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Na qualidade de fiéis Cruzados, devemos colaborar com aquele PODER divino, que de modo tão inequívoco advoga a nossa Causa.

SENDO ASSIM, VENHA IMEDIA TAMENTE.

Murugan está de carro e o trará para nosso modesto Bangalô, onde posso lhe assegurar, meu caro Farnaby, você terá uma acolhida bastante calorosa da parte da bien sincèrement vôtre,

Fátima R.

Terminada a leitura, Will dobrou as três folhas perfumadas de papel azul e colocou-as no envelope. Seu rosto nada demonstrava, mas atrás daquela máscara de indiferença fervia a indignação. Estava indignado com a falta de educação e a vacuida de daquele rapaz, tão bonito em seu pijama branco. Outra on da de indignação o invadiu quando o perfume, vindo daquela carta, atingiu novamente suas narinas. A carta daquele monstro grotesco, cujo primeiro objetivo na vida fora arruinar o próprio filho, em nome da castidade e do amor materno! A carta daquela mulher que, usando Deus e um grupo de Mestres Ascendentes, procurava transformá-lo — a ele, Will — em um novo cruzado que, sob a bandeira oleosa de Joe Aldehyde, viesse divulgar novos e inesperados acontecimentos. Estava irritado consigo mesmo por ter se deixado envolver com aquela dupla ridi culamente sinistra. Não podia saber até onde pretendiam levar aquela vil conspiração contra a decência humana. E isso viera acontecer a ele… A ele, que nunca aceitava o «sim» como res posta, e que nunca deixara de acreditar secretamente (e com que entusiasmo!) que um dia pudesse defender os direitos do homem!

— Vamos embora — disse Murugan, com a autoridade nas cida da crença de que uma ordem de Fátima R. devia ser obedecida na íntegra e sem a menor hesitação.

Sentindo que devia ganhar tempo a fim de se acalmar, Will não respondeu imediatamente. Em vez disso, voltou a olhar de longe as marionetes. Jocasta, Édipo e Creonte estavam sentados nos degraus do palácio, esperando a chegada de Tirésias, imagi nou. Nas alturas, o basso profondo estava cochilando. Um grupo de carpideiras vestidas de preto atravessava o palco. Perto dos refletores, o menino de Pala começou a declamar em versos brancos:

Luz e Compaixão— quão inefavelmente Simples é a nossa Substância! Mas os Simples esperaram Durante séculos de atribulações O conhecimento dos múltiplos aspectos Do seu Eu, Do seu Todo real e das Verdades imaginadas. Esperaram e continuam esperando Pelo entrelaçamento perfeito e desmedido Da estrina com a caridade, Da verdade com as funções renais, Da beleza com o quilo, com a bile, com o sêmen. De Deus com um jantar, De Deus com o jejum e com o som dos sinos, O som — um, dois, três — e os ouvidos atentos.

Ouviu-se o tanger dos instrumentos e, a seguir, os sons prolongados de uma flauta.

— Vamos? — repetiu Murugan.

Will ergueu a mão, pedindo silêncio. A menina-marionete dirigira-se para o centro do palco e cantava:

O pensamento é o produto do trabalho Que os três bilhões de células cerebrais Lançam no espaço. Bilhões de jogos de bilhar Assinalados, Fé e Dúvida. Um amontoado de Dúvidas e a minha Fé, Minhas enzimas e a minha Lógica, Minhas Visões e a epinefrina rosa, Meus crimes e a epinefrina branca. Não passo de um delicado arranjo E, na proporção de dez para vinte e sete, Cada átomo, na sua complexidade, Deve ser o meu profeta.

Perdendo a paciência, Murugan deu um forte puxão no braço de Will.

— Você vem ou não? — gritou.

Will virou-se para ele, irritado.

— O que é que você está fazendo, seu idiotinha? Dizendo isso, fez um movimento de braço e se desvencilhou da mão do rapaz.

Amedrontado, Murugan mudou de tom:

— Apenas estava querendo saber se você já está pronto para ir ver minha mãe.

— Não. Não estou pronto porque não irei.

— Não vai? — perguntou Murugan, surpreso. — Ela o está esperando, ela…

— Diga a sua mãe que sinto muito, mas já tenho outro compromisso. Um compromisso com alguém que está agonizando — acrescentou.

