Выбрать главу

Will começou a pensar qual de todos aqueles convidados educados e cheios de medalhas, no coquetel do Ministério das Relações Exteriores, tinha traído seus companheiros, que por sua vez também eram traidores. E nesse grupo ele também se incluía.

— Nos últimos dias — prosseguiu a rani — representantes de nada menos que três das maiores companhias de petróleo, européias e americanas, chegaram de avião a Rendang-Lobo. Soube pelo informante que eles já estão «trabalhando» as quatro ou cinco figuras-mestras da Administração que possam, no futuro, influir na decisão sobre quem deverá obter a concessão em Pala.

Will estalou a língua em sinai de desaprovação.

Quantias consideráveis, deu a entender a rani, tinham sido, se não diretamente oferecidas, pelo menos mencionadas, com a intenção de deixá-los ficar à mercê das tentações.

— Execrável! — comentou Will.

— O senhor usou a palavra exata — disse ela. — E é por isso que alguma coisa tem que ser feita imediatamente.

A rani soubera, por intermédio de Bahu, que Will já tinha escrito a lorde Aldehyde e que, certamente dentro de poucos dias, uma resposta deveria chegar. Mas uma espera de alguns dias era demasiado longa. O tempo era essencial, não somente por causa do que aquelas companhias rivais estavam fazendo, mas também — e a rani falou baixo, em tom de mistério — por outras razões. Imediatamente, imediatamente, começou a exortar. Imediatamente, sem mais delongas. Lorde Aldehyde deveria ser informado por telegrama de tudo o que estava acontecendo (o fiel Bahu havia se oferecido para transmitir a mensagem em código, por intermédio da Legação de Rendang em Londres, disse ela) e, juntamente com a informação, teria de seguir um pedido urgente, a fim de que Will, na qualidade de correspondente especial, tivesse poderes para tomar as decisões (nessa altura, as decisões seriam predominantemente de caráter financeiro) que se fizessem necessárias para assegurar o triunfo da Causa Comum.

— Com sua permissão — continuou —, direi a Bahu para telegrafar imediatamente. O telegrama será assinado por nós dois, Mr. Farnaby. Penso, mon cher, que isso será agradável para o senhor.

Não havia nenhum motivo para se sentir lisonjeado, mas também nada havia que pudesse justificar uma negativa de sua parte, uma vez que tinha escrito para Joe Aldehyde a fim de que objetasse. Procurando demonstrar o máximo de entusiasmo, em virtude da longa pausa que havia feito enquanto procurava outra solução, Will respondeu que sim.

— Amanhã deveremos receber alguma resposta — acrescentou ele.

— Receberemos Hoje à noite — assegurou-lhe a rani.

— A senhora acha que é possível?

— Com a ajuda de Deus, tudo é possível — respondeu expressivamente.

— É verdade — disse Will. — Mas…

— Sigo o que minha Pequena Voz me diz, e ela está me dizendo: «Hoje à noite». Está dizendo também que «ele dará carta branca», carte blanchez Mr. Farnaby, e que Mr. Farnaby será inteiramente bem-sucedido — disse cheia de entusiasmo.

— Que maravilha — respondeu Will, em tom de dúvida.

— O senhor deverá obter sucesso.

— A senhora acha possível?

— Deverá ter — insistiu a rani.

— Por quê?

— Porque foi Deus quem me inspirou a lançar a Cruzada do Espírito.

— Não consigo perceber a correlação.

— Talvez não devesse lhe dizer. — Parou de falar por algum tempo e depois prosseguiu. — Mas, afinal de contas, que mal há nisso? Se a nossa causa triunfar, lorde Aldehyde prometeu apoiar integralmente a Cruzada do Espírito. Como Deus quer o sucesso da Cruzada, a nossa causa não pode deixar de vencer.

— QED… — Quis gritar, mas se conteve. Não seria educado. De qualquer modo, o assunto não era para brincadeira…

— Vou desligar, porque tenho de falar com Bahu. A bientôt, meu caro Farnaby. — E, após um novo «bientôt, meu caro Farnaby», desligou.

Com um encolher de ombros, Will recomeçou a leitura das Notas sobre o que é quê. Que mais havia para fazer?

