mande-me um jarro do seu melhor vinho. Yoren, janta comigo?
- Sim, senhor, janto - respondeu o irmão negro.
O anão nem sequer olhara de relance para a extremidade mais
distante da sala, e Catelyn pensava em como se sentia grata pelos
bancos apinhados que havia entre eles, quando subitamente Marillion
deu um salto e pôs-se em pé.
- Meu senhor de Lannister! - ele gritou. - Ficarei feliz em entretê-lo
enquanto se alimenta, Deixe-me cantar o lai4 sobre a grande vitória
de vosso pai em Porto Real.
- Nada me arruinaria mais o jantar - o anão disse secamente. Seus
olhos desiguais avaliaram brevemente o cantor, começaram a se
afastar... e deram com Catelyn. Olhou-a por um momento, confuso.
Ela virou o rosto, mas era tarde demais. O anão sorria. - Senhora
Stark, mas que prazer inesperado - ele disse. - Lamentei não tê-la
encontrado em Winterfell.
Marillion a olhou de boca aberta, com a confusão cedendo lugar ao
desgosto enquanto Catelyn se punha em pé, Ouviu Sor Rodrik
praguejar. Se ao menos o homem se tivesse demorado na Muralha,
pensou ela, se ao menos...
4 Poema narrativo lírico tocado em harpa ou viola. (N. T.)
- Senhora. . Stark? - disse Masha Heddle, sem compreender.
- Ainda era Catelyn Tully da última vez que pernoitei aqui - ela disse
à estalajadeira. Ouvia os murmúrios, sentia os olhos postos em si.
Lançou um olhar pela sala, olhando para o rosto dos cavaleiros e as
espadas juramentadas, e inspirou profundamente para abrandar o
frenético bater do coração. Atrever-se-ia a correr o risco? Não havia
tempo para pensar bem, apenas o momento e o som de sua voz a
ressoar em seus ouvidos.
- O senhor aí, no canto - disse para um homem mais velho em que
não reparara até agora. - É o morcego negro de Harrenhal que vejo
bordado em seu manto, senhor?
O homem ergueu-se.
- É sim, senhora.
- E é a Senhora Whent uma verdadeira e honesta amiga de meu pai,
Lorde Hoster Tully de Correrrio?
- É, sim - o homem respondeu resolutamente.
Sor Rodrik ergueu-se em silêncio e desapertou a espada em sua
bainha. O anão piscava, sem expressão, com os olhos desiguais
repletos de perplexidade.
- O garanhão vermelho foi sempre uma visão bem-vinda em
Correrrio - disse Catelyn ao trio perto do fogo. - Meu pai conta
Jonos Bracken entre os seus mais antigos e leais vassalos.
Os três homens de armas trocaram olhares incertos,
- Nosso senhor sente-se honrado pela sua confiança - disse um deles,
hesitantemente.
- Invejo ao seu pai todos esses bons amigos - observou Lannister -,
mas não compreendo bem o objetivo disto, Senhora Stark.
Ela o ignorou, virando-se para o grande grupo vestido de azul e
cinza. Residia neles o fulcro da questão; eram mais de vinte.
- Também conheço seu símbolo: as torres gêmeas de Frey. Como
passa vosso bom senhor, senhores?
O capitão pôs-se em pé.
- Lorde Walder está bem, senhora. Planeja tomar uma nova esposa
no nonagésimo dia do seu nome, e pediu ao senhor seu pai para
honrar o casamento com sua presença.
Tyrion Lannister soltou um risinho abafado. Foi nesse momento que
Catelyn soube que o tinha na mão.
- Este homem chegou como convidado a minha casa e ali conspirou
para matar meu filho, um rapaz de sete anos - proclamou para toda
a sala, apontando. Sor Rodrik deslocou-se para o seu lado, de espada
na mão. - Em nome do Rei Robert e dos bons senhores que servem,
solicito-lhes que o capturem e me ajudem a devolvê-lo a Winterfell,
onde esperará a justiça do rei.
