banco mais próximo da parede oeste. Py p estava no meio
de uma história. O orelhudo filho do pantomimeiro era
um mentiroso nato, possuía cem vozes diferentes, e vivia
suas histórias mais que as contava, representando todos
os papéis à medida que iam sur gindo, num momento um
rei e no seguinte um criador de porcos. Quando o
personagem era uma criada de cervejaria ou uma princesa
virgem, usava uma aguda voz de falsete que levava todos
às lágrimas com as gargalhadas que eram incapazes de
evitar, e seus
eunucos
eram sempre caricatu ras
fantasmagóricamente fiéis de Sor Alliser. Jon tirava tanto
prazer das palhaçadas de Pyp como qualquer outro, mas
naquela noite afastou-se e, em vez de se juntar aos
amigos, dirigiu-se para a ponta do banco, onde Samwell
Tarly estava sentado sozinho, tão longe dos outro s como
podia.
Terminava a última das tortas de porco que os
cozinheiros tinham servido no jantar quando Jon sentou -
se à sua frente. Os olhos do gordo esbugalharam -se ao ver
Fantasma.
- Isto é um lobo?
- Um lobo gigante - Jon respondeu. - Chama-se Fantasma.
O lobo gigante é o símbolo da Casa do meu pai.
- O nosso é um caçador andante - disse Samwell Tarly.
- Gosta de caçar?
O gordo estremeceu.
- Detesto - parecia outra vez prestes a chorar.
- Que se passa agora? - perguntou-lhe Jon. - Por que está
sempre tão assusta do?
Sam fixou os olhos no resto de sua torta de porco e
abanou a cabeça débilmente, assustado demais até para
falar. Um estrondo de gargalhadas encheu o salão. Jon
ouviu Pyp guinchando com voz aguda. Pôs-se em pé.
- Vamos lá para fora.
A gorda cara redonda olhou-o com suspeita.
- Por quê? Que vamos fazer lá fora?
- Conversar - disse Jon. - Já viu a Muralha?
- Sou gordo, não sou cego - Samwell Tarly retrucou. -
Claro que a vi, tem duzentos metros de altura - mas
levantou-se assim mesmo, enrolou um manto debruado de
peles em volta dos ombros e saiu da sala comum atrás de
Jon, ainda desconfiado, como se suspeitasse de que algum
truque cruel o esperava na noite. Fantasma caminhou ao
lado deles.
- Nunca pensei que fosse assim - Sam disse enquanto
caminhavam, com as palavras transformando-se em vapor
no ar frio. Já bufava e arquejava, tentando acompanhar
Jon. - Os edifícios estão todos ruindo, e é tão... tão...
- Frio? - uma dura geada caía sobre o castelo, e Jon ouvia
o suave ranger de ervas cinzentas sob suas botas.
Sam confirmou com a cabeça, ostentando uma expressão
infeliz.
- Detesto o frio - disse. - Na noite passada acordei na
escuridão e o fogo tinha se apagado, e tive certeza de que
ia congelar antes que a manhã chegasse.
- Deve ser mais quente no lugar de onde você vem.
- Nunca tinha visto neve até o mês passado. Vínhamos
atravessando as terras acidentadas, eu e os homens que
meu pai enviou para me trazerem para o norte, e esta
coisa branca começou a cair como uma leve chuva. A
princípio pensei que era belíssima, como pena s caindo do
céu, mas continuou, e continuou, até que fiquei gelado até
os ossos. Os homens tinham crostas de neve barbas e
mais sobre os ombros, e ela continuava a cair. Temi que
nunca mais parasse.
Jon sorriu.
A Muralha erguia-se à frente deles, brilhand o fracamente
à luz de uma meia-lua. No céu as ardiam, límpidas e
nítidas.
- Eles vão me obrigar a subir até lá em cima? - Sam
perguntou. Seu rosto azedou como leite velho quando
olhou para as grandes escadas de madeira. - Eu morro se
tiver de subir aquilo.
- Há um guindaste - Jon o apontou. - Podem subi-lo numa
gaiola.
Samwell Tarly fungou.
- Não gosto de lugares altos.
Aquilo foi demais. Jon franziu as sobrancelhas, incrédulo.
- Mas você tem medo de tudo? - perguntou. - Não consigo
entender. Se é mesmo tão co varde, o que está fazendo
aqui? Por que um covarde haveria de querer se juntar à
Patrulha da Noite?
Samwell Tarly o olhou por um longo momento, e sua face
redonda pareceu cair para den tro de si própria. Sentou-se
no chão coberto de geada e desatou a chora r, com
enormes soluços estrangulados que lhe estremeciam todo
o corpo. Jon Snow só pôde parar e ficar vendo. Tal como
a queda de neve nas terras acidentadas, aquelas lágrimas
pareciam não ter fim.
Foi Fantasma que soube o que fazer. Silencioso como uma
sombra, o lobo gigante branco aproximou-se e começou a
lamber as lágrimas quentes no rosto de Samwell Tarly. O
rapaz gordo gritou, surpreso... E, por algum milagre, seus
soluços transformaram-se em gargalhadas.
Jon Snow riu com ele. Depois, sentaram-se no chão
gelado, aconchegados aos mantos com Fantasma entre
ambos. Jon contou a história de como ele e Robb tinham
encontrado os lobinhos recém-nascidos no meio da neve
do fim do verão. Parecia agora te rem se passado mil anos.
Pouco depois, deu por si falando de Winterfell.
- Às vezes sonho com o castelo - ele disse. - Caminho
pelo seu longo salão vazio. Minha voz ecoa pelo lugar, mas
ninguém responde, e eu ando mais depre ssa, abrindo
portas, gritando no mes. Nem sequer sei quem procuro. Na
maior parte das noites é meu pai, mas às vezes é Robb,
ou minha irmã mais nova, Arya, ou meu tio - pensar em
Benjen Stark o entristeceu, ele continuava desaparecido. O
Velho Urso enviara patrulhas à sua procura. Sor Jeremy
Rykker liderara duas buscas e Quorin Halfhand partira da
Torre Sombria, mas nada tinham encontrado além de um
punhado de sinais que o tio deixara nas árvores para
marcar o caminho. Nas terras altas pedregosas do
noroeste as marcas paravam abruptamente, e todos os
sinais de Ben Stark esvaneciam -se.
- Alguma vez encontra alguém no seu sonho? - Sam quis
saber.
Jon balançou a cabeça.
- Nem uma só pessoa. O castelo está sempre vazio -
nunca falara a ninguém sobre aquele sonho, e não
compreendia por que motivo o contava agora a Sam, mas
de algum modo sentia-se bem falando dele. - Até os
corvos desapareceram da colônia, e as cavalariças estão
cheias de ossos. Isso sempre me assusta. Então começo a
correr, abrir portas com violência, subir os de graus da
torre três de cada vez, gritando por alguém, por quem
quer que seja. Então, dou por mim em frente à porta para
as criptas. Lá dentro tudo está negro, e vejo os degraus
que descem em espiral. Sem saber como, sei que tenho de
descer, mas não quero fazê-lo. Tenho medo do que pode
haver lá à minha espera. Os velhos Reis do I nverno estão
lá, sentados em seus tronos com lobos de pedra a seus
pés e espadas de ferro sobre os joelhos, mas não é deles
que tenho medo. Grito que não sou um Stark, que aquele