posso lhe dizer que não houve nenhuma alegria nisso. Tive medo o
tempo todo, e realmente ele me encontrou. Havia um braseiro na
sala. Gregor não disse uma única palavra, limitou-se a me colocar
debaixo do braço e a enfiar o lado da minha cara nos carvões em
brasa, deixando-me lá enquanto eu gritava sem parar. Vê como ele é
forte. Mesmo naquele tempo, foram precisos três homens fortes para
afastá-lo de mim. Os septões pregam acerca dos sete infernos. Que
sabem eles? Só um homem que já tenha sido queimado sabe
realmente como é o inferno. "Meu pai disse a todos que meus
cobertores tinham pegado fogo, e o nosso meistre me deu
unguentos. Unguentos! Gregor também recebeu seus unguentos.
Quatro anos mais tarde, ungiram-no com os sete óleos, recitou seus
votos de cavaleiro e Rhaegar Targaryen bateu em seu ombro e disse:
'Erguei-vos, Sor Gregor'."
A voz áspera extinguiu-se. Ficou acocorado em silêncio na frente
dela, uma pesada silhueta negra envolta na noite, escondido de seus
olhos. Sansa ouvia a respiração irregular do homem. Compreendeu
que se sentia triste por ele. De algum modo, o medo tinha
desaparecido.
O silêncio prolongou-se durante muito tempo, tanto que começou de
novo a sentir medo, mas agora seu medo era por ele, não por si
própria. Encontrou o massivo ombro dele com a mão.
- Ele não era um verdadeiro cavaleiro - sussurrou-lhe.
Cão de Caça atirou a cabeça para trás e rugiu. Sansa tropeçou para
trás, afastando-se dele, mas ele pegou seu braço,
- Não - rosnou -, não, passarinho, ele não era um verdadeiro
cavaleiro.
Ao longo do resto do caminho até a cidade Sandor Clegane não disse
uma palavra. Levou-a até onde as carroças esperavam, disse a um
condutor para levá-los à Fortaleza Vermelha e subiu na carroça atrás
dela. Atravessaram em silêncio o Portão do Rei e as ruas iluminadas
por archotes da cidade. Abriu a porta de acesso e a levou para
dentro do castelo, com o rosto queimado a contrair-se em espasmos
e os olhos alertas, sempre um passo atrás enquanto subiram as
escadas da torre. Levou-a em segurança ao longo de todo o caminho
até o corredor que dava aos seus aposentos.
- Obrigada, senhor - Sansa disse humildemente.
Cão de Caça agarrou-lhe o braço e inclinou-se para a frente.
- As coisas que te disse esta noite - disse, com a voz ainda mais
áspera que de hábito. - Se algum dia contá-las a Joffrey... a sua irmã,
ao seu pai... a algum deles...
- Não conto - sussurrou Sansa. - Prometo.
Não era o suficiente.
- Se algum dia contar a alguém - terminou ele -, eu a mato.
Eddard
- Eu mesmo o velei - disse Sor Barristan Selmy, olhando o corpo que
jazia na parte de trás da carroça. - Ele não tinha mais ninguém.
Falaram-me que talvez uma mãe, no Vale. A fraca luz da madrugada,
o jovem cavaleiro parecia estar dormindo. Não fora bonito em vida,
mas a morte suavizara-lhe as feições rudemente talhadas, e as irmãs
silenciosas o tinham vestido a sua melhor túnica de veludo, com um
colarinho elevado para cobrir a ruína em que a lança tinha
transformado sua garganta. Eddard Stark olhou seu rosto e
perguntou a si mesmo se teria sido ele o causador da morte do
rapaz. Morto por um vassalo dos Lannister antes que Ned pudesse
falar com ele; seria possível que não passasse de mero acaso? Supôs
que nunca chegaria a saber.
- Hugh foi escudeiro de Jon Arryn durante quatro anos - prosseguiu
Selmy. - O rei o armou cavaleiro antes de partir para o norte, em
memória de Jon. O rapaz desejava aquilo desesperadamente, mas
temo que não estivesse pronto.
