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sinos dos cabelos deles, e agora cada passo de Khal Drogo ressoa

mais alto que antes.

Ogo e o filho tinham partilhado o banco elevado com Drogo no

banquete de batismo onde Viserys fora coroado, mas isso acontecera

em Vaes Dothrak, à sombra da Mãe das Montanhas, onde todos os

cavaleiros são irmãos e todas as querelas são postas de lado. No

campo, as coisas eram diferentes. O khalasar de Ogo estava atacando

a vila quando Khal Drogo o pegou. Dany perguntava a si mesma o

que teriam pensado os Homens-Ovelhas quando viram pela primeira

vez a poeira levantada pelos seus cavalos de cima daquelas muralhas

de barro rachado. Talvez alguns, os mais novos e mais tolos, que

ainda julgavam que os deuses escutavam as preces dos homens

desesperados, a tivessem tomado por salvamento.

Do outro lado da estrada, uma jovem que não era mais velha que

Dany soluçou numa voz fina e frágil quando um cavaleiro a atirou

para cima de uma pilha de cadáveres, de barriga para baixo, e se

enterrou nela. Outros cavaleiros desmontaram para aguardar a sua

vez. Era aquele o tipo de salvamento que os dothrakis traziam aos

Homens-Ovelhas.

Sou do sangue do dragão, recordou Daenerys Targaryen a si mesma

enquanto virava o rosto. Apertou os lábios, endureceu o coração e

continuou a seguir para o portão,

- A maior parte dos guerreiros de Ogo fugiu - disse Sor Jorah. -

Mesmo assim, pode haver até dez mil cativos.

Escravos, pensou Dany. Khal Drogo os levaria ao longo do rio até

uma das vilas da Baía dos Escravos. Quis chorar, mas disse a si

mesma que tinha de ser forte. Isto é a guerra, é assim que ela é, é

este o preço do Trono de Ferro.

- Disse ao khal que devíamos rumar a Meereen - Sor Jorah

continuou. - Pagarão melhor preço do que ele obteria de uma

caravana de escravos. Illyrio escreve que tiveram uma praga no ano

passado, e por isso os bordéis estão pagando o dobro por garotas

saudáveis, e o triplo por rapazes com menos de dez anos. Se crianças

suficientes sobreviverem à viagem, o ouro pagará todos os navios de

que precisarmos e contratará os homens para navegá-los.

Atrás deles, a moça que estava sendo violentada soltou um som de

cortar o coração, um longo lamento soluçante que durava, durava,

durava. A mão de Dany apertou as rédeas com força e virou a cabeça

da prata.

- Faça-os parar - ordenou a Sor Jorah.

- Khaleesi? - o cavaleiro parecia perplexo.

- Faça o que digo. Quero que os pare agora - falou ao seu khas com

o tom duro dos dothrakis. - Jhogo, Quaro, vão ajudar Sor Jorah. Não

quero mais violações.

Os guerreiros trocaram um olhar desconcertado. Jorah Mormont

trouxe seu cavalo para mais perto.

- Princesa - disse -, tem um coração gentil, mas não compreende. Foi

sempre assim. Estes homens derramaram sangue pelo khal. Agora

reclamam a recompensa.

Do outro lado da estrada a jovem ainda chorava, numa língua aguda

e cantante, estranha aos ouvidos de Dany. O primeiro homem já

tinha se despachado, e o segundo tomara-lhe o lugar.

- Ela é uma mulher-ovelha - disse Quaro em dothraki. - Não é nada,

kbaleesi. Os cavaleiros a estão honrando. Os Homens-Ovelhas

dormem com ovelhas, é sabido.

- É sabido - ecoou a aia Irri.

- É sabido - concordou Jhogo, escarranchado no grande garanhão

cinzento que Drogo lhe oferecera. - Se seus lamentos ofendem vossos

ouvidos, Jhogo cortará sua língua - e puxou o arakh,

- Não quero que a machuquem - disse Dany. - Eu a reivindico. Façam

o que lhes ordeno, ou Khal Drogo saberá por quê.

