quebrando o avanço em frente da fila de lanças. Os outros
morreram, com afiadas pontas de aço rasgando-lhes o peito. Tyrion
viu uma dúzia de homens cair. O garanhão da Montanha empinou-
se, escoiceando com cascos calçados de aço quando uma ponta de
lança farpada lhe varreu o pescoço. Enlouquecido, o animal lançou-se
a galope sobre as fileiras inimigas. Lanças o atingiram vindas de
todas as direções, mas a muralha de escudos quebrou-se sob o seu
peso. Os nortenhos fugiram dos estertores de morte do animal aos
tropeções. Enquanto o cavalo caía, resfolegando sangue e mordendo
com o seu último fôlego vermelho, a Montanha ergueu-se incólume,
varrendo as redondezas com sua grande espada de duas mãos.
Shagga arremeteu pela abertura antes que os escudos conseguissem
fechá-la, com os outros Corvos de Pedra logo atrás. Tyrion gritou:
- Homens Queimados! Irmãos da Lua! Atrás de mim! - mas a maior
parte deles estava à sua frente. Viu de relance Timett, filho de
Timett, saltar quando a sua montaria morreu em pleno galope entre
suas pernas; viu um Irmão da Lua empalado por uma lança Karstark;
observou o cavalo de Cronn estilhaçando as costelas de um homem
com um coice. Uma nuvem de setas caiu sobre eles; não saberia
dizer de onde vinham, mas caíram tanto sobre homens dos Stark
como dos Lannister, matraqueando nas armaduras ou encontrando
carne. Tyrion ergueu o escudo e escondeu-se sob ele.
O ouriço estava ruindo, e os nortenhos recuavam sob o impacto do
assalto a cavalo. Tyrion viu Shagga apanhar um lanceiro em cheio no
peito quando o louco correu sobre ele; viu o machado cortar cota de
malha, couro, músculo e pulmões. O homem morreu em pé, com a
cabeça do machado alojada no peito, mas Shagga continuou a
avançar, abrindo um escudo em dois com o machado de batalha da
mão esquerda, enquanto o cadáver balançava e tropeçava molemente
do seu lado direito. Por fim, o morto deslizou e caiu. Shagga fez
ressoar os dois machados um contra o outro e rugiu.
Então, o inimigo já havia caído sobre ele, e a batalha de Tyrion
minguou para os poucos centímetros de terreno que rodeavam seu
cavalo. Um homem de armas lançou-lhe uma estocada no peito, e
seu machado saltou, afastando a lança. O homem recuou dançando,
para outra tentativa, mas Tyrion esporeou o cavalo, fazendo-o passar
por cima dele. Bronn estava rodeado por três inimigos, mas cortou a
cabeça da primeira lança que veio contra ele e, no contragolpe,
varreu a cara de um segundo homem com sua lâmina.
Uma lança de arremesso precipitou-se sobre Tyrion, vinda da
esquerda, e alojou-se em seu escudo com um tunc de madeira.
Virou-se e lançou-se em perseguição do atirador, mas o homem
ergueu o escudo sobre a cabeça. Tyrion fez chover golpes de
machado sobre a madeira, movendo-se em círculos em redor do
homem. Lascas de carvalho saltaram e partiram voando, até que o
nortenho perdeu o equilíbrio e escorregou, caindo de costas sob o
escudo. Encontrava-se abaixo do alcance do machado de Tyrion, e
desmontar era incômodo demais, de modo que o deixou ali e foi
atrás de outro homem, apanhando-o pelas costas com um golpe em
arco de cima para baixo que lhe sacudiu o braço com o impacto.
Conseguiu com isso um momento de pausa. Puxando as rédeas,
procurou o rio. E ali estava ele, à direita. Sem saber por que, virara-
se para trás.
Um Homem Queimado passou por ele, caído sobre o cavalo. Uma
lança penetrara-lhe a barriga e saía pelas costas. Estava para lá de
qualquer ajuda, mas quando Tyrion viu um dos nortenhos correndo
e tentando agarrar-lhe as rédeas, avançou.
