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seus postos. Sempre foi assim, ao longo de anos incontáveis. É este o

preço da honra. Um covarde pode ser tão bravo como qualquer

homem quando não há nada a temer. E todos cumprimos o nosso

dever quando ele não tem um preço. Como parece fácil então seguir

o caminho da honra. Mas, cedo ou tarde, na vida de todos os homens

chega um dia em que não é fácil, um dia em que ele tem de escolher.

Alguns dos corvos ainda estavam comendo, com longos pedaços

fibrosos de carne balançando dos bicos. Os outros pareciam observá-

lo. Jon conseguia sentir o peso de todos aqueles minúsculos olhos

negros.

- E este é o meu dia. . é isso o que está dizendo?

Meistre Aemon virou a cabeça e o olhou com aqueles alvos olhos

mortos. Era como se estivesse olhando diretamente para o seu

coração. Jon sentiu-se nu e exposto. Pegou o balde com as duas mãos

e atirou o resto do conteúdo por entre as grades. Pedaços de carne e

sangue voaram para todo o lado, espantando os corvos. Levantaram

voo, gritando como loucos. As aves mais rápidas apanharam nacos

em pleno voo e engoliram avidamente. Jon deixou o balde vazio tinir

no chão.

O velho pousou a mão murcha e manchada em seu ombro.

- Dói, rapaz - disse ele em voz baixa. - Ah, sim. Escolher.,, sempre

doeu. E sempre doera. Eu sei.

- O senhor não sabe - disse Jon com amargura. - Ninguém sabe.

Mesmo que eu seja seu bastardo, ainda assim ele é meu pai...

Meistre Aemon suspirou.

- Não ouviu nada do que eu disse, Jon? Pensa que é o primeiro? -

sacudiu a velha cabeça, gesto de um cansaço impossível de descrever.

- Três vezes acharam os deuses por bem testar os meus votos. Uma

vez quando era rapaz, uma vez em plena idade adulta e uma vez

depois de envelhecer. Nessa altura, já as forças me tinham fugido, já

os olhos viam mal, mas essa última escolha foi tão cruel como a

primeira. Meus corvos traziam as notícias do Sul, palavras mais

escuras que suas asas, a ruína da minha Casa, a morte dos meus,

desgraça e desolação. Que poderia eu ter feito, velho, cego e frágil?

Estava tão impotente como um bebê de colo, mas mesmo assim me

magoava estar imóvel e esquecido enquanto abatiam o pobre neto de

meu irmão, e o filho dele, e até as crianças pequenas...

Jon ficou chocado ao ver o brilho de lágrimas nos olhos do idoso.

- Quem é o senhor? - perguntou em voz baixa, quase aterrorizado.

Um sorriso sem dentes estremeceu naqueles velhos lábios.

- Apenas um meistre da Cidadela a serviço do Castelo Negro e da

Patrulha da Noite. Na minha ordem, pomos de lado os nomes de

nossas Casas quando fazemos os votos e colocamos o colar - o velho

tocou a corrente de meistre que pendia solta em torno do pescoço

fino e descarnado. - Meu pai foi Mekar, o Primeiro de Seu Nome, e

meu irmão Aegon reinou depois dele em meu lugar. Meu avô deu-me

o nome em honra do Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, que

era seu tio, ou seu pai, depende da lenda em que se acredite.

Chamou-me Aemon..

- Aemon.. Targaryen? - Jon quase não conseguia acreditar.

- Outrora - disse o velho. - Outrora. Portanto, como vê, Jon, eu sei..

e, sabendo, não lhe direi fica ou vai. Você tem de fazer essa escolha,

e viver com ela pelo resto de seus dias. Como eu - a voz reduziu-se a

um suspiro. - Como eu. .

Daenerys

Depois da batalha, Dany levou a sua prata pelos campos de mortos.

