renunciar à coroa. Embarcar para as Cidades Livres com meu cavalo
e meu martelo, passar o tempo fazendo guerra e entre vadias. Foi
para isso que nasci. O rei mercenário. Como me adorariam os
cantores! Sabe o que me impediu? A ideia de ver Joffrey no trono,
com Cersei atrás dele a segredar-lhe ao ouvido. Meu filho. Como
pude fazer um filho assim, Ned?
- Ele não passa de um rapaz - disse Ned desajeitadamente. Pouco
gostava de Príncipe Joffrey, mas percebia a dor na voz de Robert. -
Esqueceu de como você era bravo na idade dele?
- Não me perturbaria se ele fosse bravo, Ned. Não o conhece tão bem
como eu - suspirou e balançou a cabeça. - Ah, talvez tenha razão. Jon
perdeu a paciência comigo com bastante frequência e, no entanto,
acabei por me tornar um bom rei - Robert olhou para Ned e franziu
a sobrancelha perante seu silêncio. - Agora pode falar e concordar.
- Vossa Graça... - Ned começou cuidadosamente.
Robert deu-lhe uma palmada nas costas.
- Ah, diz que sou melhor rei que Aerys e terminamos o assunto. Você
nunca conseguiu mentir por amor ou por honra, Ned Stark. Ainda
sou novo, e agora que está aqui comigo as coisas serão diferentes.
Tornaremos este reinado num que seja digno de canções, e que os
Lannister vão para os sete infernos. Sinto cheiro de bacon. Quem lhe
parece que será nosso campeão hoje?
Viu o filho de Mace Tyrell? Chamam-lhe o Cavaleiro das Flores, Ora,
aí está um filho que qualquer homem ficaria orgulhoso de reclamar.
No último torneio, fez o Regicida cair sobre sua dourada garupa,
devia ter visto a cara da Cersei. Ri até me doer o peito. Renly diz que
ele tem uma irmã, uma donzela de catorze anos, adorável como uma
madrugada...
Quebraram o jejum com pão escuro, ovos de ganso cozidos, peixe
frito com cebolas e bacon, numa mesa montada junto à margem do
rio. A melancolia do rei dissipou-se com a névoa da manhã e não
demorou muito até Robert se tornar amistoso, recordando uma
manhã no Ninho da Águia, quando eram rapazes, enquanto comia
uma laranja.
- ... tinha dado a Jon um barril de laranjas, lembra-se? Só que tinham
apodrecido, e por isso atirei a minha por cima da mesa e atingi
Dacks bem no nariz. Lembra-se do escudeiro perebento de Redfort?
Atirou-me uma de volta e, antes que Jon pudesse sequer soltar um
peido, havia laranjas voando pelo Salão Grande em todas as direções
- o rei riu tumultuosamente, e até Ned sorriu ao recordar.
Era este o rapaz com quem tinha crescido, pensou; era este o Robert
Baratheon que conhecera e amara. Se conseguisse provar que os
Lannister estavam por trás do ataque a Bran, provar que tinham
assassinado Jon Arryn, este homem escutaria. Então Cersei cairia, e
com ela o Regicida, e se Lorde Tywin se atrevesse a sublevar o Oeste,
Robert o esmagaria tal como esmagara Rhaegar Targaryen no
Tridente. Via isso com toda clareza.
Há muito tempo que Eddard Stark não comia tão bem, e depois seus
sorrisos chegaram com maior facilidade e frequência, até a hora de
retomar o torneio, Ned acompanhou o rei até o terreno das justas.
Prometera assistir com Sansa aos confrontos finais; Septã Mordane
sentia-se doente, e a filha estava determinada a não perder o fim das
justas. Ao acompanhar Robert ao seu lugar, notou que Cersei
Lannister decidira não comparecer; o lugar ao lado do rei estava
vago. Isto também deu a Ned motivos de esperança.
Abriu caminho até onde a filha estava sentada e a encontrou no
momento em que as trombetas soavam para a primeira justa do dia.