Sua presa enfrentou-o de espada na mão. Era alto e seco, com uma
longa camisa de cota e manoplas articuladas de aço, mas perdera o
elmo e corria-lhe sangue sobre os olhos, vindo de uma ferida na
testa. Tyrion lançou-lhe um golpe na cara, mas o homem alto o
afastou.
- Anão - gritou. - Morre - virou-se em círculo, enquanto Tyrion o
rodeava montado no cavalo, lançando-lhe golpes na cabeça e nos
ombros. Aço ressoava contra aço, e Tyrion depressa percebeu que o
homem alto era mais rápido e mais forte do que ele. Onde, nos sete
infernos, estava Bronn? - Morre - grunhiu o homem novamente,
atacando-o furiosamente. Tyrion quase não conseguiu erguer o
escudo a tempo, e a madeira pareceu explodir para dentro com a
força do golpe. Os estilhaços do escudo caíram-lhe do braço. -
Morre! - berrou o espadachim, avançando e dando uma pancada tão
forte nas têmporas de Tyrion que lhe deixou a cabeça ressoando. A
lâmina fez um hediondo som de arranhar quando o homem a puxou.
O homem alto sorriu. . até ser mordido pelo corcel de batalha de
Tyrion, rápido como uma serpente, que lhe abriu a bochecha até o
osso. Então gritou. Tyrion enterrou-lhe o machado na cabeça.
- Morre você - disse-lhe, e foi o que ele fez. Ao libertar a lâmina,
ouviu um grito.
- Eddard! - ressoou uma voz. - Por Eddard e Winterfell! - o cavaleiro
caiu sobre ele como um trovão, fazendo rodopiar a bola eriçada de
hastes de uma maça de armas por cima da cabeça. Os cavalos de
batalha se chocaram antes que Tyrion conseguisse sequer abrir a
boca para gritar por Bronn. O cotovelo direito explodiu de dor
quando as hastes penetraram através do metal fino que rodeava a
articulação. O machado foi perdido naquele instante. Estendeu a mão
para a espada, mas a maça fazia de novo um arco, dirigido ao seu
rosto. Não se deu conta de ter atingido o chão, mas quando olhou
para cima viu apenas céu. Rolou sobre o flanco e tentou se erguer,
mas o corpo estremeceu-lhe de dor e o mundo começou a latejar, O
cavaleiro que o derrubara aproximou-se. - Tyrion, o Duende -
trovejou. - E meu. Rende-se, Lannister?
Sim, pensou Tyrion, mas a palavra ficou presa na garganta. Fez um
som semelhante a um coaxar e pôs-se de joelhos com dificuldade,
procurando desajeitadamente uma arma. A espada, o punhal,
qualquer coisa...
- Rende-se? - o cavaleiro pairava sobre ele em seu cavalo de guerra
recoberto de armadura. Ambos, homem e cavalo, pareciam imensos.
A bola de hastes rodopiava num círculo lento. As mãos de Tyrion
estavam dormentes, a visão, desfocada, a bainha da espada vazia. -
Renda-se ou morrerá - declarou o cavaleiro, fazendo rodopiar o
malho cada vez mais depressa.
Tyrion conseguiu pôr-se de pé, atirando a cabeça contra a barriga do
cavalo. O animal soltou um grito terrível e empinou-se. Tentou
libertar-se da agonia da dor, retorcendo-se, choveram sangue e
vísceras sobre a cara de Tyrion e o cavalo caiu como uma avalanche.
Quando deu por si, tinha o visor tapado com lama e algo lhe
esmagava o pé. Conseguiu libertar-se, com a garganta tão apertada
que quase não conseguia falar.
- ... rend. . - coaxou por fim, num fio de voz.
- Sim - gemeu uma voz, espessa de dor.
Tyrion raspou a lama do visor para conseguir ver. O cavalo tombara
para o outro lado, para cima do cavaleiro. Este tinha a perna presa e