dizer.
- Vamos encontrar um cavalo para você, prometo - Robb
lhe disse finalmente.
- Será que eles algum dia voltarão? - Bran perguntou.
- Sim - Robb disse, com tamanha esperança na voz que
Bran soube que estava ouvindo o irmão, e não apenas
Robb, o Senhor. - Nossa mãe virá para casa em breve.
Talvez possamos sair a cavalo ao seu encontro quando ela
chegar. Não acha que a surpreenderia vê -lo montado? -
mesmo no quarto escuro Bran podia sentir o sorriso do
irmão. - E depois iremos para o norte, ver a Muralha.
Nem sequer avisaremos Jon, um dia simplesmente
chegaremos lá, você e eu. Será uma aventura.
- Uma aventura - repetiu Bran em tom ansioso. Então
ouviu seu irmão soluçar. O quarto estava tão escuro que
não conseguia ver as lágrimas no rosto de Robb, por isso
estendeu a mão e encontrou a do irmão. Seus dedos
entrelaçaram-se.
Eddard
A morte de Lorde Arryn foi uma grande tristeza para
todos nós, senhor - disse o Grande Meistre Pycelle. -
Ficarei mais que feliz contando -lhe tudo o que puder
sobre seu falecimento. Mas, por favor, sente -se. Aceita um
refresco? Talvez algumas tâmaras? Tenho também uns
caquis muito bons. Temo que o vinho não seja bom para
minha digestão, ma s posso lhe oferecer uma taça de leite
gelado adoçado com mel, na minha opinião, muito
refrescante neste calor,
O calor era inegável. Ned sentia a túnica de seda aderir
ao seu peito. Um ar pesado e úmido cobria a cidade como
um cobertor molhado de lã, e a margem do rio tinha se
tornado ingovernável quando os pobres fugiram de suas
casas quentes e sem ar para se acotovelarem por um lugar
para dormir perto da água, onde o único sopro de vento
podia ser encontrado.
- E muita gentileza - Ned agradeceu, sentand o-se.
Pycelle ergueu uma minúscula campainha de prata com o
indicador e o polegar e a fez soar suavemente. Uma jovem
e esbelta serva apressou-se a entrar no aposento privado.
- Leite gelado para a Mão do Rei e para mim, por favor,
filha. Bem doce.
Enquanto a jovem ia buscar as bebidas, o Grande Meistre
entrelaçou os dedos e pousou as mãos na barriga.
- O povo diz que o último ano do verão é sempre o mais
quente. Não é bem assim, mas mui tas vezes parece que é,
não é verdade? Em dias como este, invejo -os, nortenhos,
por suas neves de verão - a corrente pesadamente
carregada de jóias em torno do pescoço do velho tilintou
suavemente quando ele mudou de posição. - O certo é que
o verão do Rei Maekar foi mais quente do que este, e
quase tão longo. Houve tolos, a té mesmo na Cidadela, que
pensaram que isso significava que o Grande Verão tinha
enfim chegado. O verão que nunca termina, mas, no
sétimo ano, o tempo mudou subitamente e tivemos um
curto outono e um inverno terrivelmente longo. De
qualquer modo, o calor foi feroz enquanto durou.
Vilavelha fumegava e sufocava durante o dia, e ganhava
vida à noite. Costumávamos passear nos jardins junto ao
rio e discutir sobre os deuses. Recordo os cheiros dessas
noites, senhor, perfume e suor, melões prontos para
estourar, de tão maduros, pêssegos e romãs, erva -moura e
flor-de-lua. Eu era então um jovem, ainda forjando minha
corrente. O calor então não me deixava exausto como hoje
em dia - os olhos de Pycelle tinham pálpebras tão pesadas
que ele parecia meio adormecido. - Minhas desculpas,
Senhor Eddard. Não veio ouvir divagações disparatadas
acerca de um verão que já tinha sido esquecido antes do
nascimento de seu pai. Perdoe -me, se possível, os
devaneios de um velho. Temo que as mentes sejam como
espadas. As velhas enferruj am. Ah, e aqui está o nosso
leite - a criada depositou a bandeja entre eles e Pycelle
lhe concedeu um sorriso. - Querida criança - ergueu uma
taça, saboreou-a e acenou com a cabeça: - Obrigado. Pode
ir.
Depois de a jovem se retirar, Pycelle dirigiu a Ned seus
olhos claros e cheios de remela.
- Bem, onde estávamos? Ah, sim. Falávamos de Lorde
Arryn...
- É verdade - Ned tomou um gole bem -educado do leite
gelado. Estava agradavelmente frio, mas doce demais para
seu gosto.
- A bem da verdade, a Mão já não pare cia bem há algum
tempo - disse Pycelle. - Já nos sentávamos juntos no
conselho havia muitos anos, ele e eu, e os sinais estavam à
vista, mas os debitei na conta dos grandes fardos que
suportara tão fielmente durante tanto tempo. Aqueles
largos ombros estavam sobrecarregados com todas as
preocupações do reino, e mais ainda. Seu filho andava
sempre adoentado, e a senhora sua esposa, tão ansiosa,
que quase não deixava que a criança saísse de baixo de
sua vista. Era o bastante para cansar até um homem forte,
e Lorde Jon não era jovem. Não era de se admirar que
parecesse melancó lico e cansado. Pelo menos era o que eu
pensava nesse tempo. Agora, no entanto, tenho menos
certezas - abanou gravemente a cabeça.
- O que pode me dizer de sua doença final?
O Grande Meistre abriu as mãos num gesto de
desamparada mágoa:
- Ele veio ter comigo um dia em busca de certo livro, tão
robusto e sadio como sempre, embo ra me parecesse que
algo o perturbava profundamente. Na manhã seguinte,
estava retorcido de dores, doente demais par a sair da
cama. Meistre Colemon pensou que se tratasse de um
calafrio no estômago. O tempo estivera quente, e a Mão
costumava gelar o vinho, o que pode perturbar a digestão.
Quando Lorde Jon continuou a enfraquecer, fui até ele,
mas os deuses não me conced eram o poder de salvá-lo.
- Ouvi dizer que afastou Meistre Colemon.
O aceno do Grande Meistre foi tão lento e deliberado
como geleira se derretendo.
- Sim, o afastei, e temo que a Senhora Lysa nunca me
perdoe. Talvez tivesse cometido um erro, mas naquele
momento foi o que me pareceu melhor. Meistre Colemon é
para mim como um filho, e não há ninguém que mais
estime suas capacidades, mas ele é jovem, e muitas vezes
os jovens não se dão conta da fragilidade de um corpo
mais velho. E le estava tratando Lorde Ar ryn com poções
desgastantes e sumo de pimenta. Temi que pudesse matá -
lo.
- Lorde Arryn lhe disse alguma coisa durante suas
últimas horas?
Pycelle enrugou uma sobrancelha.
- No estágio final de sua febre, a Mão gritou várias vezes
o nome Robert, mas eu não saberia dizer se chamava pelo
filho ou pelo rei. A Senhora Lysa não perm itia que seu
filho entrasse no quarto, temendo que também ele caísse
doente. O rei veio e ficou sentado ao lado da cama du -
rante horas, falando e gracejando de tempos há muito
passados, na esperança de alimentar o ânimo de Lorde Jon.