As aias e os homens do seu khas vinham atrás, sorrindo e brincando

uns com os outros. Cascos dothrakis tinham rasgado a terra e

esmagado o centeio e as lentilhas, enquanto arakhs e setas semeavam

uma terrível nova cultura e a regavam com sangue. Cavalos

moribundos erguiam a cabeça e gritavam quando ela passava por

eles. Homens feridos gemiam e rezavam. Jaqqa rhan deslocavam-se

entre eles, os homens da misericórdia com os seus pesados

machados, fazendo colheita das cabeças dos mortos e moribundos.

Depois deles, viria um bando de mocinhas, arrancando setas dos

cadáveres até encher os cestos. E por fim viriam os cães, farejando,

magros e famintos, a matilha selvagem que nunca andava muito

longe do khalasar.

As ovelhas eram as que estavam mortas havia mais tempo. Parecia

ter milhares delas, negras de moscas, com setas espetadas em todas

as carcaças. Dany sabia que os homens de Khal Ogo tinham feito

aquilo; nenhum homem do khalasar de Drogo seria tão tolo que

desperdiçasse setas em ovelhas quando ainda havia pastores para

matar.

A vila estava em chamas, com negras colunas de fumaça rodopiando

enquanto se erguiam ao céu de um tom duro de azul. A sombra de

muros derrubados de barro seco, cavaleiros galopavam para lá e para

cá, brandindo seus longos chicotes enquanto pastoreavam os

sobreviventes para fora do entulho fumegante. As mulheres e

crianças do khalasar de Ogo caminhavam com um orgulho taciturno,

mesmo derrotadas e amarradas; eram agora escravas, mas não

pareciam temer essa condição. Com o povo da vila era diferente.

Dany sentia pena deles; lembrava-se do terror. Mães avançavam aos

tropeções, com o rosto vazio e morto, puxando pela mão crianças

soluçando. Havia apenas um punhado de homens entre eles,

aleijados, covardes e avôs.

Sor Jorah dizia que o povo daquele país chamava a si próprio

lhazareno, mas os dothrakis o chamavam de haesh rakhi, os Homens-

Ovelhas. Em outros tempos, Dany poderia tê-los tomado por

dothraki, pois possuíam a mesma pele acobreada e os olhos

amendoados. Agora, pareciam--lhe estranhos, atarracados e de rosto

achatado, com os cabelos negros cortados curtos de forma estranha.

Eram pastores de ovelhas e comedores de vegetais, e Khal Drogo

dizia que pertenciam ao sul da curva do rio. O capim do mar

dothraki não se destinava a ovelhas.

Dany viu um rapaz saltar e correr para o rio. Um cavaleiro cortou-

lhe o caminho e o fez virar--se, e os outros o encurralaram, fazendo

estalar os chicotes em seu rosto, obrigando-o a correr para lá e para

cá. Um galopou atrás dele, chicoteando-o nas nádegas até lhe deixar

as coxas vermelhas de sangue. Outro o apanhou pelo tornozelo, com

uma chicotada que o fez estatelar-se. Por fim, quando o rapaz

conseguia somente rastejar, fartaram-se da brincadeira e enfiaram-lhe

uma seta nas costas.

Encontrou Sor Jorah junto ao portão despedaçado. Usava uma capa

verde-escura sobre a cota de malha. Suas manoplas, grevas e elmo

eram de aço cinza-escuro. Os dothrakis o tinham chamado de

covarde quando pusera a armadura, mas o cavaleiro cuspira insultos

de volta, os ânimos tinham se exaltado, a espada longa colidira com o

arakh, e o guerreiro cuja troça fora mais sonora tinha sido deixado

para trás, sangrando até a morte.

Sor Jorah ergueu o visor de seu elmo de topo achatado ao se

aproximar.

- O senhor vosso esposo a espera na vila.

- Drogo não se feriu?

- Alguns golpes - respondeu Sor Jorah -, nada de mais. Matou hoje

dois khals. Primeiro Khal Ogo, e depois o filho, Fogo, que se tornou

khal quando Ogo caiu. Seus companheiros de sangue cortaram os