ouro vermelho e o escudo negro atravessado por um relâmpago,
anunciou-se pronta para se casar com ele naquele momento.
O Cão de Caça também entrava na lista de participantes, e
igualmente dela constava o irmão do rei, o bem-apessoado Lorde
Renly de Ponta Tempestade. Jory, Alyn e Harwin competiam por
Winterfell e pelo Norte.
- Jory parece um pedinte ao lado dos outros - fungou Septã Mordane
quando ele surgiu, Sansa só podia concordar. A armadura de Jory era
feita de metal azul-acinzentado sem distintivos ou ornamentos, e um
fino manto cinza pendia-lhe dos ombros como um trapo sujo. Mas
saiu-se bem, derrubando Horas Redwyne na primeira justa e um dos
Frey na segunda. No terceiro encontro, fez três passagens por um
cavaleiro livre chamado Lothor Brune, cuja armadura era tão sem
graça como a sua. Nenhum dos homens caiu do cavalo, mas a lança
de Brune era mais firme e seus golpes, mais bem colocados, e o rei
concedeu-lhe a vitória. Alyn e Harwin não estiveram tão bem; Harwin
foi desmontado ao primeiro golpe por Sor Meryn, da Guarda Real, ao
passo que Alyn caiu perante Sor Balon Swann.
Ajusta prolongou-se por todo o dia e entrou pelo crepúsculo, com os
cascos dos grandes cavalos de batalha batendo o terreno até
transformá-lo num descampado irregular de terra revolta. Uma dúzia
de vezes Jeyne e Sansa gritaram em uníssono quando cavaleiros
chocaram as lanças com estrondo, explodindo-as em lascas, enquanto
os plebeus gritavam pelos seus favoritos. Jeyne cobria os olhos
sempre que um homem caía, como uma menininha assustada, mas
Sansa era feita de material mais firme. Uma grande senhora sabia
como se comportar em torneios. Até Septã Mordane reparou na sua
compostura e fez um aceno de aprovação.
O Regicida competiu brilhantemente. Derrotou Sor Andar Royce e
Lorde Bryce Caron, das Marcas, tão facilmente como se estivesse
investindo sobre aros, e depois teve um encontro duro com o
experiente Barristan Selmy, que vencera os dois primeiros embates
contra homens trinta e quarenta anos mais novos.
Sandor Clegane e o imenso irmão, Sor Gregor, a Montanha, também
pareciam imbatíveis, derrotando adversário atrás de adversário num
estilo feroz. O mais aterrador momento do dia chegou durante a
segunda justa de Sor Gregor, quando sua lança se ergueu e atingiu,
sob o gorjal, um jovem cavaleiro vindo do Vale, com tanta força que
lhe trespassou a garganta, matando-o instantaneamente. O jovem
caiu a menos de três metros de onde Sansa se encontrava. A ponta
da lança de Sor Gregor quebrara-se em seu pescoço e o sangue de
sua vida fluiu em lentas golfadas, cada uma mais fraca que a
anterior. Sua armadura brilhava de tão nova; uma brilhante faixa de
fogo corria pelo braço estendido onde o aço capturava a luz. Então, o
sol se escondeu atrás de uma nuvem, que desapareceu. O manto era
azul, da cor do céu num dia límpido de verão, ornamentado com
uma borda de luas crescentes, mas quando o sangue o encharcou, o
tecido escureceu e as luas foram se tornando vermelhas, uma a uma.
Jeyne Poole chorou tão histericamente que Septã Mordane acabou
por levá-la até que recuperasse a compostura, mas Sansa ficou
sentada, com as mãos fechadas sobre o colo, observando com um
estranho fascínio. Nunca antes tinha visto um homem morrer.
Também devia chorar, pensou, mas as lágrimas não vinham. Talvez
tivesse gasto todas elas com Lady e Bran. Disse a si mesma que seria
diferente se tivesse sido Jory, Sor Rodrik ou seu pai. O jovem
cavaleiro do manto azul não lhe era nada, um estranho qualquer
vindo do Vale de Arryn, cujo nome esquecera assim que o ouvira. E
agora o mundo também esqueceria seu nome, concluiu; não haveria
canções em sua honra. Era triste.
