fragrância da rosa e ficou agarrada a ela até muito depois de Sor
Loras ter se afastado.
Quando Sansa acabou por finalmente olhar para cima, um homem
estava em pé à sua frente, sem desviar o olhar. Era baixo, com uma
barba pontiaguda e um fio de prata nos cabelos, quase tão velho
como seu pai.
- A senhora deve ser uma de suas filhas - o homem lhe disse. Tinha
olhos cinza-esverdeados que não sorriam quando a boca o fazia. -
Tem o jeito dos Tully.
- Sou Sansa Stark - ela disse, pouco à vontade. O homem usava um
manto pesado, com colarinho de peles, atado com um tejo de prata,
e possuía as maneiras fáceis de um grande senhor, mas ela não o
conhecia. - Não tive a honra, senhor.
Septã Mordane foi rápida em vir em seu auxílio.
- Querida menina, este é o Senhor Petyr Baelish, do pequeno
conselho do rei.
- Sua mãe foi em tempos passados a minha rainha da beleza - disse o
homem calmamente. Seu hálito cheirava a menta. - Tem os cabelos
dela - Sansa sentiu os dedos dele no rosto quando lhe afagou uma
madeixa arruivada. De forma bastante abrupta, virou-se e afastou-se.
A essa altura, a lua já ia bastante alta e a multidão estava cansada, e
o rei acabava de decretar que os últimos três encontros seriam
disputados na manhã seguinte, antes do corpo a corpo. Enquanto os
plebeus se dirigiam para suas casas, conversando sobre as justas do
dia e os embates da manhã seguinte, a corte deslocou-se até a beira-
rio a fim de dar início ao festim. Seis monumentais auroques
estavam assando havia horas, girando lentamente em espetos de
madeira, enquanto os ajudantes de cozinha os untavam com
manteiga e ervas até a carne começar a crepitar. Mesas e bancos
tinham sido montados fora dos pavilhões, e neles tinham sido
colocadas grandes pilhas de ervamel, morangos e pão fresco.
Sansa e Septã Mordane receberam lugares de grande honra, à
esquerda do estrado elevado onde o próprio rei se sentava com sua
rainha. Quando Príncipe Joffrey se sentou à sua direita, Sansa sentiu
sua garganta apertar. Ele não lhe dirigira uma palavra desde que
acontecera aquela terrível coisa, e ela não se atrevia a falar com ele.
A princípio pensou que o odiava pelo que fizera a Lady, mas depois
de chorar até ficar sem lágrimas dissera a si mesma que não tinha
sido obra de Joffrey, não verdadeiramente. Fora a rainha quem fizera
aquilo; era ela que devia odiar, ela e Arya. Nada de mal teria
acontecido se não fosse Arya.
Naquela noite não podia odiar Joffrey. Era demasiado bonito para ser
odiado. Vestia um gibão de um profundo tom de azul ornamentado
com uma fileira dupla de cabeças de leão, e trazia em volta da testa
uma estreita coroa feita de ouro e safiras. Os cabelos eram tão
brilhantes como metal. Sansa olhou para ele e estremeceu, com medo
de que a ignorasse ou, pior ainda, voltasse a ficar detestável e a
fizesse fugir da mesa chorando.
Mas, em vez disso, Joffrey sorriu e beijou-lhe a mão, belo e galante
como qualquer príncipe das canções, e disse:
- Sor Loras tem bom olho para a beleza, querida senhora,
- Ele foi muito gentil - ela objetou, tentando permanecer modesta e
calma, embora seu coração cantasse. - Sor Loras é um verdadeiro
cavaleiro. Julga que ele ganha amanhã, senhor?
- Não - disse Joffrey. - Meu cão dará conta dele, ou talvez meu tio
Jaime. E dentro de alguns anos, quando tiver idade para entrar no
torneio, darei conta de todos eles - ergueu a mão para chamar um
criado que trazia um jarro de vinho de verão gelado e serviu-se de
uma taça. Ela olhou ansiosa para Septã Mordane, até que Joffrey se
inclinou e encheu também a taça da septã, que lhe fez um aceno de
cabeça, agradeceu-lhe amavelmente, mas não disse uma palavra.
