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lobo selvagem eram mais escuros que granadas e mais sábios que os

dos homens. Jon ajoelhou, coçou sua orelha e mostrou-lhe o botão da

espada.

- Olha. É você.

Fantasma farejou o retrato de rocha esculpida e experimentou lambê-

lo. Jon sorriu.

- É você quem merece a honra - disse ao lobo... e subitamente

lembrou-se de como o encontrara, naquele dia, na neve do fim do

verão. Afastavam-se com as outras crias, mas Jon ouvira um ruído e

se virara, e ali estava ele, de pelos brancos, quase invisível no meio da

neve. Estava sozinho, pensou, longe do resto da ninhada. Era

diferente, e por isso fora afastado.

- Jon? - ele ergueu o olhar. Samwell Tarly estava lá, balançando-se

nervosamente nos calcanhares. Tinha as bochechas coradas e

enrolava-se num pesado manto de peles que fazia com que parecesse

estar pronto para a hibernação.

- Sam - Jon pôs-se em pé. - O que se passa? Quer ver a espada? - se

os outros tinham sabido, sem dúvida Sam também sabia.

O rapaz gordo abanou a cabeça.

- Em tempos passados fui herdeiro da lâmina de meu pai - disse ele

num tom soturno. -Coração da Morte. Lorde Randyll deixou-me

pegá-la algumas vezes, mas sempre me assustou. Era de aço

valiriano, bela, mas tão aguçada que tinha medo de machucar uma

das minhas irmãs. Deve ser Dickon quem a tem agora - esfregou as

mãos suadas no manto. - Eu.. ah.. Meistre Aemon quer vê-lo.

Não era o momento de mudar as ataduras. Jon franziu as

sobrancelhas, com suspeita.

- Por quê? - quis saber. Sam fez uma expressão infeliz. Era resposta

suficiente. - Você lhe disse, não foi? - perguntou Jon em tom de

zanga. - Você disse que me contou.

- Eu.. ele... Jon, eu não queria... ele perguntou.. ou melhor... eu acho

que ele sabia, ele vê coisas que mais ninguém vê..

- Ele é cego - Jon rebateu energicamente, descontente, - Eu sei o

caminho - deixou Sam ali, de pé, de boca aberta e tremendo.

Encontrou Meistre Aemon no viveiro, alimentando os corvos. Clydas

estava com ele, levando um balde de carne picada de gaiola em

gaiola.

- Sam disse que quer falar comigo?

O meistre confirmou com um meneio.

- É verdade. Clydas, dê o balde a Jon. Talvez ele tenha a bondade de

me ajudar - o irmão corcunda de olhos rosados entregou o balde a

Jon e desceu precipitadamente a escada. - Atire a carne nas gaiolas -

instruiu Aemon. - As aves farão o resto.

Jon passou o balde para a mão direita e enfiou a esquerda nos

pedaços ensanguentados. Os corvos desataram a crocitar

ruidosamente e a voar de encontro às grades, batendo no metal com

asas negras como a noite. A carne tinha sido cortada em pedaços que

não eram maiores que uma falange. Encheu a mão e atirou as fatias

cruas para dentro da gaiola, e os grasnidos e as brigas tornaram-se

mais acalorados. Voaram penas quando dois dos pássaros maiores

começaram a lutar por um pedaço. Com rapidez, Jon agarrou uma

segunda mão-cheia e atirou-a para a gaiola.

- O corvo de Lorde Mormont gosta de fruta e milho.

- E uma ave rara - disse o meistre. - A maioria dos corvos come

grãos, mas prefere carne. Torna-os fortes, e temo que apreciem o

gosto do sangue. Nisso, são como os homens... e tal como os homens,

nem todos os corvos são iguais.

Jon nada tinha a responder àquilo. Atirou carne, perguntando a si

mesmo por que teria sido chamado. Não havia dúvida de que o velho

acabaria dizendo, a seu próprio tempo. Meistre Aemon não era

homem que se pudesse apressar.

