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pouco profundo; o mamilo esquerdo desaparecera, e uma aba

sangrenta de carne e pele pendia-lhe do peito como um trapo

molhado.

- É arranhão, lua da minha vida, de arakh de companheiro de sangue

de Khal Ogo - disse Khal Drogo no Idioma Comum. - Matar ele por

isso, e Ogo também - virou a cabeça, com as campainhas da trança a

ressoar suavemente. - É Ogo que ouve, e Fogo, seu khalakka, que era

khal quando o matei.

- Não há homem capaz de enfrentar o sol da minha vida - disse

Dany -, o pai do garanhão que monta o mundo.

Um guerreiro montado aproximou-se e saltou da sela. Falou com

Haggo, uma torrente de dothraki zangado rápida demais para Dany

compreender. O enorme companheiro de sangue lançou-lhe um olhar

pesado antes de se virar para seu khal.

- Este é Mago, que cavalga, no khas de Ko Jhaqo. Diz que khaleesi

ficou com sua presa, uma filha das ovelhas que era para ele montar.

O rosto de Khal Drogo estava parado e duro, mas os olhos negros

estavam curiosos quando se dirigiram a Dany.

- Conte-me a verdade disto, lua da minha vida - ordenou em

dothraki.

Dany contou-lhe o que fizera, em sua língua, para que o khal a

compreendesse melhor, com palavras simples e diretas.

Quando terminou, a testa de Drogo estava franzida.

- São estes os costumes da guerra. Essas mulheres são agora nossas

escravas, para que façamos o que quisermos delas.

- Gostaria de mantê-las a salvo - disse Dany, perguntando-se se

estaria se atrevendo demais. - Se seus guerreiros quiserem montar

estas mulheres, que as tomem com gentileza e as mantenham como

esposas. Que lhes dêem lugares no khalasar e que lhes façam filhos.

Qotho era sempre o mais cruel dos companheiros de sangue. Foi ele

que riu.

- Será que o cavalo se reproduz com ovelhas?

Algo no tom dele lembrou-lhe Viserys. Dany virou-se para ele,

zangada.

- O dragão alimenta-se quer de cavalos quer de ovelhas. Khal Drogo

sorriu.

- Vejam como ela se faz feroz! - disse. - É meu filho dentro dela, o

garanhão que monta o mundo, que a enche com o seu fogo. Monta

devagar, Qotho... se a mãe não te queimar no lugar onde se senta, o

filho te esmagará na lama. E você, Mago, recolhe a língua e encontra

outra ovelha para montar. Estas pertencem à minha khaleesi -

começou a estender a mão para Daenerys, mas, ao erguer o braço,

Drogo fez um súbito esgar de dor e virou a cabeça.

Dany quase conseguia sentir a agonia dele. As feridas eram piores do

que Sor Jorah dissera.

- Onde estão os curandeiros? - exigiu saber. O khalasar tinha dois

tipos: mulheres estéreis e escravos eunucos. As ervanárias lidavam

com poções e feitiços; os eunucos, com facas, agulhas e fogo. - Por

que não tratam do khal?

- O khal mandou o homem sem cabelo embora, khaleesi - garantiu-

lhe o velho Cohollo. Dany viu que o companheiro de sangue também

tinha sido ferido; um golpe profundo no ombro esquerdo.

- Há muitos guerreiros feridos - disse teimosamente Khal Drogo. -

Que sejam curados primeiro. Esta seta não é mais que uma picada

de mosca; este pequeno corte é só uma nova cicatriz de que me

gabar perante meu filho.

Dany via os músculos de seu peito onde a pele fora arrancada. Um

fio de sangue corria da seta que lhe perfurara o braço.

- Não cabe ao Khal Drogo esperar - proclamou. - Jhogo, procure

esses eunucos e os traga imediatamente.

- Senhora de prata - disse uma voz de mulher atrás dela -, eu posso

ajudar o Grande Cavaleiro com as suas feridas.

Dany virou a cabeça. Quem falava era uma das novas escravas, a

mulher pesada de nariz achatado que a abençoara.

