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Will concordou, dizendo:

— Notas sobre o que é quê: «Seja você mesmo».

— O velho rajá se preocupava primordialmente com as pessoas tais como são, porém num nível que ultrapassava os limites da individualidade. Nosso interesse pelo assunto é idêntico ao dele, mas nosso primeiro objetivo é a educação elementar. Para darmos essa educação, temos que lidar com indivíduos que diferem entre si em tamanho, forma e deficiências. A unidade transcendental dos indivíduos constitui o objetivo de uma educação de alto nível. Esse ensinamento é iniciado na adolescência, paralelamente com o curso elementar adiantado.

— Começa com a primeira experiência com o moksha!

— Então já ouviu falar do moksha!

— Sim. Cheguei até a vê-lo em ação.

— O dr. Robert levou-o para assistir à Iniciação de ontem

— explicou a diretora.

— Devo dizer que fiquei impressionado — acrescentou Will.

— Quando me lembro da minha educação religiosa… — Deixou a frase intencionalmente inacabada.

— Como ia dizendo, os adolescentes recebem simultaneamente os dois tipos de educação — continuou Mr. Menon. — Nós os auxiliamos a fim de que conheçam a unidade transcendental que existe entre eles e todos os outros seres dotados de sensibilidade. Ao mesmo tempo aprendem, nas aulas de Psicologia e de Fisiologia, que cada um de nós tem uma constituição singular e que todos diferimos uns dos outros.

— Quando freqüentei a escola, os pedagogos se esforçavam ao máximo para anular essas diferenças ou pelo menos moldá— las nos mesmos ideais dos últimos períodos da era vitoriana: o ideal do estudioso anglicano que se limitava a ser um gentleman na prática dos esportes. Gostaria muito de saber como vocês procedem em relação a essas diferenças individuais.

— Em primeiro lugar, nós as avaliamos — disse Mr. Menon. — Que é a criança sob o prisma anatômico, bioquímico e psicológico? Na sua hierarquia orgânica, que terá precedência: os instintos, os músculos ou o sistema nervoso? Até que ponto se aproxima dos três pólos extremos? Até onde se harmonizam e em que se chocam os elementos que compõem seu corpo e sua mente? Até onde vai seu desejo inato de mando? Qual a extensão da força que a faz sociável ou que a obriga a se voltar para seu mundo interior? Como sente, como pensa, como recorda? É um idealista? É destituído de ideal? Seu cérebro trabalha com idéias ou com palavras? Com ambas ao mesmo tempo ou com nenhuma delas? Em que plano se situa sua capacidade de narração? Será que vê o mundo do mesmo modo que Wordsworth e Traherne o viam quando crianças? Se assim for, o que pode ser feito para evitar que a glória e a inexperiência se desvaneçam à luz do sol? Em termos genéricos, como podemos educar as crianças no nível conceptual sem que destruamos a capacidade para que tenham uma intensa experiência não literal? Como conciliarmos a análise e a fantasia? Dezenas de perguntas devem ser feitas e respondidas. Por exemplo: essa criança está absorvendo todas as vitaminas existentes na sua alimentação? Ou sofrerá de alguma carência crônica que, se não for reconhecida e tratada, a transformará numa criatura de humor sombrio, dessas que só sabem ver a feiúra e que, imersas no tédio, só pensam em tolices ou em coisas maliciosas? Qual o nível da sua glicose? Sofre de alguma perturbação respiratória? Apresenta algum vício de postura? Como utiliza o corpo durante as horas de trabalho, de estudo e de divertimento? Além dessas, temos perguntas referentes a dons específicos: apresenta sinais que possam indicar talento para a música, para a Matemática, para a literatura? Será dotada de um poder acurado para a observação? Pensa com lógica e tira conclusões próprias a respeito dos fatos que observa? Finalmente, nos interessamos por saber qual o grau de sugestionabilidade que terá ao atingir a idade adulta. Todas as crianças são facilmente hipnotizáveis. Isso é de tal maneira verdadeiro que quatro em cada cinco podem ser induzidas ao sonambulismo. Nos adultos a proporção é inteiramente oposta. Em cada cinco, somente um pode ser induzido ao sonambulismo. Em cada grupo de cem crianças, quais são as vinte que, ao crescerem, serão suscetíveis aos assaltos do sonambulismo?

