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Serão seis mil suficientes?

Uma ave soltou um grito fraco a distância, um trinado agudo e

sonoro que foi como uma mão de gelo no pescoço de Catelyn. Outra

ave respondeu; uma terceira, uma quarta. Conhecia bastante bem o

seu chamado dos anos que passara em Winterfell. Picanços das

neves. Por vezes eram vistos em pleno inverno, quando o bosque

sagrado estava branco e imóvel. Eram aves do norte.

Vêm aí, pensou Catelyn.

- Vêm aí, senhora - segredou Hal Mollen. Estava sempre pronto a

afirmar o óbvio. - Que os deuses nos acompanhem.

Catelyn concordou com um aceno enquanto os bosques sossegavam

ao seu redor. No silêncio, conseguiu ouvi-los, distantes, mas

aproximando-se; os passos de muitos cavalos, o chocalhar das

espadas, lanças e armaduras, o murmúrio de vozes humanas, com

uma gargalhada aqui, uma praga ali.

Parecia durar uma eternidade. Os sons tornaram-se mais altos. Ouviu

mais risos, uma ordem gritada, o respingar de água quando

atravessaram e voltaram a atravessar o pequeno córrego. Um cavalo

resfolegou. Um homem praguejou. E então o viu por fim... só por um

instante, enquadrado entre os ramos das árvores enquanto olhava

para o fundo do vale, mas sabia que era ele. Mesmo a distância, Sor

Jaime Lannister era inconfundível. O luar tornara prateados sua

armadura e o dourado dos cabelos, e transformara o manto

carmesim em negro. Não trazia elmo.

Estivera ali e voltara a desaparecer, com a armadura prateada

escondida de novo pelas árvores. Outros seguiam atrás dele, em

longas colunas, cavaleiros, espadas juramentadas e cavaleiros livres,

três quartos da cavalaria Lannister.

- Ele não é homem para ficar sentado em uma tenda enquanto seus

carpinteiros constroem torres de cerco - prometera Sor Brynden. - Já

por três vezes acompanhou os cavaleiros em investidas, para

perseguir atacantes ou assaltar uma fortaleza obstinada.

Meneando, Robb estudara o mapa que o tio lhe desenhara. Ned

ensinara-lhe a ler mapas.

- Ataquem-no aqui - dissera, apontando. - Algumas centenas de

homens, não mais. Estandartes Tully. Quando vier atrás de vocês,

estaremos à espera - o dedo movera-se uma polegada para a

esquerda - aqui.

Aqui era uma quietude na noite, luar e sombras, um espesso tapete

de folhas mortas no chão, vertentes densamente florestadas,

descendo suavemente até o leito do córrego, com a vegetação rasteira

rarefazendo-se à medida que a altitude diminuía.

Aqui estava o filho de Catelyn em seu garanhão, dando-lhe um

último olhar e erguendo a espada numa saudação.

Aqui era o chamamento do corno de guerra de Maege Mormont, um

longo sopro grave que trovejou pelo vale vindo do leste, para lhes

dizer que os últimos cavaleiros de Jaime tinham entrado na

armadilha.

E Vento Cinzento atirou a cabeça para trás e uivou.

O som pareceu atravessar Catelyn Stark, e ela deu por si tremendo.

Era um som terrível, um som assustador, mas também havia música

nele. Por um segundo, sentiu algo semelhante à piedade pelos

Lannister lá embaixo. Então é assim que soa a morte, pensou.

HAAruuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, veio a resposta da outra cumeada quando

Grande-Jon soprou seu corno. Para leste e oeste, as trombetas dos

Mallister e dos Frey sopraram vingança. A norte, onde o vale se

estreitava e se dobrava como um cotovelo erguido, os cornos de

guerra de Lorde Karstark adicionaram suas vozes profundas e

fúnebres àquele coro sombrio. No córrego, lá embaixo, homens

gritavam e cavalos empinavam-se.