— Mas o assunto é tremendamente importante!

— A morte também é.

Murugan baixou a voz:

— Alguma coisa está acontecendo — murmurou.

— Não consigo ouvi-lo — gritou Will, tentando vencer os ruídos confusos da multidão.

Murugan olhou-o apreensivo e arriscou um comentário com voz um pouco mais alta:

— Alguma coisa muito séria está acontecendo.

— Alguma coisa muito séria também está acontecendo no hospital.

— Ouvimos dizer… — começou Murugan. Após olhar em redor, balançou a cabeça. — Não, não posso lhe falar aqui. Este é o motivo pelo qual você deve ir agora ao bangalô. Não há tempo a perder.

Will olhou o relógio.

— Não há tempo a perder — repetiu, e dirigiu-se a Mary Sarojini. — Devemos ir — disse. — Qual é o caminho?

— Eu lhe mostrarei — ela respondeu, enquanto saíam de mãos dadas.

— Espere — implorou Murugan. — Espere!

Enquanto Will e Mary caminhavam, Murugan os seguia esgueirando-se entre a multidão.

— Que devo dizer-lhe? — choramingou ao aproximar-se.

A angústia do rapaz era de uma comicidade abjeta. A raiva de Will foi substituída por uma sensação divertida e ele riu alto.

— O que é que você lhe diria, Mary Sarojini? — perguntou Will.

— Se ela fosse minha mãe, diria a verdade. — Como se um novo pensamento tivesse lhe ocorrido, a menina disse: — Mas a rani não é minha mãe. — Olhando para Murugan, perguntou: — Você pertence a algum CAM?

Ele não pertencia. Para a rani, a simples idéia de um Clube de Adoção Mútua soava como uma blasfêmia. Somente Deus podia indicar a Mãe. Os membros da Cruzada do Espírito queriam estar somente com as vítimas que Deus lhes dera.

— Não é membro do CAM! — Dizendo isso, Mary Sarojini balançou a cabeça. — Isto é horrível! Não ter a ocasião de passar alguns dias com uma de suas mães!

Ainda aterrorizado com a idéia de ter que dizer à sua única mãe que falhara na missão que lhe confiara, Murugan começou a repisar de modo quase histérico uma variante do velho estribilho:

— Não sei o que ela dirá. Não sei o que ela dirá — repetia.

— Só há um jeito de saber. Volte para casa e ouça o que ela tem a dizer.

— Venha comigo, por favor! — implorou Murugan, amparando-se no braço de Will.

— Já lhe disse para não me tocar.

A mão foi retirada bruscamente. Will voltou a sorrir.

— Assim é melhor! — Levantou a bengala e fez um gesto de despedida. — Bonne nuit, Altesse! — Voltou-se para Mary Sarojini com bom-humor: — Conduza-me, MacPhail.

— Você fingia, ou estava mesmo zangado?

— Estava, sim — disse ele. Foi então que se lembrou do que vira no ginásio da escola. Cantarolando as primeiras notas da dança rakshasi, bateu no chão com a ponta de ferro do seu bordão. — Deveria ter esmagado a raiva?

— Talvez fosse melhor.

— Você acha?

— No momento em que deixar de ter medo, ele o odiará.

Will levantou os ombros. Não se importava. Mas à medida que o passado se afastava e o futuro ficava mais próximo, quando Will viu distanciarem-se as luzes da praça do mercado e começou a subir a rua íngreme e escura que levava ao hospital, o seu humor começou a mudar. «Me conduza, MacPhail.» Em que direção? Para longe de quê? Ao encontro de uma nova manifestação do Horror Fundamental. Para longe daquele abençoado ano de liberdade que Joe Aldehyde havia lhe prometido e que seria tão fácil obter (Pala estava irremediavelmente condenada) sem que tivesse de trair, ou ser indecente. Não se afastava somente da esperança de liberdade. Bastava que a rani se queixasse a Joe, e que este ficasse suficientemente irritado, para que perdesse qualquer outra oportunidade de continuar sendo um escravo que era bem pago para assistir às execuções. Deveria voltar, procurar Murugan, pedir desculpas e fazer tudo o que aquela terrível mulher lhe ordenasse?