saltado sobre ele vindos das sombras, e de repente voltou a vê-los,
rosnando e abocanhando, com os dentes descobertos na frente do
seu rosto. Traria o rapaz os lobos consigo para a guerra? A idéia o
deixou perturbado.
Os nortenhos deviam estar exaustos depois de sua longa marcha
insone. Tyrion perguntou-se o que o rapaz pensara. Teria esperado
apanhá-los de surpresa durante o sono? Poucas hipóteses havia de
isso acontecer; não importa o que se dissesse dele, Tywin Lannister
não era nenhum tolo.
A vanguarda reunia-se à esquerda. Viu primeiro a bandeira, três cães
negros sobre fundo amarelo. Sor Gregor encontrava-se por baixo,
montado no maior cavalo que Tyrion jamais vira. Bronn deu-lhe uma
olhadela e sorriu.
- Siga sempre um homem grande para a batalha. Tyrion respondeu
com um olhar duro.
- E por quê?
- Fazem uns alvos magníficos. Aquele vai atrair os olhares de todos
os arqueiros presentes no campo.
Rindo, Tyrion olhou a Montanha com novos olhos.
- Confesso que não o tinha visto a essa luz.
Clegane não possuía esplendor algum; sua armadura era de placa de
aço de um cinza baço, marcada pelo uso duro, e não exibia nem
símbolos nem ornamentos. Indicava aos homens as suas posições
com a arma, uma espada longa de duas mãos que Sor Gregor
brandia como um homem menor poderia brandir um punhal.
- Eu mesmo matarei qualquer homem que fuja - ele estava rugindo
quando viu Tyrion. -Duende! Para a esquerda. Mantenha o rio. Se for
capaz.
A esquerda da esquerda. Para flanqueá-los, os Stark precisariam de
cavalos capazes de correr sobre a água. Tyrion levou seus homens
para a margem do rio.
- Olhem - gritou, apontando com o machado. - O rio - uma camada
de névoa pálida ainda aderia à superfície da água, com a corrente
verde-escura rodopiando por baixo. Os baixios eram lamacentos e
afogados em juncos. - Aquele rio é nosso. Aconteça o que acontecer,
mantenham-se perto da água. Não a percam nunca de vista.
Impeçam o inimigo de se interpor entre nós e o nosso rio. Se eles
conspurcarem nossas águas, arranquem seus membros e alimentem
os peixes com eles.
Shagga tinha um machado em cada mão. Bateu um de encontro ao
outro, fazendo-os ressoar.
- Meio-Homem! - gritou. Outros Corvos de Pedra acompanharam o
grito, e os Orelhas Negras e Irmãos da Lua também. Os Homens
Queimados não gritaram, mas fizeram chocalhar as espadas e as
lanças. - Meio-Homem! Meio-Homem! Meio-Homem!
Tyrion fez o corcel descrever um círculo para observar o terreno. Ali,
era ondulado e irregular; mole e lamacento perto do rio, subindo em
ligeiro declive até a Estrada do Rei, pedregoso e quebrado do outro
lado, a leste. Algumas árvores manchavam as vertentes das colinas,
mas a maior parte da terra fora limpa e plantada. Seu coração batia
no peito em uníssono com os tambores, e sentia a testa fria de suor
sob as camadas de couro e aço. Observou Sor Gregor enquanto a
Montanha cavalgava para cima e para baixo ao longo das fileiras,
gritando e gesticulando. Também esta ala era toda de cavalaria, mas
se a direita era um punho revestido de malha, de cavaleiros e
lanceiros pesados, a vanguarda era composta pelo lixo do Ocidente:
arqueiros montados com coletes de couro, um enxame indisciplinado
de cavaleiros livres e mercenários, trabalhadores rurais montados em
cavalos de arar e armados com foices e espadas enferrujadas dos
pais, rapazes meio treinados vindos dos prostíbulos de Lannisporto...
e Tyrion e seus homens dos clãs a cavalo.
