enormes barris de madeira numa ponta e uma lareira na outra. Um
criado corria de um lado para o outro com espetos de carne,
enquanto Masha tirava cerveja dos barris, sem jamais parar de
mascar sua folhamarga.
Os bancos estavam cheios de gente, com pessoas da aldeia e
agricultores misturando-se livremente com todos os tipos de
viajantes. Os cruzamentos geravam estranhos companheiros;
tintureiros de mãos negras e purpúreas partilhavam o banco com
homens do rio que fediam a peixe; um ferreiro musculoso apertava-
se ao lado de um mirrado velho septão; experimentados mercenários
e moles e rechonchudos mercadores trocavam notícias como alegres
companheiros.
A companhia incluía mais homens de armas do que Catelyn teria
preferido. Três junto ao fogo usavam o símbolo do garanhão
vermelho dos Bracken, e havia um grande grupo em cota de malha
de aço azul e capas de um cinza-prateado. Em seus ombros
ostentavam outro selo familiar, as torres gêmeas da Casa Frey.
Estudou-lhes os rostos, mas eram todos novos demais para a terem
conhecido. O mais velho entre eles não teria mais idade que Bran na
época em que ela partiu para o norte.
Sor Rodrik encontrou um lugar vago para eles no banco que ficava
perto da cozinha. Do outro lado da mesa, um jovem bem-apessoado
dedilhava uma harpa.
- Sete bênçãos aos bons senhores - disse, quando se sentaram. Uma
taça vazia de vinho estava na mesa à sua frente.
- E para você também, cantor - retorquiu Catelyn. Sor Rodrik gritou
por pão, carne e cerveja num tom que queria dizer já. O cantor, um
jovem de cerca de dezoito anos, olhou para eles com ousadia e
perguntou-lhes de onde vinham, para onde iam e que novas traziam,
atirando as perguntas, rápidas como setas, sem deixar uma pausa
para as respostas. - Deixamos Porto Real há uma quinzena -
respondeu Catelyn à pergunta que mais lhe dava segurança.
- É para onde eu vou - disse o jovem. Tal como Catelyn suspeitara,
ele estava mais interessado em contar sua própria história do que
ouvir a deles. Nada havia que os cantores mais amassem que o som
de suas vozes. - O torneio da Mão significa senhores ricos com
bolsas gordas. Da última vez, regressei com mais prata do que
conseguia transportar... ou teria regressado, se não tivesse perdido
tudo ao apostar na vitória do Regicida.
- Os deuses franzem as sobrancelhas aos jogadores - Sor Rodrik disse
severamente. Era um homem do Norte e comungava das ideias dos
Stark acerca dos torneios.
- E com certeza a franziram para mim - disse o cantor. - Seus deuses
cruéis e o Cavaleiro das Flores deram cabo de mim completamente.
- Decerto isto lhe serviu de lição - disse Sor Rodrik.
- Serviu. Desta vez, minhas moedas apoiarão Sor Loras.
Sor Rodrik tentou puxar as barbas que não estavam lá, mas, antes de
poder compor uma reprimenda, o criado chegou numa correria. Pôs
na frente deles fatias de pão e as encheu com bocados de carne
tirada de um espeto pingando molho quente. Outro espeto continha
minúsculas cebolas, pimentões de fogo e gordos cogumelos. Sor
Rodrik preparou-se para se refestelar, enquanto o rapaz corria de
volta para lhes trazer cerveja.
- Meu nome é Marillion - disse o cantor, fazendo soar uma corda de
sua harpa. - Com certeza já me ouviram tocar em algum lugar...
Seus modos fizeram Catelyn sorrir. Poucos cantores errantes se
aventuravam tão para norte como Winterfell, mas conhecera esse
tipo de homem durante a infância passada em Correrrio.
- Receio que não - ela respondeu.
Ele arrancou um lamentoso acorde da harpa.
- A perda é sua - ele retrucou. - Quem foi o melhor cantor que já
ouviu?