Depois de levarem o corpo, um rapaz com uma pá correu para o
campo e atirou terra sobre o local onde o jovem caíra para cobrir o
sangue. E então recomeçaram as justas.
Sor Balon Swann também caiu perante Gregor, e Lorde Renly,
perante Cão de Caça. Renly foi desmontado tão violentamente que
pareceu voar para trás, para longe do adversário, com as pernas para
o ar. A cabeça bateu no chão com um crac audível que fez a
multidão prender a respiração, mas era apenas o chifre de ouro do
elmo. Um dos galhos tinha se partido sob seu peso. Quando Lorde
Renly se pôs em pé, o público aplaudiu ruidosamente, pois o bonito
irmão mais novo do rei Robert era muito popular. Entregou o galho
partido ao seu vencedor com uma vénia cortês. Cão de Caça
resfolegou e atirou a haste partida à multidão, onde a arraia-miúda
desatou aos socos e aos empurrões na disputa pelo pequeno bocado
de ouro, até que Lorde Renly surgiu entre eles para restaurar a paz.
A essa altura Septã Mordane já regressara, sozinha. Jeyne sentira-se
doente, explicou; ajudara-a a voltar ao castelo. Sansa quase se
esquecera de Jeyne.
Mais tarde, um pequeno cavaleiro com um manto xadrez caiu em
desgraça ao matar o cavalo de Beric Dondarrion e foi desclassificado.
Lorde Beric mudou a sela para uma nova montaria, apenas para ser
derrubado logo a seguir por Thoros de Myr. Sor Aron Santugar e
Lothor Brune investiram três vezes sem resultado; Sor Aron caiu
depois perante Lorde Jason Mallister, e Brune, perante o filho mais
novo de Yohn Royce, Robar.
No fim, restaram quatro: o Cão de Caça; seu monstruoso irmão
Gregor; Jaime Lannister, o Regicida; e Sor Loras Tyrell, o jovem a
quem chamavam Cavaleiro das Flores.
Sor Loras era o filho mais novo de Mace Tyrell, senhor de Jardim de
Cima e Protetor do Sul. Com dezesseis anos, era o mais novo
cavaleiro em campo, mas naquela manhã, em suas primeiras três
justas, tinha derrubado três cavaleiros da Guarda Real. Sansa nunca
vira ninguém tão belo. Sua placa de peito estava primorosamente
moldada e adornada como um buquê de mil flores diferentes, e seu
garanhão branco como a neve estava envolvido em uma manta de
rosas vermelhas e brancas. Depois de cada vitória, Sor Loras tirava o
elmo, cavalgava devagar em torno do alam-brado, e por fim tirava
uma única rosa branca da manta e a atirava a alguma bela donzela
que visse na multidão. Seu último encontro do dia foi com o Royce
mais novo. As runas ancestrais de Sor Robar pouca proteção
providenciaram, pois Sor Loras quebrou-lhe o escudo e o arrancou
da sela, fazendo-o cair com um horrível estrondo. Robar ficou
gemendo enquanto o vencedor fazia seu circuito do campo. Por fim,
chamaram uma liteira e levaram o vencido para sua tenda, aturdido e
imóvel. Sansa nem o viu. Só tinha olhos para Sor Loras. Quando o
cavalo branco parou na sua frente, pensou que seu coração
arrebentaria.
Às outras donzelas dera rosas brancas, mas a que escolheu para ela
era vermelha.
- Querida senhora - disse -, nenhuma vitória possui sequer metade
da sua beleza - Sansa recebeu a rosa timidamente, estupidificada pelo
galanteio. Os cabelos do jovem eram uma massa de grandes caracóis
castanhos, seus olhos eram como ouro líquido. Inalou a doce