O bosque sussurrante deixou escapar todo o seu fôlego de repente,

quando os arqueiros que Robb escondera nos ramos das árvores

dispararam suas setas e a noite entrou em erupção com os gritos de

dor de homens e cavalos. A toda volta dela, os cavaleiros ergueram as

suas lanças, e a terra e as folhas que tinham coberto as cruéis pontas

cintilantes caíram e revelaram o brilho do aço afiado. Ouviu Robb

gritar "Winterfell!" no momento em que as setas voltaram a suspirar.

Afastou-se dela a trote, levando os homens para baixo.

Catelyn ficou imóvel sobre o cavalo, com Hal Mollen e a sua guarda

em torno de si, e esperou como esperara antes, por Brandon, por

Ned, pelo pai. Encontrava-se em um ponto elevado da colina, e as

árvores escondiam a maior parte do que estava se passando lá

embaixo. Um segundo, dois, quatro, e de repente foi como se ela e

seus protetores estivessem sós na floresta. Os outros tinham se

fundido com o verde.

Mas quando ergueu os olhos para a vertente oposta, viu os cavaleiros

de Grande-Jon emergir da escuridão sob as árvores. Vinham em uma

longa linha, uma linha infinita, e quando jorraram da floresta, houve

um instante, a menor parte de um segundo, em que tudo o que

Catelyn viu foi o luar refletido nas pontas de suas lanças, como se

um milhar de fogos-fátuos descessem a vertente, enfeitados pelas

chamas prateadas.

Então piscou, e eram apenas homens, correndo para matar ou

morrer.

Mais tarde, não poderia afirmar que vira a batalha. Mas a ouviu, e o

vale ressoou com ecos. O crac de uma lança quebrada, o tinir das

espadas, os gritos de "Lannister" "Winterfell" e "Tully! Correrrio e

Tully!". Quando compreendeu que nada mais havia para ver, fechou

os olhos e escutou. A batalha ganhou vida à sua volta. Ouviu batidas

de cascos, botas de ferro chapinhando em água pouco profunda, o

som de madeira de espadas batendo em escudos de carvalho e o

raspar de aço contra aço, os silvos das setas, o trovejar dos tambores,

os gritos aterradores de mil cavalos. Homens berravam pragas e

suplicavam por misericórdia, e a recebiam (ou não), e sobreviviam

(ou morriam). As vertentes pareciam fazer truques estranhos com o

som. Uma vez, ouviu a voz de Robb, tão claramente como se

estivesse em pé a seu lado, gritando "A mim! A mim!". E ouviu seu

lobo gigante, rosnando e rugindo, escutou o estalar daqueles longos

dentes, o rasgar da carne, gritos de medo e de dor tanto de homem

como de cavalo. Haveria apenas um lobo? Era difícil dizer com

certeza.

Pouco a pouco, os sons diminuíram e desapareceram, até por fim

ficar apenas o lobo. Quando uma aurora vermelha surgiu no leste,

Vento Cinzento começou de novo a uivar.

Robb regressou para junto dela em outro cavalo, montando um

malhado castrado em vez do garanhão cinzento com que descera o

vale. Metade da cabeça de lobo no seu escudo tinha sido

despedaçada, vendo-se madeira nua onde profundos sulcos tinham

sido abertos no carvalho, mas o próprio Robb parecia não estar

ferido. No entanto, quando se aproximou, Catelyn viu que sua luva

de cota de malha e a manga de sua capa estavam negras de sangue.

- Está ferido - disse.

Robb ergueu a mão, abriu e fechou os dedos,

- Não. Isto é.. sangue de Torrhen, talvez, ou... - balançou a cabeça. -

Não sei.

Uma multidão de homens seguia-o ao longo da vertente, sujos,

amassados e sorridentes, com Theon e Grande-Jon à cabeça. Entre os

dois, arrastavam Sor Jaime Lannister, Atiraram-no ao chão em frente