- Alia de Bravos - respondeu Sor Rodrik de imediato.
- Ah, eu sou muito melhor que esse pau velho - disse Marillion. - Se
tiver prata para uma canção, de bom grado a mostrarei.
- Talvez eu tenha um cobre ou dois, mas mais depressa os atiraria a
um poço do que pagaria pelos seus uivos - resmungou Sor Rodrik.
Sua opinião sobre cantores era bem conhecida; a música era uma
coisa adorável para mulheres, mas não era capaz de compreender
por que motivo um rapaz saudável ocuparia as mãos com uma harpa
quando poderia empunhar uma espada.
- Seu avô tem uma natureza amarga - disse Marillion para Catelyn. -
Pretendia honrados. Uma homenagem à sua beleza. A bem da
verdade, fui feito para cantar para reis e grandes senhores.
- Ah, consigo ver isso - disse Catelyn. - Ouvi dizer que Lorde Tully é
amigo das canções. Sem dúvida que já esteve em Correrrio.
- Cem vezes - disse o jovem com desenvoltura. - Mantêm um
aposento à minha espera, e o jovem senhor é como um irmão.
Catelyn sorriu, perguntando a si mesma o que Edmure pensaria
daquilo. Outro cantor dormira uma vez com uma moça que seu
irmão gostava; desde então passara a odiar a raça.
- E Winterfell? - perguntou-lhe. - Já viajou para o norte?
- E por que haveria de ir para o norte? - perguntou Marillion. - Lá
em cima são só neves e peles de urso, e a única música que os Stark
conhecem é o uivar dos lobos - de um modo longínquo, ela percebeu
a porta que se abria na ponta mais distante da sala.
- Estalajadeiro - disse uma voz de criado atrás dela -, temos cavalos
que precisam de estábulo, e meu senhor de Lannister deseja um
quarto e um banho quente.
- Ah, deuses - disse Sor Rodrik antes que Catelyn o conseguisse
silenciar, seus dedos apertando-se com força em torno de seu braço.
Masha Heddle desfazia-se em reverências e sorria seu hediondo
sorriso vermelho.
- Lamento, senhor, deveras, estamos cheios, todos os quartos.
Eram quatro, Catelyn viu. Um velho trajando o negro da Patrulha da
Noite, dois criados... e ele, ali em pé, pequeno e descarado como a
vida.
- Meus homens dormirão no seu estábulo, e quanto a mim, bem, não
preciso propriamente de um quarto grande, como pode ver bem -
mostrou um sorriso zombeteiro. - Desde que o fogo aqueça e a palha
esteja razoavelmente livre de pulgas, sou um homem feliz.
Masha Heddle estava fora de si.
- Senhor, não há nada, é o torneio, não há nada a fazer, ah...
Tyrion Lannister tirou uma moeda da bolsa, atirou-a por cima da
cabeça, apanhou-a, e a atirou de novo. Mesmo na outra ponta da
sala, onde Catelyn se encontrava, o cintilar do ouro era
inconfundível.
Um cavaleiro livre com um desbotado manto azul pôs-se em pé:
- É bem-vindo ao meu quarto, senhor.
- Ora, aqui está um homem inteligente - disse Lannister, e atirou a
moeda a rodopiar pela sala fora. O cavaleiro livre a apanhou no ar. -
E, além disso, ligeiro de movimentos - o anão virou--se para Masha
Heddle: - Confio que seja capaz de arranjar comida?
- Tudo o que desejar, senhor, tudo e mais alguma coisa - prometeu a
estalajadeira. E que ele sufoque com a comida, pensou Catelyn, mas
foi Bran quem ela viu sufocar, afogando-se no próprio sangue.
Lannister lançou um olhar de relance pelas mesas mais próximas.
- Meus homens comerão seja o que for que esteja servindo a essa
gente. Porções duplas, porque tivemos um longo dia de viagem.
Quero uma ave assada... galinha, pato, pombo, não importa. E