- Os pombos também podem ser treinados para transportar

mensagens - prosseguiu o meistre -, embora o corvo seja um voador

mais forte, maior, mais ousado, muito mais inteligente, mais capaz de

se defender contra falcões.. , mas os corvos são negros, e comem os

mortos, por isso alguns homens piedosos os detestam. Baelor, o Bem-

Aventurado, tentou substituir todos os corvos por pombas, sabia? - o

meistre virou os olhos brancos para Jon, sorrindo. - A Patrulha da

Noite prefere corvos.

Os dedos de Jon estavam no balde, com sangue até o pulso.

- Dywen diz que os selvagens nos chamam de gralhas - ele disse em

tom incerto.

- A gralha é a prima pobre do corvo. São ambos pedintes de negro,

odiados e incompreendidos.

Jon quis compreender qual era o assunto da conversa, e o motivo.

Que lhe interessavam corvos e pombas? Se o velho tivesse alguma

coisa a lhe dizer, por que não podia simplesmente dizê-la?

- Jon, alguma vez perguntou a si mesmo por que é que os homens da

Patrulha da Noite não têm esposas nem geram filhos? - perguntou

Meistre Aemon.

Jon encolheu os ombros.

- Não - espalhou mais um pouco de carne. Tinha os dedos da mão

esquerda escorregadios com o sangue, e a direita latejava por causa

do peso do balde.

- Para que não amem - respondeu o velho -, pois o amor é o veneno

da honra, a morte do dever.

Aquilo não lhe soava correto, mas nada disse. O meistre tinha cem

anos e era um grande oficial da Patrulha da Noite; não lhe competia

contradizê-lo. O homem idoso pareceu sentir suas dúvidas.

- Diga-me, Jon, se chegar o dia em que o senhor seu pai tiver de

escolher entre a honra por um lado e aqueles que ama pelo outro, o

que fará?

Jon hesitou. Queria dizer que Lorde Eddard nunca se desonraria,

nem mesmo por amor, mas dentro de si uma pequena voz

zombeteira segredou: Ele foi pai de um bastardo, onde está a honra

nisso? E tua mãe, que foi feito dos deveres dele para com ela, se nem

sequer lhe pronuncia o nome?

- Faria o que estivesse certo - disse... com uma voz ressonante, para

compensar a hesitação. - Acontecesse o que acontecesse.

- Então Lorde Eddard é um homem entre dez mil. A maior parte de

nós não é tão forte. O que é a honra comparada com o amor de uma

mulher? O que é o dever contra sentir um filho recém-nascido nos

braços... ou a memória do sorriso de um irmão? Vento e palavras.

Vento e palavras. Somos apenas humanos, e os deuses nos moldaram

para o amor. Esta é a nossa grande glória e a nossa grande tragédia.

Os homens que criaram a Patrulha da Noite sabiam que só a

coragem defenderia o reino da escuridão do Norte. Sabiam que não

podiam ter as lealdades divididas que lhes enfraquecessem a

determinação. Por isso juraram não ter esposas nem filhos. Mas

tinham irmãos e irmãs. Mães que os tinham dado à luz, pais que lhes

tinham dado nomes. Chegavam de uma centena de reinos

conflituosos e sabiam que os tempos podiam mudar, mas os homens

não mudam. Por isso juraram também que a Patrulha da Noite não

participaria das batalhas dos reinos que guardava. Mantiveram o

juramento. Quando Aegon assassinou o Negro Harren e lhe

conquistou o reino, o irmão de Harren era Senhor Comandante na

Muralha, com dez mil espadas à mão. Não se pôs em marcha. Nos

dias em que os Sete Reinos eram sete reinos, não se passava uma

geração sem que três ou quatro deles estivessem em guerra. A

Patrulha não participou. Quando os ândalos atravessaram o Mar

Estreito e varreram os reinos dos Primeiros Homens, os filhos dos

reis caídos mantiveram-se fiéis aos seus votos e permaneceram em