- Comida para corvos - murmurou Bronn a seu lado, dando voz ao
que Tyrion deixara por dizer. Só pôde concordar com um aceno.
Teria o senhor seu pai perdido o juízo? Nenhum lanceiro, arqueiros
insuficientes, não mais que um punhado de cavaleiros, os mal
armados e os sem armadura, comandados por um bruto sem cabeça
que liderava com base na raiva.. Como podia o pai esperar que
aquela imitação grotesca de uma companhia segurasse o flanco
esquerdo?
Não teve tempo para pensar no assunto. Os tambores estavam tão
próximos que a batida se infiltrava sob sua pele e deixava suas mãos
em convulsões. Bronn desembainhou a espada, e de repente o
inimigo surgiu à frente deles, transbordando sobre os cumes das
colinas, avançando a passo medido por trás de um muro de escudos
e lanças.
Malditos sejam os deuses, olha para todos eles, pensou Tyrion,
embora soubesse que o pai tinha mais homens no terreno. Seus
capitães lideravam-nos montados em cavalos de batalha revestidos de
armadura, com os porta-estandartes transportando as bandeiras a
seu lado. Vislumbrou o alce macho dos Hornwood, o sol raiado dos
Karstark, o machado de batalha de Lorde Cerwyn e o punho
revestido de malha dos Glover... e as torres gêmeas de Frey, azuis em
fundo cinza. Lá se ia a certeza do pai de que Lorde Walder nada
faria. Podia ver-se o branco da Casa Stark por todo o lado, com os
lobos gigantes cinzentos parecendo correr e saltar à medida que os
estandartes iam se revirando e agitando no topo dos grandes
mastros. Onde está o rapaz?, interrogou-se Tyrion.
Uma trompa de guerra soou. Haruuuuuuuuuuuuu, gritou, com uma
voz tão longa, grave e arrepiante como um vento frio vindo do norte.
As trombetas dos Lannister responderam-lhe, da-DA da-DA da-
DAAAAAAA, um som de bronze e desafio, mas a Tyrion pareceu que
de algum modo soavam menores, mais ansiosas. Sentia uma agitação
nas entranhas, uma sensação de náusea líquida; esperava que não
fosse morrer enjoado.
Quando as trombetas se calaram, um silvo encheu o ar; uma vasta
nuvem de setas subiu em arco, à direita de Tyrion, de onde os
arqueiros flanqueavam a estrada. Os nortenhos desataram a correr,
gritando enquanto se aproximavam, mas as setas dos Lannister
caíram sobre eles como chuva, centenas de setas, milhares, e os
gritos de guerra iam se transformando em gritos de dor à medida
que os homens tropeçavam e caíam. Então já uma segunda nuvem
estava no ar, e os arqueiros colocavam uma terceira seta nas cordas
de seus arcos.
As trombetas gritaram de novo, da-DAAA da-DAAA da-DA da-DA da-
DAAAAAAAA. Sor Gregor brandiu sua enorme espada e berrou uma
ordem, e um milhar de outras vozes respondeu aos gritos. Tyrion
esporeou o cavalo, acrescentou mais uma voz à cacofonia, e a
vanguarda avançou.
- O rio! - gritou a seus homens enquanto avançavam. - Lembrem-se,
exterminem tudo até o rio - continuou a liderar quando passaram a
galope leve, até que Chella deu um grito de congelar o sangue e o
ultrapassou, e Shagga uivou e a seguiu. Os homens dos clãs
avançaram atrás deles, deixando Tyrion no meio da poeira que
levantaram.
Em frente, tinha se formado um crescente de lanceiros inimigos, um
duplo ouriço de aço, à espera, atrás de escudos altos de carvalho
marcados com o sol raiado de Karstark. Gregor Clegane foi o
primeiro a atingi-los, liderando uma cunha de veteranos revestidos
de armadura. Metade dos cavalos recuou no último momento,