- E é bom que vocês, os Lannister, se lembrem disso -
disse Robb, baixando a espada. - Hodor, traga meu irmão
aqui.
- Hodor - o gigante repetiu, e trotou em frente, sorrindo,
e pousou Bran no cadeirão dos Stark, onde os Senhores de
Winterfell se sentavam desde os tempos em que
chamavam a si próprios Reis do Norte. A cadeira era de
pedra fria, polida por incontáveis traseiros; as cabeças
esculpidas de lobos selvagens rosnavam nas pontas de
seus maciços braços. Bran agarrou-as ao se sentar, com as
inúteis pernas a balançar. O grande cadeirão o fez sentir-
se quase como um bebê.
Robb pousou-lhe a mão no ombro.
- Você disse que tinha assuntos a tratar com Bran. Pois
bem, aqui está ele, Lannister.
Bran estava desconfortavelmente consciente dos olhos de
Tyrion Lannister. Um era negro e o outro, verde, e ambos
o olhavam, estudando-o, pesando-o.
- Disseram-me que era um belo escalador, Bran - disse o
homenzinho. - Diga-me, como caiu naquele dia?
- Eu nunca - insistiu Bran. Ele nunca caía, nunca, nunca,
nunca.
- O rapaz não se recorda nada da queda, nem da escalada
que a precedeu - disse Meistre Luwin com gentileza.
- Curioso - Tyrion Lannister respondeu.
- Meu irmão não está aqui para responder a perguntas,
Lannister - Robb foi conciso no aviso. - Trate logo do que
o trouxe aqui e ponha-se a caminho.
- Tenho um presente para você - disse o anão a Bran. -
Gosta de montar a cavalo, rapaz? Meistre Luwin adiantou-
se.
- Senhor, a criança perdeu o uso das pernas. Não pode se
sentar sobre um cavalo.
- Besteira - Lannister respondeu, - Com o cavalo e a sela
certos, até um aleijado pode montar . A palavra foi como
uma faca espetada no coração de Bran. Sentiu lágrimas a
subir-lhe aos olhos sem serem convidadas.
- Eu não sou um aleijado!
- Neste caso, eu não sou um anão - retrucou o anão,
torcendo a boca.
- Meu pai se alegrará quando souber - Greyjoy riu.
- Que tipo de cavalo e sela está sugerindo? - perguntou
Meistre Luwin.
- Um cavalo inteligente - Lannister respondeu. - O rapaz
não pode usar as pernas para diri gir o animal, portanto,
tem de se ajustar o cavalo ao cavaleiro, ensinar-lhe a
responder às rédeas, à voz. Eu começaria com um potro
não domado de um ano, sem ensinamentos antigos - tirou
do cinto um papel enrolado. - Entregue isto ao seu
fabricante de selas. Ele tratará do resto.
Meistre Luwin recebeu o papel da mão do anão, curioso
como um pequeno esquilo cinzento. Desenrolou-o e o
estudou.
- Estou vendo. Desenha bem, senhor. Sim, isto deve
funcionar. Deveria ter pensado nisto.
- Para mim é mais fácil, Meistre. Não é muito diferente
das minhas selas.
- Serei mesmo capaz de montar? - perguntou Bran, Queria
acreditar neles, mas tinha medo. Talvez fosse apenas mais
uma mentira. O corvo prometera-lhe que poderia voar.
- Será - disse-lhe o anão. - E juro, meu rapaz, sobre o
dorso de um cavalo, será tão alto como qualquer deles.
Robb Stark pareceu confuso.
- Isto é alguma armadilha, Lannister? O que Bran
representa para você? Por que quer ajudá -lo?
- Seu irmão Jon me pediu. E tenho um ponto fraco no
coração por aleijados, bastardos e coi sas quebradas -
Tyrion Lannister pôs a mão sobre o coração e mostrou os
dentes.