- Sim, kbaleesi - respondeu Jhogo, batendo com os calcanhares no

cavalo. Quaro e os outros o seguiram, com os sinos nos cabelos a

repicar.

- Vá com eles - ordenou a Sor Jorah.

- Às suas ordens - o cavaleiro deu-lhe um olhar estranho. - É mesmo

irmã de seu irmão.

- Viserys? - Dany não compreendeu.

- Não - respondeu ele. - Rhaegar - e afastou-se a galope.

Dany ouviu Jhogo gritar. Os violadores riram dele. Um homem gritou

de volta. O arakh de Jhogo relampejou, e a cabeça do homem

tombou de cima de seus ombros. Os risos transformaram-se em

pragas quando os cavaleiros levaram a mão às armas, mas, nessa

altura, Quaro, Aggo e Rakharo já se encontravam lá. Viu Aggo

apontar para o lugar, do outro lado da estrada, onde ela se

encontrava montada na sua prata. Os cavaleiros olharam-na com

frios olhos negros. Um cuspiu. Os outros retornaram às suas

montarias, resmungando.

Enquanto isso, o homem que estava sobre a jovem continuava a

entrar e sair dela, tão concentrado em seu prazer que parecia não se

dar conta do que se passava à sua volta. Sor Jorah desmontou e

arrancou-o da moça com a mão revestida de cota de malha. O

dothraki estatelou-se na lama, saltou com a faca na mão e morreu

com uma seta de Aggo na garganta. Mormont puxou a moça da pilha

de cadáveres e a enrolou em seu manto salpicado de sangue. Levou-a

até Dany.

- Que quer que façamos com ela?

A jovem tremia, de olhos dilatados e vagos. Os cabelos estavam

empastados de sangue.

- Doreah, trate de suas feridas. Não se parece com um cavaleiro, ela

talvez não a tema. O resto, comigo - e levou a prata através do

portão quebrado de madeira.

Dentro da vila era pior. Muitas das casas estavam em chamas, e os

jaqqa rhan tinham já desempenhado o seu macabro serviço.

Cadáveres sem cabeça enchiam as ruelas estreitas e sinuosas.

Passaram por outras mulheres que estavam sendo violentadas. Em

todas as vezes, Dany puxava as rédeas, mandava seu khas pôr fim

àquilo e levava a vítima como escrava. Uma delas, uma mulher de

quarenta anos, de corpo largo e nariz achatado, abençoou

hesitantemente Dany no Idioma Comum, mas das outras obteve

apenas olhares negros e sem vida. Compreendeu com tristeza que

suspeitavam dela; temiam que as tivesse poupado para um destino

pior.

- Não pode levar todas, menina - disse Sor Jorah da quarta vez que

pararam, enquanto os guerreiros de seu khas reuniam as novas

escravas atrás dela,

- Sou khaleesi, herdeira dos Sete Reinos, do sangue do dragão -

recordou-lhe Dany. - Não lhe cabe dizer o que eu não posso fazer -

do outro lado da cidade um edifício ruiu numa grande nuvem de

fogo e fumaça, e ouviam-se gritos distantes e lamentos de crianças

assustadas.

Encontraram Khal Drogo sentado fora de um templo quadrado sem

janelas, com muros largos de barro e uma cúpula bulbosa que

parecia uma imensa cebola marrom. A seu lado encontrava-se uma

pilha de cabeças mais alta que ele. Uma das setas curtas dos

Homens-Ovelhas estava espetada na carne de seu antebraço, e

sangue cobria o lado esquerdo do peito nu como um salpico de tinta.

Seus três companheiros de sangue estavam com ele.

Jhiqui ajudou Dany a desmontar; tinha-se tornado desajeitada à

medida que a barriga se tornava maior e mais pesada. Ajoelhou-se

perante o khal.

- O meu sol-e-estrelas está ferido - o golpe de arakh era longo, mas