando a sua perícia como arqueiros, mas Jon

reconhecia tocaias quando as via. Assim que surgiu, Pyp chamou:

- Então, vem cá, deixe-me ver.

- O quê? - perguntou Jon. Sapo aproximou-se de lado.

- Sua bunda rosada, o que havia de ser?

- A espada - declarou Grenn. - Queremos ver a espada.

Jon varreu-os com um olhar acusador.

- Todos sabiam.

Pyp sorriu.

- Nem todos somos tão estúpidos como Grenn.

- São, sim - insistiu Grenn. - São mais estúpidos.

Halder encolheu os ombros como que pedindo desculpa.

- Ajudei o Pate a esculpir a pedra para o botão - disse o construtor e

seu amigo Sam comprou as granadas em Vila Toupeira.

- Mas já sabíamos mesmo antes disso - disse Grenn. - Rudge tem

ajudado Donal Noye na forja. Estava lá quando o Velho Urso lhe

levou a lâmina queimada.

- A espada! - insistiu Matt. Os outros se juntaram ao cântico. - A

espada, a espada, a espada. Jon desembainhou Garralonga e a

mostrou, virando-a de um lado para o outro para que pudessem

admirá-la. A lâmina bastarda cintilava à luz clara do dia, escura e

mortífera.

- Aço valiriano - declarou solenemente, tentando soar tão satisfeito e

orgulhoso como deveria se sentir.

- Ouvi falar de um homem que tinha uma navalha feita de aço

valiriano - Sapo declarou. - Cortou a cabeça ao tentar fazer a barba.

Pyp deu um sorriso.

- A Patrulha da Noite tem milhares de anos de idade - disse -, mas

aposto que Lorde Snow é o primeiro irmão a receber honrarias por

destruir a Torre do Senhor Comandante com um incêndio.

Os outros riram, e até Jon teve de sorrir. O incêndio que iniciara não

tinha, na verdade, destruído aquela formidável torre de pedra, mas

fizera um bom trabalho em devastar o interior dos dois andares

superiores, onde o Velho Urso tinha seus aposentos. Isso não parecia

preocupar ninguém por lá, visto que também destruíra o cadáver

assassino de Othor.

A outra criatura, a coisa com uma mão só que outrora fora um

patrulheiro chamado Jafer Flowers, também foi destruída, quase

cortada aos pedaços por uma dúzia de espadas..., mas não antes de

ter matado Sor Jaremy Rykker e mais quatro homens. Sor Jaremy

concluíra o serviço de lhe arrancar a cabeça, mas morrera mesmo

assim quando o cadáver sem cabeça lhe tirara o punhal da bainha e

o enterrara nas entranhas. A força e a coragem não eram grande

vantagem contra inimigos que não caíam porque já estavam mortos;

até as armas e as armaduras davam pouca proteção. Esse sombrio

pensamento amargava o frágil humor de Jon.

- Tenho de falar com Hobb sobre o jantar do Velho Urso - anunciou

bruscamente, devolvendo Garralonga à bainha. Os amigos tinham

boas intenções, mas não compreendiam. Não era culpa deles, na

verdade; não tinham tido de enfrentar Othor, não tinham visto o

pálido brilho daqueles olhos mortos e azuis, não tinham sentido o

frio daqueles dedos mortos e negros. Nem sabiam da luta nas terras

fluviais. Como poderia esperar que compreendessem? Virou-lhes as

costas abruptamente e afastou-se a passos largos, carrancudo. Pyp o

chamou, mas Jon não lhe deu atenção.

Depois do incêndio, tinham-no instalado de novo em sua antiga cela,

na arruinada Torre de Hardin, e foi para lá que regressou. Fantasma

estava adormecido, enrolado sobre si mesmo junto à porta, mas

ergueu a cabeça ao ouvir as botas de Jon. Os olhos vermelhos do