A porta que dava para o pátio foi escancarada. A luz do
sol jorrou pelo salão no momento em que Rickon entrou
de repente, sem fôlego. Os lobos gigantes vinham com ele.
O rapaz parou na porta, de olhos muito abertos, mas os
lobos entraram. Seus olhos encon traram Lannister, ou
talvez tivessem farejado seu odor. Verão foi o primeiro a
começar a rosnar. Vento Cinzento juntou-se a ele.
Aproximaram-se do homenzinho, um pela direita, o outro
pela esquerda.
- Os lobos não apreciam seu cheiro, Lannister - comentou
Theon Greyjoy.
- Talvez seja hora de me retirar - disse Tyrion. Deu um
passo para trás... e Cão Felpudo saiu das sombras atrás
dele, rosnando. Lannister recuou, e Verão precipitou -se
sobre ele, vindo do outro lado. Cambaleou para longe,
sobre pernas instáveis, e Vento Cinzento atacou-lhe o
braço, rasgando-lhe a manga com os dentes e arrancando
um pedaço de pano.
- Não! - gritou Bran do cadeirão ao mesmo tempo em que
os homens de Lannister agarra ram as armas. - Verão, aqui.
Verão, venha!
O lobo gigante ouviu a vo z, deu uma olhadela em Bran, e
de novo em Lannister. Rastejou para trás, para longe do
homenzinho, e sentou-se sob os pés oscilantes de Bran.
Robb prendera a respiração. Largou -a num suspiro e
chamou: "Vento Cinzento". Seu lobo gigante moveu -se em
sua direção, rápido e silencioso.
Agora restava apenas Cão Felpudo rugindo ao pequeno
homem, com os olhos ardendo como fogo verde.
- Rickon, chame-o - gritou Bran para o irmão mais novo, e
Rickon, como que acordando, gritou:
- Para casa, Felpudo, anda, para casa - o lobo negro
dirigiu a Lannister um último rosnado e saltou para
Rickon, que lhe deu um abraço apertado em torno do
pescoço.
Tyrion Lannister desenrolou o cachecol, limpou com ele a
testa e disse em voz monocórdia:
- Que interessante.
- Está bem, senhor? - perguntou um de seus homens, de
espada na mão. Olhava nervosa mente os lobos gigantes
enquanto falava.
- Tenho a manga rasgada e os calções úmidos por motivos
inconfessáveis, mas nada foi fe rido, além da minha
dignidade.
Até Robb parecia abalado.
- Os lobos... não sei por que fizeram isso.
- Não há dúvida de que me confundiram com o jantar -
Lannister fez uma reverência rígida a Bran. - Agradeço-lhe
por tê-los chamado, meu jovem. Garanto -lhe que me
teriam achado bas tante indigesto. E agora, realmente,
retiro-me.
- Um momento, senhor - disse Meistre Luwin. Aproximou -
se de Robb e os dois conferenciaram muito, aos sussurros.
Bran tentou ouvir o que diziam, mas suas vozes eram
baixas demais.
Robb Stark finalmente embainhou a espada:
- Eu... eu posso ter me precipitado com o senhor. Foi
bondoso com Bran e, bem... - Robb reconciliava-se com
esforço. - Ofereço-lhe a hospitalidade de Winterfell se
assim desejar, Lannister,
- Poupe-me de sua falsa cortesia, rapaz. Não gosta de mim
e não me quer aqui. Vi uma estalagem fora das suas
muralhas, na vila de inverno. Encontrarei ali uma cama e
ambos dormiremos mais facilmente. Por alguns cobres até
talvez encontre uma mulher agradável que me aqueça os
lençóis - virou-se para um dos irmãos negros, um homem
idoso com a coluna torcida e a ba rba emaranhada. -
Yoren, seguimos para o sul ao nascer do dia. Enco ntre-me
na estrada - e retirou-se, atravessando o salão com
dificuldade sobre as curtas pernas, passando por Rickon e