Os criados mantiveram as taças cheias toda a noite, mas, mais tarde,
Sansa não conseguiu se lembrar sequer de ter provado o vinho. Não
precisava de vinho. Estava ébria da magia da noite, entontecida pelos
seus encantos, arrebatada por belezas com que sonhara toda a vida e
nunca se atrevera a ter esperança de conhecer. Cantores sentavam-se
perante o pavilhão do rei, enchendo o crepúsculo de música. Um
malabarista manteve uma cascata de clavas em chamas rodopiando
no ar. O bobo privado do rei, o simplório de rosto em forma de
torta, chamado Rapaz Lua, dançou por ali equilibrado em pernas de
pau, vestido de cores variadas, fazendo troça de toda a gente com tão
hábil crueldade que Sansa perguntou a si mesma se o homem seria
mesmo lento. Até Septã Mordane foi impotente contra ele; quando
cantou sua cançoneta acerca do Grande Septão, ela riu tanto que
derramou vinho no vestido.
E Joffrey era a alma da cortesia. Falou toda a noite com Sansa,
derramando elogios, fazendo-a rir, partilhando com ela bocadinhos
dos mexericos da corte, explicando as brincadeiras do Rapaz Lua.
Sansa ficou tão cativada que esqueceu toda a educação e ignorou
Septã Mordane, sentada à sua esquerda.
E durante todo o tempo os pratos iam e vinham. Uma espessa sopa
de cevada e veado. Saladas de ervamel, espinafre e ameixas,
salpicadas de nozes esmagadas. Caracóis em alho e mel. Sansa nunca
antes tinha comido caracóis; Joffrey mostrou-lhe como tirar o animal
da casca e levou à boca a primeira daquelas delicadas porções.
Depois vieram trutas recém-pescadas do rio, cozidas em barro; seu
príncipe a ajudou a partir a dura capa escamosa para expor a carne
branca que se encontrava no interior. E, quando foi trazido o prato
de carne, foi ele que a serviu, cortando uma porção digna de uma
rainha e sorrindo ao depositá-la em seu prato. Ela podia ver, pelo
modo como se movia, que o braço direito ainda o incomodava, mas
ele não soltou uma palavra de queixume.
Mais tarde chegaram timo de vitela, tortas de pombo, maçãs cozidas
aromatizadas com canela e bolos de limão cobertos de açúcar, mas
Sansa já estava tão cheia que não conseguiu comer mais que dois
pequenos bolos de limão, por mais que os adorasse. Perguntava a si
mesma se poderia arriscar um terceiro quando o rei começou a
gritar.
O Rei Robert tornava-se mais ruidoso a cada prato. De vez em
quando, Sansa o ouvia rir ou rugir uma ordem por cima da música e
do tinir dos pratos e talheres, mas estava longe demais para entender
as palavras. Agora todos o ouviam,
- Não - trovejou, numa voz que abafava todas as outras conversas.
Sansa ficou chocada ao ver o rei em pé, de rosto vermelho,
cambaleando, Tinha uma taça de vinho na mão e estava bêbado
como um gambá.
- A senhora não me diz o que fazer, mulher - gritou à Rainha Cersei.
- Sou eu aqui o rei, entende? Eu é que governo aqui, e se digo que
amanhã luto, luto mesmol
Toda a gente o olhava. Sansa viu Sor Barristan, o irmão do rei, Renly,
e o homem baixo que falara tão estranhamente com ela e lhe tocara
o cabelo, mas ninguém fez um movimento para interferir. O rosto da
rainha era uma máscara, tão vazia de sangue que poderia ter sido
esculpida em neve. Ergueu-se da mesa, recolheu as saias e saiu em