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Seu amor era digno de se ver.

- Nada mais aconteceu? Nenhuma última palavra?

- Quando vi que toda a esperança tinha escapado, dei à

Mão o leite de papoula, para que não sofresse. Antes de

fechar os olhos pela última vez, segredou algo ao rei, e à

senhora sua esposa, uma bê nção para o filho. A semente é

forte, ele disse. No fim, seu discurso estava por demais

confuso para ser compreendido. A morte só chegou na

manhã seguinte, mas, depois disso, Sor Jon ficou em paz.

Não voltou a falar.

Ned bebeu mais um pouco de leite, tentando não se

engasgar com sua doçura.

- Pareceu-lhe haver algo de não natural na morte de

Lorde Arryn?

- Não natural? - a voz do idoso meistre era fina como um

suspiro. - Não, não diria isso. Triste, com toda a certeza.

Mas, à sua maneira, a morte é a coisa mais natural de

todas, Lorde Eddard. Jon Arryn agora descansa em paz,

por fim aliviado de seus fardos.

- Essa doença que o acometeu - Ned voltou a falar. -

Alguma vez viu algo de semelhante em outros homens?

- Sou Grande Meistre dos Sete Reinos há quase quarenta

anos - Pycelle respondeu. - Sob o reinado do nosso bom

Robert, antes dele sob Aerys Targaryen, sob o pai deste,

Jaehaerys Se gundo, e até durante curtos meses sob o

reinado do pai de Jaehaerys, Aegon, o Afortunado, o

Quinto de Seu Nome. Vi mais doença do que gostaria de

recordar, senhor. Digo -lhe apenas isto: cada caso é

diferente, e todos os casos são semelhantes. A morte de

Lorde Jon não foi mais estra nha que qualquer outra.

- Sua esposa pensa o contrário.

O Grande Meistre acenou com a cabeça.

- Agora me lembro, a viúva é irmã de sua nobre esposa.

Se se pode perdoar a um velho seu discurso direto,

permita-me que lhe diga que a dor pode desequilibrar até

a mais forte e disci plinada das mentes, e a da Senhora

Lysa nunca foi assim. Desde o seu último natimorto que

vê inimigos em cada sombra, e a morte do senhor seu

esposo a deixou destroçada e perdida.

- Então, tem total certeza de que Jon Arryn morreu de

uma doença súbita?

- Tenho - Pycelle respondeu gravemente. - Se não foi

doença, meu bom senhor, que mais poderia ser?

- Veneno - sugeriu Ned com a voz calma.

Os olhos sonolentos de Pycelle abriram -se de súbito. O

idoso meistre agitou-se desconfortavelmente no assento.

- Um pensamento perturbador. Não estamos nas Cidades

Livres, onde tais coisas são co muns. O Grande Meistre

Aethelmure escreveu que todos os homens carregam o

homicídio no coração, mas mesmo assim o envenenador

merece menos que desprezo - o velho caiu em silêncio por

um momento, pensando de olhos perdidos. - O que está

sugerindo é possível, senhor, mas não penso que seja

provável. Qualquer meistre ignorante conhece os venenos

comuns, e o Senhor Arryn não mostrava nenhum dos

sintomas. E a Mão era amada por todos. Que tipo de

monstro em forma humana se atreveria a assassinar um

senhor tão nobre?

- Tenho ouvido dizer que veneno é uma arma de mulher.

Pycelle afagou a barba pensativamente.

- É o que se diz. Mulheres, covardes... e eunucos - limpou

a garganta e cuspiu um espesso glo bo de muco para os

juncos. Acima deles, um corvo grasnou sonoramente. -

Lorde Varys nasceu escravo em Lys, sabia? Nunca deposite

confiança em aranhas, senhor.

Aquilo não era propriamente algo que Ned precisava que

lhe fosse dito. Havia qualquer coisa em V arys que o

arrepiava.

- Eu me lembrarei do conselho, Meistre. E agradeço -lhe

pela ajuda. Já tomei bastante do seu tempo - Ned pôs-se

em pé.

O Grande Meistre Pycelle ergueu -se lentamente da cadeira

e acompanhou Ned até a porta.

- Espero que tenha ajudado um pouco a acalmar a sua

mente. Se houver algum outro serviço que eu lhe possa

prestar, basta pedir,

- Há uma coisa - disse-lhe Ned. - Tenho curiosidade em

examinar o livro que emprestou a Jon um dia antes de

cair enfermo.

- Temo que seja de pouco interesse - disse Pycelle. - Foi

um solene volume escrito pelo Grande Meistre Malleon

sobre as linhagens das grandes Casas.

- De qualquer modo, gostaria de vê -lo.

O velho abriu a porta.

- Como desejar. Tenho-o guardado por aqui. Quando

encontrá-lo, mandarei imediatamente e ntregar-lhe.

- O senhor foi de grande cortesia - disse-lhe Ned. E então,

como se algo lhe tivesse ocorrido r.e repente, disse: - Uma

última pergunta, se sua bondade me permite. O senhor

mencionou que o rei esteve à cabeceira de Lorde Arryn

quando morreu. Per gunto se a rainha o acompanhava.

- Ora, não - Pycelle respondeu. - Ela e os filhos estavam a

caminho de Rochedo Casterly, em companhia do pai. O

Senhor Tywin tinha trazido um séquito até a cidade para

o torneio do dia do nome do Príncipe Joffrey, sem dúvida

esperando ver o filho Jaime ganhar a coroa de cam peão.

Mas ficou tristemente desapontado. Caiu sobre mim a

tarefa de enviar à rainha a notícia da norte súbita de

Lorde Arryn. Nunca antes enviei uma ave de coração mais

pesado.

- Asas escuras, palavras escuras - Ned murmurou. Era um

provérbio que a Velha Ama lhe ensinara quando ainda era

um rapaz.

- É o que dizem as mulheres dos pescadores - concordou o

Grande Meistre Pycelle -, mas sabemos que nem sempre é

assim. Quando a ave de Meistre Luwin trouxe a notícia

sobre seu filho Bran, a mensagem aqueceu todos os

corações verdadeiros do castelo, não é verdade?

- É bem assim, Meistre,

- Os deuses são misericordiosos - Pycelle inclinou a

cabeça. - Visite-me sempre que desejar, Senhor Eddard.

Estou aqui para servir.

Sim, pensou Ned quando a porta se fechou, mas a quem?

No caminho de volta aos seus aposentos, deparou com a

filha Arya nos degraus em espiral da Torre da Mão,

girando os braços enquanto lutava para se equil ibrar

sobre uma perna. A pedra á spera tinha esfolado seus pés

nus. Ned parou e olhou para ela.

- Arya, o que está fazendo?

- Syrio diz que um dançarino de água é capaz de se apoiar

num dedo do pé durante horas - suas mãos bateram o ar

em busca de equilíbrio.

Ned foi obrigado a sorrir.

- Qual dos dedos? - ele brincou.

- Qualquer dedo - Arya respondeu, exasperada com a

pergunta. Saltou da perna direita par a a esquerda,

oscilando perigosamente antes de recuperar o equilíbrio.

- Precisa fazer isso aqui? - ele perguntou. - Uma queda

por estes degraus é longa e dura.

- Syrio diz que um dançarino de água nunca cai - ela

abaixou a perna para se apoiar nas duas. - Pai, Bran virá

agora viver conosco?

- Não durante muito tempo, querida - ele respondeu. - Ele

precisa recuperar as forças. Arya mordeu o lábio.

- O que Bran fará quando for cres cido?

Ned ajoelhou-se ao seu lado.