não é o meu lugar, mas não serve de nada, tenho de ir,
seja como for, e, port anto, começo a descer, tateando as
paredes enquanto vou avançando, sem uma tocha que me
alumie o caminho. Fica cada vez mais escuro, até que me
dá vontade de gritar - parou, de cenho franzido,
embaraçado. - E é então que sempre acordo - com a pele
fria e pegajosa, tremendo na escuridão de sua cela.
Fantasma salta para a cama, ao seu lado, e seu calor é tão
reconfortante como o nascer do dia. Ele volta a adormecer
com o rosto enterrado no pelo branco e grosso do lobo
gigante. - Você sonha com Monte Chifre? - Jon perguntou.
- Não - a boca de Sam apertou-se e endureceu. -
Detestava aquilo - coçou Fantasma atrás da orelha,
pensando, e Jon deixou o silêncio respirar. Depois de um
longo tempo, Samwell Tarly começou a falar. Jon Snow
escutou em silêncio, e ficou s abendo como foi que um
covarde confesso veio parar na Muralha.
Os Tarly eram uma família antiga na honra, vassalos de
Mace Tyrell, Senhor de Jardim de Cima e Protetor do Sul.
Como filho mais velho de Lorde Randyll Tarly, Samwell
nascera herdeiro de ricas terras, uma fortaleza forte e
uma grande espada cheia de histórias chamada Veneno de
Coração, forjada de aço valiriano e passada de pai para
filho havia quase quinhentos anos.
Mas todo o orgulho que o senhor seu pai poderia ter
sentido com o nascimento de Samwell desapareceu quando
o rapaz cresceu roliço, mole e desajeitado. Sam gostava de
ouvir música e criar as próprias canções, vestir suaves
veludos, brincar na cozinha do castelo ao lado dos cozi -
nheiros, absorvendo os cheiros doces enquanto ia
roubando bolos de limão e tortas de mirtilo. Suas paixões
eram os livros, os gatos e a dança, mesmo desastrado
como era. Mas ficava doente à vista de sangue e chorava
até ao ver uma galinha ser morta. Uma dúzia de mestres
de armas chegou e partiu de Monte Chifre t entando
transformar Samwell no cavaleiro que o pai desejava. O
rapaz recebeu insultos e bengaladas, bateram-lhe e
fizeram-no passar fome. Um homem o obrigou a dormir
vestido de cota de malha para deixá -lo mais belicoso.
Outro vestiu-lhe a roupa da mãe e o obrigou a percorrer
o muro exterior do castelo, a fim de lhe incutir valor
através da vergonha. Mas ele só foi se tornando mais
gordo e mais assustado, até que o desapontamento de
Lorde Randyll se transformou em ira, e a ira em desprezo.
- Uma vez - confidenciou Sam, com a voz transformada
num murmúrio - vieram dois ho mens ao castelo, bruxos
de Qarth, de pele branca e lábios azuis. Mataram um
auroque macho e obrigaram-me a tomar banho no sangue
quente, mas isso não me deu a coragem que tinham
prometido. Fiquei doente e com vômitos. Meu pai mandou
açoitá-los.
Por fim, depois de três meninas em outros tantos anos, a
Senhora Tarly deu ao senhor seu esposo um segundo
filho. Desse dia em diante, Lorde Randyll ignorou Sam,
dedicando todo seu tempo ao rapaz mais n ovo, uma
criança feroz e robusta, mais a seu gosto. Samwell
conheceu vários anos de uma doce paz, com sua música e
seus livros.
Até a madrugada do décimo quinto dia do seu nome,
quando foi acordado e lhe apresenta ram o cavalo selado e
pronto. Três homens de armas o acompanharam até um
bosque próximo de Monte Chifre, onde o pai esfolava um
veado. "Você é agora quase um homem feito, e o meu
herdeiro", disse Lorde Randyll Tarly ao filho mais velho,
enquanto ia tirando a pele da carcaça.
"Não me deu motivo algum para deserdá-lo, mas também
não lhe permitirei herdar a terra e o título que devem
pertencer a Dickon. A Veneno de Coração deve passar
para as mãos de um homem suficientemente forte para
brandi-la, e você nem é digno de lhe tocar o punho.
Portanto, decidi que hoje anunciará seu desejo de vestir o
negro. Irá renunciar a qualquer pretensão à he rança do
seu irmão e partirá para o norte antes do cair da noite.
Se assim não fizer, então amanhã tere mos uma caçada, e
em algum lugar nesses bosques seu cavalo t ropeçará e
você será atirado da sela para a morte... ou pelo menos
será isso que direi à sua mãe. Ela tem um coração de
mulher, encontra nele lugar até para estimá -lo, e não
tenho nenhum desejo de lhe causar desgosto. Mas qu e não
passe por sua cabeça que será realmente assim tão fácil se
pensar em me desafiar. Nada me dará mais prazer que
caçá-lo como o porco que você é." Seus braços estavam
vermelhos até os cotovelos quando pousou a faca de
esfolar. "E é assim. Sua escolha é esta. A Patrulha da
Noite" o pai enfiou a mão no veado, arrancou -lhe o
coração e apertou-o na mão, vermelho e a pingar, "ou
isto”.
Sam contou a história com uma voz calma e sem vida,
como se fosse algo que tivesse aconte cido a outra pessoa,
não a ele. E estranhamente, pensou Jon, não chorou, nem
mesmo uma vez. Quando terminou, ficaram sentados lado
a lado escutando o vento por um tempo. Não havia mais
nenhum som no mundo inteiro.
Por fim, Jon disse:
- Devíamos voltar para a sala comum.
- Por quê? - Sam perguntou.
Jon encolheu os ombros,
- Há cidra quente para beber, ou vinho temperado, se
preferir. Em algumas noites, Dareon canta para nós, se
lhe agradar. Era um cantor antes... bem, não era mesmo,
mas quase; era um aprendiz de cantor.
- Como veio parar aqui? - Sam quis saber.
- Lorde Rowan de Bosquedouro o encontrou na cama com
sua filha. A moça era dois anos mais velha, e Dareon jura
que ela o ajudou a entrar pela janela, mas, aos olhos do
pai, foi violação, e aqui está ele. Quando Meistre Aemon o
ouviu cantar, disse que tinha uma voz que era mel
derramado sobre o trovão - Jon sorriu. - Sapo às vezes
também canta, se é que se pode chamar aquilo canto.
Canções de taberna que aprendeu com seu pai bêbado.
Pyp diz que tem uma voz que é mijo derramado sobre um
peido - e os dois riram juntos daquilo .
- Gostaria de ouvi-los - Sam admitiu -, mas eles não vão
me querer lá - tinha o rosto perturbado. - Ele vai me
fazer lutar outra vez amanhã, não vai?
- Vai - Jon foi forçado a dizer.
Sam pôs-se desajeitadamente em pé.
- É
melhor
que
eu
tente
dormir
-
enrolou-se
atabalhoadamente no manto e arrastou-se para longe.
Os outros estavam ainda na sala comum quando Jon
regressou, acompanhado apenas por Fantasma.
- E onde você estava? - Pyp perguntou.
- Conversando com Sam - ele respondeu.
- Ele é verdadeiramente covarde - Grenn interveio. - Na
hora do jantar, ainda havia lugares no banco quando ele
recebeu sua torta, mas estava assustado demais para vir