do cavalo de Catelyn.
- O Regicida - anunciou Hal, sem necessidade. O Lannister levantou a
cabeça.
- Senhora Stark - disse, de joelhos. Corria-lhe sangue por uma face,
de um golpe no couro cabeludo, mas a luz pálida da aurora
devolvera-lhe o brilho do ouro aos cabelos. - Ofereceria à senhora
minha espada, mas parece que a perdi.
- Não é a sua espada que desejo, sor - disse-lhe ela. - Dê-me o meu
pai e o meu irmão Ed-mure. Dê-me as minhas filhas. Dê-me o meu
marido.
- Temo que os tenha perdido também.
- Uma pena - disse Catelyn friamente.
- Mate-o, Robb - pediu Theon Greyjoy. - Arranque-lhe a cabeça.
- Não - respondeu o filho de Catelyn, enquanto tirava a luva
sangrenta. - Ele é mais útil vivo que morto. E o senhor meu pai
nunca perdoou o assassinato de prisioneiros após uma batalha.
- Um homem sensato - disse Jaime Lannister - e honroso.
- Leve-o e acorrente-o - disse Catelyn.
- Faça como diz a senhora minha mãe - ordenou Robb - e trate para
que haja uma guarda forte à volta dele. Lorde Karstark quererá sua
cabeça num espeto.
- Isso sem dúvida - concordou Grande-Jon, gesticulando. O Lannister
foi levado para ser tratado e acorrentado.
- Por que motivo Lorde Karstark o quer morto? - perguntou Catelyn.
Robb afastou os olhos para a floresta, com a mesma expressão
pensativa que Ned fazia com frequência.
- Ele.. ele os matou..
- Os filhos de Lorde Karstark - explicou Galbart Glover.
- Os dois - disse Robb. - Torrhen e Eddard. E Daryn Hornwood
também.
- Ninguém pode acusar o Lannister de falta de coragem - disse
Glover. - Quando viu que estava perdido, reuniu os vassalos e abriu
caminho pela vertente acima, esperando chegar a Lorde Robb e
abatê-lo. E quase conseguiu,
- Perdeu a espada no pescoço de Eddard Karstark, depois de arrancar
a mão de Torrhen e de abrir o crânio de Daryn Hornwood - disse
Robb. - E todo o tempo gritava por mim. Se não tivessem tentado
detê-lo...
- ... Eu estaria agora de luto em vez de Lorde Karstark - disse
Catelyn. - Seus homens fizeram o que juraram fazer, Robb.
Morreram protegendo seu suserano. Chore por eles. Honre-os pelo
valor demonstrado. Mas agora não. Não há tempo para o luto. Pode
ter cortado a cabeça da serpente, mas três quartos do corpo ainda
estão enrolados ao redor do castelo de meu pai. Ganhamos uma
batalha, não a guerra.
- Mas que batalha! - disse Theon Greyjoy com ardor. - Senhora, o
reino não viu tamanha vitória desde o Campo de Fogo. Garanto, os
Lannister perderam dez homens por cada um dos nossos que caíram.
Capturamos perto de cem cavaleiros, e uma dúzia de senhores
vassalos. Lorde Westerling, Lorde Banefort, Sor Garth Greenfield,
Lorde Estren, Sor Tytos Brax, Maior, o Dor-neano.. e três Lannister
além de Jaime, sobrinhos de Lorde Tywin, dois dos filhos da irmã e
um do irmão morto...
- E Lorde Tywin? - interrompeu Catelyn. - Terá por acaso capturado
Lorde Tywin, Theon?
- Não - respondeu Greyjoy.
- Até que o faça, esta guerra está longe do fim. Robb ergueu a
cabeça e afastou os cabelos dos olhos.
- Minha mãe tem razão. Ainda temos Correrrio.
