— O que é que você diz aos que estão morrendo? — perguntou Will. — Que não se preocupem com a imortalidade e que prossigam na missão?
— Se prefere encarar o assunto desse modo, isso é exatamente o que fazemos. Prosseguir na busca do Conhecimento, nisto reside toda a arte de morrer.
— Vocês ensinam essa arte?
— Eu diria de outro modo. Nós os auxiliamos na prática da arte de viver, mesmo quando estão às portas da morte. Quando se tem consciência da vida impessoal e universal que existe em cada um de nós, a pessoa sabe o que realmente é. Nisto consiste a arte de viver e isso é o que podemos oferecer àquelas que vão morrer. Até o último minuto. Talvez além mesmo do fim.
— Além? — interrogou Will. — Não disse que isso era uma coisa em que os agonizantes não deviam pensar?
— Ninguém lhes pede para que pensem a respeito disso. Nós os auxiliamos a sentir o além, se é que tal coisa existe. Se existir — repetiu Susila. — Se a vida universal continuar quando nos separamos dos nossos corpos.
— Acredita que aconteça?
Susila sorriu.
— Minha opinião pessoal está fora de discussão. O que importa é o que possa pensar impessoalmente, enquanto estou vivendo, quando estiver morrendo e talvez mesmo depois de estar morta.
Estacionou o carro e desligou o motor. Entraram na cidade a pé. O dia de trabalho havia terminado e na rua principal a aglomeração era tão grande que dificultava o trânsito.
— Vou na frente. Esteja no hospital dentro de uma hora — disse dirigindo-se a Mary Sarojini. — Não chegue antes.
Após essas palavras, Susila se esgueirou entre os grupos de pessoas que passavam lentamente e desapareceu.
— Agora é você quem está de guarda — disse Will sorrindo para a menina.
Mary Sarojini concordou com um aceno de cabeça e segurou sua mão.
— Vamos ver o que está acontecendo na praça.
— Quantos anos tem sua avó Lakshmi? — indagou Will quando começaram a abrir caminho entre a multidão.
— Não sei bem — respondeu Mary Sarojini. — Ela parece ser velhíssima. Mas pode ser que seja porque sofre de câncer.
— Você sabe o que é o câncer?
Mary Sarojini estava perfeitamente informada.
— É o que acontece quando uma parte de você se esquece do todo e começa a agir como as pessoas loucas: vai crescendo, crescendo, como se nada mais existisse no mundo. E esse crescimento geralmente só pára quando a pessoa morre.
— Presumo que seja isso que está acontecendo com sua avó.
— Agora ela precisa de alguém que a ajude a morrer.
— Sua mãe ajuda com freqüência as pessoas que vão morrer?
A menina balançou a cabeça.
— Ela é excelente nisso.
— Você já viu alguém morrer?
— É claro — respondeu Mary Sarojini, num tom de voz que traduzia a surpresa que a pergunta lhe causara. — Deixe-me pensar… — Depois de um cálculo mental, continuou: — Já vi cinco pessoas morrerem. Seis, se contar um bebê.
— Quando eu tinha sua idade, ainda não havia visto ninguém morrer.
— É verdade?
— Sim. Vi somente cachorro.
— Os cães morrem com mais facilidade que as pessoas. Eles não falam sobre o assunto antes da hora.
— Como se sente… ao ver as pessoas morrerem?
— Não é tão feio como o nascimento dos bebês. Isso, sim, é uma coisa medonha. Pelo menos, dá essa impressão. Depois, quando você se lembra de que a dor foi suprimida, a coisa muda de aspecto.
— Acredite se quiser, mas nunca assisti ao nascimento de uma criança.
— Nunca? — Mary Sarojini estava espantada. — Nem quando estava na escola?
Will teve a visão de seu diretor, em vestes sacerdotais, conduzindo trezentos rapazolas de batina preta durante uma visita à maternidade.
— Nem mesmo nos meus tempos de escola — disse em voz alta.
— Nunca viu ninguém nascer nem morrer! Como foi que veio a aprender essas coisas?