- O khal não precisa de ajuda de mulheres que dormem com ovelhas

- ladrou Qotho. - Aggo, corte-lhe a língua.

Aggo agarrou-lhe os cabelos e empurrou uma faca contra a garganta

da mulher. Dany ergueu a mão.

- Não. Ela é minha. Deixem-na falar.

Os olhos de Aggo saltaram dela para Qotho, e abaixou a faca.

- Não pretendo fazer nenhum mal, ferozes cavaleiros - a mulher

falava dothraki bem. Os trajes que usava tinham sido feitos das mais

leves e melhores lãs, ricas de bordados, mas agora estavam cobertos

de lama, ensanguentados e rasgados. A mulher apertou o pano

esfarrapado do corpete contra os pesados seios, - Tenho alguns

conhecimentos nas artes curativas.

- Quem é você? - perguntou-lhe Dany.

- Chamam-me Mirri Maz Duur. Sou esposa de deus neste templo.

- Maegi - grunhiu Haggo, passando os dedos pelo arakh. Tinha o

olhar escuro. Dany lembrava-se da palavra de uma história

aterrorizadora que Jhiqui lhe contara uma noite junto à fogueira.

Uma maegi era uma mulher que dormia com demônios e praticava a

mais negra das feitiçarias, uma coisa vil, maldosa e sem alma, que

vinha até os homens no escuro da noite e sugava a vida e a força de

seus corpos.

- Sou uma curandeira - disse Mirri Maz Duur.

- Uma curandeira de ovelhas - escarneceu Qotho. - Sangue do meu

sangue, eu digo que matemos esta maegi e que esperemos pelos

homens sem cabelo.

Dany ignorou a explosão do companheiro de sangue. Aquela mulher

idosa, modesta e gorda não lhe parecia uma maegi.

- Onde aprendeu a sua arte, Mirri Maz Duur?

- Minha mãe foi esposa de deus antes de mim e ensinou-me todas as

canções e feitiços que mais agradam ao Grande Pastor, e como fazer

os fumos sagrados e unguentos das folhas, raízes e bagas. Quando

era mais nova e mais bonita, fui numa caravana a Asshai da Sombra,

para estudar com os magos de lá. Chegam navios de muitas terras a

Asshai, e fiquei durante muito tempo estudando os costumes de

curar de povos distantes. Uma cantora de lua de Jogos Nhai deu-me

de presente as suas canções de parto, uma mulher do vosso povo

cavaleiro ensinou-me as magias do capim, dos grãos e dos cavalos, e

um meistre das Terras do Poente abriu um cadáver e mostrou--me

todos os segredos que se escondem sob a pele. Sor Jorah Mormont

interveio.

- Um meistre?

- Chamava-se Marwyn - respondeu a mulher no Idioma Comum. -

Do mar. Do outro lado do mar. As Sete Terras, disse ele. Terras do

Poente. Onde os homens são de ferro e os dragões governam.

Ensinou-me esta língua.

- Um meistre em Asshai - meditou Sor Jorah. - Diz-me, Esposa de

Deus, que usava este Marwyn em volta do pescoço?

- Uma corrente tão apertada que quase o sufocava, Senhor de Ferro,

com elos de muitos metais.

O cavaleiro olhou para Dany.

- Só um homem treinado na Cidadela de Vilavelha usa uma corrente

assim - disse -, e esses homens realmente sabem muito sobre curar.

- Por que quer ajudar meu khal?

- Todos os homens pertencem ao mesmo rebanho, ou pelo menos é

isso que nos é ensinado - respondeu Mirri Maz Duur. - O Grande

Pastor enviou-me para a Terra para curar suas ovelhas, onde quer

que as encontre.

Qotho deu-lhe uma forte bofetada.

- Não somos ovelhas, matgu

- Pare com isso - disse Dany com voz zangada. - Ela é minha. Não

quero que lhe façam mal. Khal Drogo grunhiu.

- A seta tem de sair, Qotho.

- Sim, Grande Cavaleiro - respondeu Mirri Maz Duur, tocando a face

dolorida. - E seu peito tem de ser lavado e cosido para que não