Dualismo… Sem isso é dificílimo haver boa literatura. Com isso, a possibilidade de uma boa Vida não pode existir. «Eu» indica a existência de uma «coisa» que subsiste em mim. «Sou» nega o fato de que toda a existência é conexão e mudança. «Eu sou». Duas palavras pequenas; mas que imensidão de inverdades! O dualista dotado de mentalidade religiosa «extrai» o espírito do seio das profundezas abismais. O não-dualista «convoca» a imensidão para a intimidade do espírito. Em outras palavras, crêem que essa imensidão já se encontrava no âmago do espírito.

Will ouviu o barulho de um carro que se aproximava. Ao silêncio que se fez, quando o motor foi desligado, seguiu-se o som do bater de uma porta, o ruído de passos no cascalho e depois nos degraus da varanda.

— Você está pronto? — perguntou Vijaya na sua voz grave.

Pondo de lado as Notas sobre o que é quê, apanhou seu bordão de bambu, levantou-se e dirigiu-se para a porta de entrada.

— Pronto e cheio de entusiasmo — disse Will, ao se encaminhar para a varanda.

— Então vamos — disse Vijaya, segurando-lhe um dos braços e recomendando-lhe para ter cuidado com os degraus.

Uma mulher gorda, de rosto redondo, aparentando quarenta e cinco anos, estava em pé, ao lado do jipe. Usava um vestido cor-de-rosa e estava adornada com um colar e brincos de coral.

— Apresento-lhe Leela Rao — disse Vijaya. — É nossa bibliotecária, secretária, tesoureira e mantenedora da ordem. Sem ela, estaríamos perdidos.

Enquanto a cumprimentava, Will imaginou estar diante de uma versão mais escura dessas delicadas e incansáveis senhoras inglesas que, quando os filhos já estão criados, se dedicam às obras de caridade ou às organizações culturais, e que, embora sem serem dotadas de muita inteligência, são desprendidas, dedicadas, genuinamente boas e… horrivelmente maçantes.

— Os meus amigos Radha e Ranga já haviam me falado do senhor — disse Mrs. Rao quando marginavam o lago de lótus e se dirigiam para a rodovia.

— Espero que tenham me aceito com o mesmo entusiasmo com que os aceitei.

— Fico tão satisfeita em saber que o senhor gosta deles! — disse Mrs. Rao com a fisionomia irradiando alegria.

— Ranga é excepcionalmente inteligente — disse Vijaya.

— E como consegue manter em perfeito equilíbrio a introversão e o mundo exterior! — esmerou-se Mrs. Rao. — Apesar de sempre tentado (e como!) a escapar para o mundo do nirvana de arhat ou para o pequeno paraíso tão lindamente arrumado da abstração pura. Sempre tentado e muitas vezes resistindo às tentações, pois o Ranga cientista de arhat também é um outro ser. É um Ranga compassivo e que está sempre pronto (se soubermos como atraí-lo) a aceitar as realidades da vida, a ser cônscio das suas responsabilidades e a prestar um auxílio eficiente. Que felicidade para ele e para todos nós que tenha encontrado uma pequena como Radha, que é simples, inteligente, alegre, meiga e tão ricamente dotada para o amor e a felicidade. Radha e Ranga estavam incluídos entre os meus alunos prediletos — confessou Mrs. Rao.

«Alunos de alguma espécie de escola dominical budista», pensou Will com condescendência. Mas a realidade o supreendeu quando soube que nos últimos seis anos essa devotada pioneira, nas folgas do seu serviço de bibliotecária, ensinava aos jovens a ioga do amor. Imaginava que os métodos que haviam afastado Murugan e que a rani, com toda a sua possessividade incestuosa, classificara de «ultrajantes», deviam ser os mesmos. Will abriu a boca para fazer algumas perguntas, porém conteve-se a tempo; seus reflexos haviam sido condicionados para latitudes maiores e para «pioneiras» de outro tipo. As perguntas simplesmente se recusaram a sair dos seus lábios e agora já era tarde demais para fazê-las. Mrs. Rao começara a falar acerca de sua outra ocupação.