- Ele não a reconheceu - disse depois Sor Rodrik,
surpreso.
- Viu um par de viajantes sujos de lama, molhados e
cansados à beira da estrada. Nunca lhe ocorreria suspeitar
que um de nós seria a filha de seu suserano. Julgo que
estaremos suficientemente seguros na estalagem, Sor
Rodrik.
Era já quase noite quando lá chegaram, no cruzamento de
estradas que ficava a norte da gran de confluência do
Tridente, Masha Heddle estava mais gorda e mais grisalha
do
que
Catelyn
recordava,
ainda
masc ando
sua
folhamarga, mas lançou-lhes apenas o mais precipitado
dos olhares, sem sequer uma sugestão de seu sinistro
sorriso vermelho.
- Dois quartos no topo das escadas, é tudo o que há -
disse, enquanto mastigava. - Ficam abaixo da torre sineira,
portanto, não perderão refeições, mas há quem os ache
demasiado barulhentos. Não posso fazer nada. Estamos
cheios, ou tão perto disso que não faz diferença. São esses
quartos ou a estrada.
Foram aqueles quartos, poeirentas águas -furtadas de teto
baixo no topo de uma escada estreita e escura.
- Deixem as botas aqui embaixo - disse-lhes Masha depois
de recolher o dinheiro. - O rapaz as limpará. Não quero
as escadas cheias de lama. Atenção ao sino. Os que
chegam tarde às refeições não comem - não havia
sorrisos, e nenhuma menção a bolos doces.
Quando o sino tocou para o jantar, o som foi
ensurdecedor. Catelyn vestira roupas secas. Estava sentada
junto à janela, vendo a chuva a cair. O vidro era leitoso e
cheio de bolhas, e lá fora caía um crepúsculo úmido.
Catelyn
apenas
conseguia
entrever
o
lamacento
cruzamento
onde
as
duas
grandes
estradas
se
encontravam.
O cruzamento a fez hesitar. Se virassem ali para oeste,
era um caminho fácil até Correrrio. O pai sempre lhe dera
conselhos sábios quando mais precisava, e ansia va por
falar com ele, por preveni -lo da tempestade que se
preparava. Se Winterfell precisava se preparar para a
guerra, o que dizer de Correrrio, tão mais próximo de
Porto Real, com o poder do Rochedo Casterly erguendo-se
a oeste como uma sombra. Se seu pa i fosse mais forte,
talvez tivesse arriscado, mas Hoster Tully passara os
últimos dois anos na cama, e Catelyn não estava disposta
a sobrecarregá-lo agora.
A estrada que seguia para leste era mais selvagem e
perigosa, subindo ao longo de sopés rochosos e espessas
florestas até as Montanhas da Lua, atravess ando passagens
elevadas e profu ndos desfiladeiros até o Vale de Arryn e
os pedregosos Dedos, que se projetavam para além d o
Vale. Por cima deste erguia -se o Ninho da Águia, altaneiro
e inexpugnável, com torres que se erguiam ao céu. Ali,
encontraria a irmã... e, talvez, algumas das respostas que
Ned procurava. Certamente Lysa sabia mais do que se
atrevera a colocar na carta. Podia até possuir as provas de
que Ned necessitava para levar a ruína aos Lannister; e, se
chegassem à guerra, necessitariam dos Arryn e dos
senhores orientais que lhes prestavam vassalagem.
Mas a estrada da montanha era perigosa. Gatos -das-
sombras patrulhavam essas passagens, avalanches de
rochas eram comuns, e os clãs das montanhas era m
salteadores sem lei, descendo das alturas para roubar e
matar, e derretendo como neve sempre que os cavaleiros
partiam do Vale á sua procura. Mesmo Jon Arryn, um
senhor tão grande como os melhores que o Ninho da
Águia conhecera, viajara sempre escoltado quando
atravessava as montanhas. A única escolta de Catelyn era
um cavaleiro idoso, armado de lealdade.
Não, pensou, Correrrio e Ninho da Águia teriam de
esperar. Seu caminho corria para o norte até Winterfell,
onde os filhos e o dever a esperavam. Assim q ue tivessem
passado o Gargalo em segurança, poderia anunciar -se a
um dos vassalos de Ned e enviar homens a cavalo na
frente com ordens para montar uma vigia na estrada do
rei.
A chuva obscurecia os campos para lá do cruzamento, mas
Catelyn via o terreno co m suficiente clareza na memória.
O mercado era justamente do outro lado da estrada, e a
aldeia, a uma milha mais para a frente, meia centena de
casas brancas rodeando um pequeno septo de pedra.
Agora deveria haver mais; o verão fora longo e pacífico.
Para norte dali, a estrada real acompa nhava o Ramo Verde
do Tridente através de vales férteis e bosques verdes,
passando por aldeias meias de vida, sólidas fortificações e
os castelos dos senhores do rio.
Catelyn conhecia-os todos: os Blackwood e os Bracken,
eternos inimigos, cujas disputas o pai era obrigado a
mediar; a Senhora Whent, a última de sua linhagem, que
vivia com seus fantasmas nas abóbadas cavernosas de
Harrenhal; o irascível Lorde Frey, que sobrevivera a sete
esposas e enchera seus castelos gême os de filhos, netos e
bisnetos, e também de bastardos, filhos e netos. Todos
eles
eram
vassalos
dos
Tully,
com
as
espadas
juramentadas a serviço de Correrrio. Catelyn perguntou a
si mesma se seria suficiente, caso se chegasse à guerra. O
pai era o homem mais firme que já vivera, e não tinha
dúvida de que chamaria os vassalos... , mas será que estes
viriam? Também os Darry, os Ryger e os Mooton tinham
prestado juramento a Correrrio, e no entanto tinham
lutado com Rhaegar Targaryen no Tridente, enquanto
Lorde Frey chegara com seus recrutas muito depois de a
batalha ter chegado ao fim, deixando algumas dúvidas
quanto ao exército a que planejara juntar -se (o deles,
assegurara solenemente aos vencedores depois de tudo
terminar, mas daí em diante o pai chamara -o sempre o
Atrasado Lorde Frey). Não se devia chegar à guerra,
pensou fervorosamente Catelyn. Não deveriam deixar que
se chegasse.
Sor Rodrik veio falar com ela no momento em que o sino
terminava o seu chamado.
- E melhor que nos apressemos se quisermos comer esta
noite, minha senhora.
- Talvez seja mais seguro se não nos apresentarmos como
cavaleiro e senhora até passarmos o Gargalo - ela disse. -
Viajantes comuns atraem menos atenção. Um pai e uma
filha que tomaram a estrada por causa de algum assunto
de família, por exemplo.
- Como desejar, minha senhora - concordou Sor Rodrik. Só
quando ela riu é que compreen deu o que acabara de
dizer. - A velha cortesia custa a morrer, minha... minha
filha - tentou puxar pelas barbas desaparecidas e
suspirou, exasperado.
Catelyn tomou-lhe o braço.
- Venha, pai - ela disse. - Descobrirá que Masha Heddle serve bem
sua mesa, penso eu, mas procure não elogiá-la. Garanto que não vai
querer vê-la sorrir.
A sala de estar era longa e cheia de correntes de ar, com uma fila de