— Na escola que eu freqüentava não aprendíamos coisas. Só nos ensinavam palavras.
A menina olhou-o, balançou a cabeça e, levantando a pequenina mão escura, bateu significativamente na testa.
— Loucos! Ou será que seus professores eram apenas ignorantes?
Will riu alto.
— Eram educadores altamente qualificados, de todo devotados ao mens sana in corpore sano e à manutenção da tradição ocidental. Agora, me diga uma coisa: você nunca teve medo?
— De pessoas tendo criança?
— Não. Você nunca teve medo ao ver as pessoas morrendo?
— Tive — respondeu ela após um momento de silêncio.
— E o que foi que você fez?
— Fiz o que me foi ensinado: tentei descobrir qual a parte de mim que tinha medo, e por quê.
— E qual delas estava amedrontada?
— Esta — dizendo isso, apontou para sua boca aberta. — Aquela que fala e que Vijaya chama de «pequena Miss Cibber». A que está sempre falando das coisas desagradáveis de que me lembro e de todas as grandiosas e impossíveis que penso poder realizar. Esta é a que me apavora.
— Por quê?
— Creio que isso acontece pelo fato de ela estar sempre falando em altas vozes ou para si mesma das coisas terríveis que talvez lhe aconteçam. Mas existe uma outra que não tem medo.
— Qual delas?
— Aquela que não fala, apenas olha, escuta e sente o que lhe vai no íntimo, e que algumas vezes, e de modo súbito, vê toda a beleza das coisas — acrescentou Mary Sarojini. — Estou dizendo, ela vê a beleza durante todo o tempo, mas eu nada vejo a não ser que ela desperte minha atenção. E é nesse momento que, de repente, passo a ver tudo lindo! Tudo belo, muito belo!… Mesmo a sujeira dos cães. — E apontou para um enorme exemplar que se encontrava por perto.
A rua estreita pela qual seguiam desembocava na praça do mercado. Os últimos raios de sol ainda beijavam o pináculo esculpido do templo e os pequenos mirantes cor-de-rosa que ornavam o teto do edifício da prefeitura. Na praça predominava o lusco-fusco e já era noite sob a enorme figueira-de-bengala. As vendedoras já haviam acendido as lâmpadas que estavam penduradas entre as cordas e os pilares das barracas. Verdadeiras ilhas de forma e cor emergiam da escuridão das folhagens e figuras morenas surgiam da invisibilidade, ganhando uma existência efêmera e brilhante antes de voltarem ao nada. Nos vazios entre os altos edifícios, uma verdadeira Babel de inglês e palanês vinha se mesclar aos pregões, aos assobios, aos gritos de papagaios e aos latidos de cães. A confusão era enorme. Empoleirado num mirante cor-de-rosa, um par de mainás implorava atenção e compaixão. De uma cozinha ao ar livre, no centro da praça, emanava o cheiro apetitoso de cebola, de pimentão, de açafrão, de peixe frito, de bolos que estavam sendo feitos e de arroz cozido. Através da densa profusão de odores, como se fosse um lembrete da Outra Margem, pairava o perfume tênue, doce e de uma pureza etérea, emanado das multicoloridas guirlandas de flores que estavam à venda ao lado da fonte.
A escuridão se adensava e, nos postes arqueados, as lâmpadas foram acesas. Reflexos brilhantes se irradiavam dos vistosos colares, pulseiras e anéis que adornavam os corpos lustrosos cor-de-cobre das mulheres. Sob a luz das lâmpadas, os contornos tornavam-se mais dramáticos e as formas adquiriram maior realidade, como se quisessem afirmar suas presenças. As sombras tornavam as órbitas mais profundas e destacavam os contornos do nariz e do queixo. Modelados por luz e sombra, os seios jovens pareciam mais opulentos e os rostos dos velhos pareciam mais enrugados e encovados.
De mãos dadas, Will e Mary Sarojini atravessaram a multidão.
Após cumprimentar a menina, uma senhora de meia-idade perguntou a Wilclass="underline"