Daenery
As moscas voavam lentamente em volta de Khal Drogo, com as asas
zumbindo, um ruído baixo, no limiar da audição, que enchia Dany de
terror. O sol ia alto e impiedoso. O calor tremulava em ondas que
subiam dos afloramentos rochosos de colinas baixas. Um estreito fio
de suor escorria lentamente entre os seios inchados de Dany. Os
únicos sons que se ouviam eram o ruído regular dos cascos dos
cavalos, o tinir ritmado dos sinos nos cabelos de Drogo e as vozes
distantes atrás deles.
Dany observou as moscas. Eram grandes como abelhas, volumosas,
arroxeadas, brilhantes. Os dothrakis as chamavam de moscas de
sangue. Viviam em pântanos e lagoas de águas paradas, sugavam
sangue quer de homens quer de cavalos, e punham os ovos nos
mortos e nos moribundos. Drogo as odiava. Sempre que alguma se
aproximava dele, a mão disparava, rápida como um ataque de
serpente, e fechava-se à sua volta. Nunca o vira falhar. Mantinha a
mosca dentro de seu enorme punho durante o tempo suficiente para
ouvir seus frenéticos zumbidos. Depois, os dedos apertavam-se, e
quando voltava a abrir a mão, a mosca era apenas uma mancha
vermelha na palma.
Agora, uma rastejava pela garupa de seu garanhão, e o cavalo deu
uma sacudidela irritada na cauda para enxotá-la. As outras voaram
em volta de Drogo, cada vez mais perto. O khal não reagiu. Os olhos
fixavam-se em distantes colinas marrons, e as rédeas estavam soltas
nas mãos. Sob o colete pintado, um emplastro de folhas de figueira e
lama seca azul cobria a ferida que tinha no peito. As ervanárias o
tinham feito. O cataplasma de Mirri Maz Duur ardia e provocava-lhe
comichão, e ele o arrancara há seis dias, amaldiçoando-a e
chamando-a de maegu O emplastro de lama era mais calmante, e as
ervanárias fizeram também leite de papoula para ele. Tinha bebido
muito nos últimos três dias; quando não era leite de papoula, era
leite de égua fermentado ou cerveja picante.
Mas quase não tocava na comida, e agitava-se e gemia durante a
noite. Dany via como seu rosto se tornara cansado. Rhaego estava
inquieto dentro de sua barriga, dando pontapés como um garanhão,
mas nem isso despertava o interesse de Drogo como antes. Todas as
manhãs, os olhos dela encontravam novas rugas de dor em seu rosto
quando acordava de seu sono perturbado. E agora aquele silêncio.
Estava ficando assustada. Desde que tinham montado, de madrugada,
ele não dissera uma palavra. Quando ela falava, não obtinha
nenhuma resposta além de um grunhido, e desde o meio-dia nem
isso.
Uma das moscas de sangue pousou na pele nua do ombro do khal.
Outra, voando em círculos, pousou em seu pescoço e rastejou para
cima, na direção da boca. Khal Drogo oscilava na sela, fazendo soar
as campainhas, enquanto o garanhão prosseguia o caminho num
passo regular.
Dany empurrou os calcanhares contra a sua prata e aproximou-se.
- Senhor - disse em voz suave. - Drogo. Meu sol-e-estrelas.
Ele não pareceu ouvir. A mosca de sangue rastejou para baixo do
bigode pendente e instalou-se na prega ao lado do nariz. Dany arfou:
- Drogo - estendeu a mão, desajeitadamente, e tocou seu braço.
Khal Drogo cambaleou sobre a sela, inclinou-se devagar, e caiu
pesadamente do cavalo. As moscas espalharam-se por um segundo, e
depois regressaram, aos círculos, pousando em cima dele.
- Não - disse Dany, puxando as rédeas. Sem prestar atenção à barriga
pela primeira vez, saltou do cavalo e correu para ele.
A erva em sua pele estava marrom e seca. Drogo gritou de dor
quando Dany se ajoelhou a seu lado. A respiração raspava-lhe,
áspera, na garganta, e ele olhou para ela sem reconhecê-la.
- Meu cavalo - arquejou. Dany enxotou as moscas de seu peito,
esmagando uma como ele teria feito. A pele dele ardia sob seus