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— O senhor é o homem que veio do «mundo exterior»?

— Sim. Quase dos confins do «mundo exterior» — assegurou-lhe.

Após olhá-lo por um instante, ela sorriu de modo amistoso, acariciou-lhe o rosto e disse:

— Todos nós sentimos pena do senhor.

Caminharam um pouco mais e pararam nas imediações de

um grupo que, reunido junto à escadaria do templo, escutava um homem ainda jovem tocando um instrumento de haste alongada, semelhante a um alaúde, cantando em palanês. Alternava períodos de declamação rápida com melismas vocais prolongados e monótonos, semelhantes aos dos pássaros. A isso se seguia uma alegre melodia de tons vivos e que terminava com um grito. Da multidão partiam sons de risadas. Depois de alguns compassos musicais, cantou mais um ou dois versos e dedilhou os acordes finais. Um coro de comentários incompreensíveis veio se misturar à nova onda de aplausos e de risos.

— O que foi que ele cantou?

— Uma canção acerca de meninos e meninas dormindo juntos — foi a resposta de Mary Sarojini.

— Oh! — Will ficou embaraçado, porém ao olhar para a face tranqüila da menina compreendeu que não havia razão para isso. Era evidente que o fato de meninos e meninas dormirem juntos era encarado com tanta naturalidade como o fato de irem à escola, correrem juntos e de virem à morrer.

— A parte que os fez rir foi quando ele disse que o futuro Buda não teria que deixar sua casa para ir receber a Sabedoria sob a árvore Bodhi, pois a receberia mesmo deitado com a princesa.

— Que você pensa disso?

— Acho que é uma boa idéia, pois desse modo a princesa também fica sábia.

— Você tem razão. Sendo um homem, não tinha pensado na princesa.

O tocador de alaúde, após tanger uma escala de sons incomuns, seguida por uma sucessão de arpejos, começou a cantar em inglês:

Todos falam de sexo; mas não os leve à sério — Nem cortesã nem ermitão, nem Paulo nem Freud. Ame — e os seus lábios, e os seios dela, Como que por encanto, receberão A própria Essência, a Semelhança, o Vazio.

A porta do templo foi aberta. O perfume do incenso se misturou aos odores de cebola e peixe frito da praça. Uma velha saiu e desceu cautelosamente os degraus.

— Quem foram Paulo e Freud? — perguntou Mary Sarojini quando recomeçaram a andar.

Will começou a fazer um breve relato do Pecado Original e do Plano de Redenção. A menina o escutou atentamente.

— Não é de admirar que a canção diga que não os levemos a sério.

— Depois disso vieram Freud e os complexos de Édipo.

— Édipo? Esse é o nome de um espetáculo de marionetes que vi na semana passada e que será reapresentado hoje à noite. Você gostaria de assistir? É muito bonito.

— Achou bonito? E aquela cena quando a velha descobre que é a mãe dele e se enforca? Você achou bonito quando Édipo arrancou os próprios olhos?

— Ele não arrancou os olhos — respondeu a menina.

— No lugar em que nasci, ele arranca os olhos.

— Aqui se limita a dizer que vai arrancá-los e sua mãe apenas tenta se enforcar. Mas ambos foram dissuadidos dos seus intentos.

— Por quem?

— Pelo menino e pela menina de Pala.

— Como foram introduzidos na peça? — indagou Will.

— Não sei. Eles aparecem nela. Agora se chama Édipo em Pala. Por que razão não haveriam de tomar parte?

— Você diz que essas crianças dissuadiram Jocasta da idéia do suicídio e convenceram Édipo a não arrancar os olhos, não é verdade?