— É possível descobri-los com antecedência? — perguntou Will. — Caso seja, qual o objetivo dessa descoberta?

— Podemos descobri-los — respondeu Mr. Menon. — Aliás, é muito importante que sejam descobertos, principalmente no seu mundo. Falando politicamente, os vinte por cento que podem facilmente ser hipnotizados até o limite máximo constituem os elementos mais perigosos de sua sociedade.

— Por que perigosos?

— Porque são predestinados a ser vítimas dos propagandistas. Numa democracia pré-científica e antiquada, qualquer orador fascinante, possuindo uma boa organização que lhe sirva de apoio, pode transformar esses vinte por cento de sonâmbulos em potencial num exército de fanáticos arregimentados e inteiramente dedicados a tornar cada vez maior a glória e o poder do hipnotizador. Sob uma ditadura, esses mesmos sonâmbulos em potencial podem ser levados à fé implícita e passar a constituir o núcleo do partido onipotente. É essa a razão por que qualquer sociedade que dê valor à liberdade deve estar capacitada a descobrir, enquanto ainda são jovens, os futuros sonâmbulos. Depois de descobertos, podem ser hipnotizados e educados sistematicamente, a fim de não se deixarem hipnotizar pelos inimigos da liberdade. Ao mesmo tempo, seria bom que vocês reorganizassem suas organizações sociais de modo a tornar difícil, ou mesmo impossível, que os inimigos da liberdade tenham acesso ao poder e qualquer influência política.

— É nesse plano que podemos situar Pala?

— Exatamente — respondeu Mr. Menon. — E é por esse motivo que os nossos sonâmbulos em potencial não constituem perigo.

— Então, por que se dão ao trabalho de tentar descobri-los com antecedência?

— Porque esse «dom», quando bem usado, tem muito valor.

— Serve para controlar o destino? — perguntou Will, lembrando-se dos «cisnes terapêuticos» e de todas aquelas coisas ditas por Susila a respeito de as pessoas apertarem os próprios botões.

O subsecretário balançou a cabeça, negativamente.

— O Controle do Destino não exige nada além de um leve transe. Na prática, quase todos são capazes disso. Os sonâmbulos em potencial constituem os vinte por cento que podem chegar a um transe muito profundo. Somente quando uma pessoa está nessa espécie de transe é que se torna possível ensiná-la a alterar o tempo.

— O senhor pode alterar o tempo? — perguntou Will.

Mr. Menon tornou a balançar a cabeça negativamente.

— Infelizmente nunca pude me aprofundar bastante no assunto. Tudo aquilo que sei tive que aprendê-lo pelo modo mais longo e mais lento. Mrs. Narayan foi mais feliz do que eu. Fazendo parte dos privilegiados vinte por cento, pôde usar todos os atalhos educacionais que nos eram inteiramente interditos.

— Que espécie de atalhos? — indagou Will voltando-se para a diretora.

— São pequenos cursos de memorização de cálculos e de como pensar e resolver problemas. Começa-se aprendendo a sentir vinte segundos como se fossem dez minutos e um minuto como se fosse meia hora. Quando se está em transe profundo, isso é realmente muito fácil. Ouve-se a sugestão do professor e se fica lá, por longo tempo, sentado quietamente. Você é capaz de jurar que ficou sentado durante duas horas e, quando é trazido de volta, o relógio mostra que a experiência de duas horas foi «condensada» em quatro minutos.

— Como?

— Ninguém sabe — disse Mr. Menon. — Todavia, todas as histórias que se contam a respeito de pessoas que estão se afogando e que em poucos segundos vêem desenrolar diante de si, como numa projeção, tudo que viveram, são basicamente verdadeiras. O cérebro e o sistema nervoso, ou melhor, alguns intelectos e alguns sistemas nervosos são dotados dessa capacidade. Isso é tudo o que sabemos a respeito do assunto. Há cerca de sessenta anos tivemos a oportunidade de descobrir esse fenômeno e desde então temos continuado a explorá-lo. Entre outros motivos, nossos estudos têm objetivos educacionais.