Ned dormira mal na noite anterior e sentia um cansaço maior do que
seria de esperar da idade.
- Nenhum de nós jamais está pronto.
- Para ser armado cavaleiro?
- Para a morte - com gentileza, Ned cobriu o rapaz com seu manto,
azul manchado de sangue, debruado por luas crescentes. Refletiu
amargamente que, quando a mãe perguntasse por que razão o filho
estava morto, lhe diriam que tinha lutado em honra da Mão do Rei,
Eddard Stark. - Isto foi desnecessário. A guerra não devia ser um
jogo - Ned virou-se para a mulher que estava ao lado da carroça,
envolta em cinza, com o rosto escondido, apenas os olhos à mostra.
As irmãs silenciosas preparavam os homens para a sepultura, e era
má sorte olhar a morte no rosto.
- Envie sua armadura para casa, para o Vale. A mãe deve querê-la.
- Vale uma boa quantia em prata - disse Sor Barristan. - O rapaz
mandou-a forjar especialmente para o torneio. Um trabalho simples,
mas bom. Não sei se acabou de pagar ao ferreiro.
- Pagou ontem, senhor, e pagou caro - respondeu Ned. E à irmã
silenciosa disse: - Envie a armadura à sua mãe. Tratarei com esse
ferreiro - a mulher fez-lhe uma reverência.
Mais tarde, Sor Barristan acompanhou Ned até o pavilhão do rei. O
acampamento começava a se agitar. Salsichas gordas chiavam e
pingavam sobre fogueiras, temperando o ar com os odores do alho e
da pimenta. Jovens escudeiros caminhavam apressados por ali,
conversando, enquanto seus senhores acordavam, bocejando e
espreguiçando-se, saudando o dia. Um criado com um ganso debaixo
do braço dobrou o joelho ao vê-los. "Senhores", murmurou, enquanto
o ganso grasnava e lhe bicava os dedos. Os escudos exibidos à porta
de todas as tendas anunciavam seus ocupantes: a águia de prata de
Guardamar, o campo de rouxinóis de Bryce Caron, um cacho de uvas
para os Redwyne, o javali malhado, o touro vermelho, a árvore
flamejante, o carneiro branco, a espiral tripla, o unicórnio roxo, as
donzelas dançantes, a víbora negra, as torres gêmeas, a coruja
chifruda e, por fim, os brasões de um branco puro da Guarda Real,
brilhando como a madrugada.
- O rei pretende participar hoje do corpo a corpo - disse Sor
Barristan enquanto passavam pelo escudo de Sor Meryn, com a tinta
maculada por um profundo golpe onde a lança de Loras Tyrell
marcara a madeira ao derrubá-lo da sela.
- Sim - disse Ned em tom sombrio. Jory acordara-o na noite anterior
para lhe dar a notícia. Não admirava que tivesse dormido tão mal.
O olhar de Sor Barristan estava perturbado.
- Diz-se que as belezas da noite esmorecem de madrugada, e que os
filhos do vinho são frequentemente renegados à luz da manhã.
- É o que dizem - concordou Ned -, mas não de Robert - outros
homens poderiam reconsiderar as palavras ditas em bravatas ébrias,
mas Robert Baratheon as recordaria e, recordando-as, nunca recuaria.
O pavilhão do rei erguia-se perto da água, e as neblinas matinais que
o rio gerava tinham-no rodeado de colunas cinza. Era todo de seda
dourada, a maior e mais imponente estrutura no acampamento. A
porta, o martelo de batalha de Robert encontrava-se em exibição,
junto a um imenso escudo de ferro decorado com o veado coroado
da Casa Baratheon.
Ned tivera esperança de encontrar o rei ainda na cama, num sono
ensopado em vinho, mas a sorte não estava com ele. Encontraram
Robert bebendo cerveja de um corno polido e rugindo seu