Não saberia dizer o que lhe deu maior satisfação: se o som de uma
dúzia de espadas a serem empunhadas como uma só, ou se a
expressão no rosto de Tyrion Lannister.
Sansa
Sansa chegou ao torneio da Mão, com a Septã Mordane e Jeyne
Poole, numa liteira com cortinas de uma seda amarela tão fina que se
conseguia ver através delas. Transformavam o mundo inteiro em
ouro. Para lá das muralhas da cidade, tinha sido erguida uma centena
de pavilhões junto ao rio, e a plebe chegou aos milhares para assistir
aos jogos. O esplendor de tudo aquilo tirou o fôlego de Sansa; as
armaduras brilhantes, os grandes cavalos ornados com prata e ouro,
os gritos da multidão, os estandartes esvoaçando ao vento... e os
próprios cavaleiros, acima de tudo os cavaleiros.
- É melhor do que nas canções - ela sussurrou quando encontraram
os lugares que o pai lhe prometera, entre os grandes senhores e
senhoras.
Sansa estava belamente vestida naquele dia, num vestido verde que
lhe realçava o arruivado dos cabelos, e estava consciente de que a
admiravam e sorriam.
Viram os heróis de cem canções avançar, cada um mais fabuloso que
o anterior. Os sete cavaleiros da Guarda Real desceram ao campo,
todos, menos Sor Jaime Lannister, com armaduras de escamas da cor
do leite e mantos tão alvos como neve acabada de cair. Sor Jaime
vestia também o manto branco, mas por baixo brilhava em ouro da
cabeça aos pés, com um elmo em forma de cabeça de leão e uma
espada dourada. Sor Gregor Clegane, a Montanha Que Cavalga,
trovejou como uma avalanche ao passar por eles. Sansa reconheceu
Lorde Yohn Royce, que visitara Winterfell dois anos antes.
- Sua armadura é de bronze, com milhares e milhares de anos, com
runas mágicas gravadas que o protegem do perigo - sussurrou para
Jeyne. Septã Mordane indicou-lhes Lorde Jason Mallister, vestido de
índigo com relevos de prata e com as asas de uma águia no elmo.
Abatera três dos vassalos de Rhaegar no Tridente. As moças
rebentaram em risinhos ao ver o sacerdote guerreiro Thoros de Myr,
com sua larga toga vermelha e a cabeça raspada, até que a septã lhes
contou que tinha uma vez escalado as muralhas de Pyke com uma
espada em chamas na mão.
Havia outros competidores que Sansa não conhecia; pequenos
cavaleiros dos Dedos, de Jardim de Cima ou das montanhas de
Dorne, cavaleiros livres jamais celebrados e homens acabados de
serem feitos escudeiros, os filhos mais novos de grandes senhores e
os herdeiros de Casas menores. Homens mais jovens, muitos ainda
não tinham realizado grandes feitos, mas Sansa e Jeyne concordaram
que um dia os Sete Reinos ressoariam ao som de seus nomes. Sor
Balon Swann, Lorde Bryce Caron, das Marcas. O herdeiro do bronze
de Yohn, Sor Andar Royce, e o irmão mais novo, Sor Robar, cujas
placas de aço prateado traziam a mesma filigrana em bronze de
antigas runas que protegia o pai. Os gêmeos, Sor Horas e Sor
Hobber, cujos escudos exibiam o símbolo do cacho de uvas dos
Redwyne, bordo sobre azul. Patrek Mallister, filho de Lorde Jason. Os
seis Frey da Travessia: Sor Jared, Sor Hosteen, Sor Danwell, Sor
Emmon, Sor Theo, Sor Perwyn, filhos e netos do velho Lorde Walder
Frey e também o filho bastardo, Martyn Rivers.
Jeyne Poole confessou-se assustada pelo aspecto de Jalabhar Xho, um
príncipe exilado das Ilhas do Verão que usava uma capa de penas em
verde e escarlate por cima de uma pele escura como a noite, mas
quando viu o jovem Lorde Beric Dondarrion, com os cabelos como