Sansa estava tão absorta que quase pareceu não notar sua chegada.
Sandor Clegane foi o primeiro cavaleiro a aparecer. Trazia um manto
verde-oliva sobre a armadura de um cinza-fuliginoso. O manto e o
elmo em forma de cabeça de cão eram as suas únicas concessões à
ornamentação.
- Cem dragões de ouro pelo Regicida - Mindinho anunciou
sonoramente quando Jaime Lannister entrou na arena, montando um
elegante cavalo de batalha baio puro-sangue, que trazia uma
cobertura de cota de malha dourada, e Jaime cintilava da cabeça aos
pés. Até a lança tinha sido feita com a madeira dourada das Ilhas do
Verão.
- Está apostado - gritou de volta Lorde Renly. - Cão de Caça traz
hoje um ar faminto.
- Mesmo os cães famintos sabem que não é boa ideia morder a mão
que os alimenta - Mindinho gritou secamente.
Sandor Clegane fez cair o visor com um clac audível e tomou
posição. Sor Jaime atirou um beijo a uma mulher qualquer que
estava entre os plebeus, abaixou com cuidado o visor e encaminhou-
se para a ponta da arena. Os dois homens abaixaram as lanças.
Nada seria melhor para Ned Stark do que ver ambos perder, mas
Sansa observava de olhos úmidos e ansiosa. A galeria erguida à
pressa estremeceu quando os cavalos romperam a galope. Cão de
Caça inclinou-se para a frente enquanto avançava, com a lança firme
como uma rocha, mas Jaime mudou habilmente de posição no
instante anterior ao impacto. A ponta da lança de Clegane foi
inofensivamente atirada contra o escudo dourado com o desenho do
leão, enquanto a do Regicida atingia o adversário em cheio. A
madeira estilhaçou-se e Cão de Caça cambaleou, lutando para se
manter sentado. Sansa prendeu a respiração, Uma rude aclamação
ergueu-se entre os plebeus.
- Estou aqui pensando em que poderei gastar seu dinheiro - gritou
Mindinho a Lorde Renly.
Cão de Caça conseguiu manter-se sobre a sela. Fez seu cavalo dar
meia-volta com dureza e regressou à arena para a segunda passagem.
Jaime Lannister atirou ao chão a lança quebrada e apanhou uma
nova, brincando com o escudeiro. Cão de Caça esporeou o cavalo
para um galope duro. Lannister avançou para enfrentá-lo. Desta vez,
quando Jaime Lannister mudou de posição, Sandor Clegane mudou
com ele. Ambas as lanças explodiram, e quando os estilhaços assenta-
ram, um baio puro-sangue sem cavaleiro trotava para longe em
busca de grama, enquanto Sor Jaime Lannister rolava na terra,
dourado e amassado.
Sansa disse:
- Eu sabia que Cão de Caça ia ganhar.
Mindinho a ouviu.
- Se sabe quem vai ganhar o segundo encontro, fale agora, antes que
Lorde Renly me depene — ele gritou para ela. Ned sorriu.
- É uma pena que o Duende não esteja aqui conosco - disse Lorde
Renly. - Teria ganhado o dobro.
Jaime Lannister estava de novo em pé, mas seu ornamentado elmo de
leão tinha sido torcido e amassado na queda, e agora não conseguia
tirá-lo. A plebe gritava e apontava, os senhores e as senhoras
tentavam abafar o riso, sem conseguir, e, sobre toda aquela algazarra,
Ned ouvia o Rei Robert às gargalhadas, mais alto que todos os
demais. Por fim, tiveram de levar o Leão de Lannister a um ferreiro,
cego e aos tropeções.
Por essa altura, Sor Gregor Clegane já estava em posição no topo da
arena. Era enorme, o maior homem que Eddard Stark já vira, Robert
Baratheon e os irmãos eram todos homens grandes, tal como Cão de
Caça, e em Winterfell havia um ajudante de cavalariça simplório