— Sim. Tudo aconteceu no momento exato. Ela já estava com a corda em torno do pescoço e ele já tinha nas mãos dois estiletes. Mas o menino e a menina de Pala lhes disseram para não serem tolos, pois tudo não passara de obra do acaso. Édipo não sabia que o velho era seu pai. O velho o atingira na cabeça, e Édipo se descontrolara, pois ninguém lhes ensinara a dançar a dança rakshasi. Quando foi coroado rei, teve que se casar com a velha rainha, que era sua própria mãe. Mas ambos ignoravam isso. A única coisa que tinham que fazer, quando descobriram tudo, era darem o casamento por terminado. Essa história de que o casamento de Édipo com sua mãe fora a causa daquela virose é uma idiotice que nasceu da ignorância do povo.

— O dr. Freud pensava que todos os meninos queriam se casar com a mãe e matar o pai. O mesmo acontecia às meninas: todas elas queriam se casar com os pais.

— Que pais? Que mães? Nós temos tantos!

— Você está se referindo ao Clube de Adoção Mútua?

— Em nosso CAM existem vinte e dois.

— Tal número inspira confiança!

— Mas o pobre Édipo nunca teve um CAM Além disso, aprendera essa história acerca de a fúria de Deus se desencadear sobre os povos todas as vezes que cometiam erros.

Tinham aberto caminho entre a multidão e se encontravam na entrada de um local cercado por cordas, no qual estavam sentadas cerca de cem pessoas. Na parte mais afastada do recinto, profusamente iluminado pela luz de refletores, erguia-se o proscênio vermelho e dourado de um teatro de marionetes. Utilizando as moedas que o dr. Robert lhe dera, Will comprou duas entradas.

Ao soar de um gongo, a cortina do proscênio se ergueu silenciosamente, mostrando pilares brancos erigidos sobre uma grama verde-clara. Era a fachada do palácio real de Tebas, cujo frontão era ornado por uma divindade barbada, sentada numa nuvem. Um sacerdote semelhante à divindade, porém menos volumoso e mais pobremente vestido, entrou em cena, vindo da direita. Após cumprimentar o auditório, voltou-se para o palácio e, numa voz aflautada que destoava comicamente de sua barba profética, gritou:

— Édipo!

Ao som de trombetas, usando coturnos e coroa, surgiu o rei. O sacerdote fez uma reverência e o fantoche real deu-lhe permissão para falar.

— Dê ouvidos às nossas súplicas — disse ele.

O rei levantou a cabeça e passou a prestar atenção.

— Ouço os gemidos dos moribundos, os gritos das viúvas, o soluçar dos órfãos e o balbucio de preces e de súplicas.

— Súplicas! Isso é que é bom! — disse a divindade, que, sentada nas nuvens, passou a acariciar o peito.

— Eles foram acometidos de uma virose. Uma coisa semelhante à gripe asiática, porém bastante mais grave — esclareceu Mary Sarojini num murmúrio.

— Temos rezado e oferecido os mais dispendiosos sacrifícios. Toda a população está vivendo em castidade. Temos nos infligido flagelos todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Apesar disso, a onda de mortes cresce dia a dia. Imploramos seu auxílio, ó rei Édipo — disse o velho sacerdote em tom de lamento.

— Somente um deus pode nos ajudar.

— Ouçam! Ouçam! — gritou a divindade.

— De que modo?

— Só um deus pode nos dizer.

— Certo — disse a divindade na sua voz de basso profondo. — Absolutamente certo.

— Meu cunhado Creonte foi consultar o oráculo. Quando voltar (o que deve ocorrer dentro em breve), saberemos o que o céu nos aconselha.

— O céu que vá para o diabo — comentou o basso profondo.

— Será que o povo era mesmo tão ingênuo? — indagou Mary Sarojini, aproveitando-se do riso do auditório.

— Não tenha dúvidas. Era mesmo — respondeu Will.

Um fonógrafo começou a tocar a marcha fúnebre do Saul.

Da esquerda para a direita, passando lentamente diante do palco, uma procissão de carpinteiros vestidos de preto conduzia ataúdes envoltos em lençóis. As marionetes desapareciam pela direita e reapareciam pela esquerda, fazendo com que a procissão parecesse interminável e não se pudesse contar o número de cadáveres.