Na qualidade de fiéis Cruzados, devemos colaborar com aquele PODER divino, que de modo tão inequívoco advoga a nossa Causa.
SENDO ASSIM, VENHA IMEDIA TAMENTE.
Murugan está de carro e o trará para nosso modesto Bangalô, onde posso lhe assegurar, meu caro Farnaby, você terá uma acolhida bastante calorosa da parte da bien sincèrement vôtre,
Terminada a leitura, Will dobrou as três folhas perfumadas de papel azul e colocou-as no envelope. Seu rosto nada demonstrava, mas atrás daquela máscara de indiferença fervia a indignação. Estava indignado com a falta de educação e a vacuida de daquele rapaz, tão bonito em seu pijama branco. Outra on da de indignação o invadiu quando o perfume, vindo daquela carta, atingiu novamente suas narinas. A carta daquele monstro grotesco, cujo primeiro objetivo na vida fora arruinar o próprio filho, em nome da castidade e do amor materno! A carta daquela mulher que, usando Deus e um grupo de Mestres Ascendentes, procurava transformá-lo — a ele, Will — em um novo cruzado que, sob a bandeira oleosa de Joe Aldehyde, viesse divulgar novos e inesperados acontecimentos. Estava irritado consigo mesmo por ter se deixado envolver com aquela dupla ridi culamente sinistra. Não podia saber até onde pretendiam levar aquela vil conspiração contra a decência humana. E isso viera acontecer a ele… A ele, que nunca aceitava o «sim» como res posta, e que nunca deixara de acreditar secretamente (e com que entusiasmo!) que um dia pudesse defender os direitos do homem!
— Vamos embora — disse Murugan, com a autoridade nas cida da crença de que uma ordem de Fátima R. devia ser obedecida na íntegra e sem a menor hesitação.
Sentindo que devia ganhar tempo a fim de se acalmar, Will não respondeu imediatamente. Em vez disso, voltou a olhar de longe as marionetes. Jocasta, Édipo e Creonte estavam sentados nos degraus do palácio, esperando a chegada de Tirésias, imagi nou. Nas alturas, o basso profondo estava cochilando. Um grupo de carpideiras vestidas de preto atravessava o palco. Perto dos refletores, o menino de Pala começou a declamar em versos brancos:
Ouviu-se o tanger dos instrumentos e, a seguir, os sons prolongados de uma flauta.
— Vamos? — repetiu Murugan.
Will ergueu a mão, pedindo silêncio. A menina-marionete dirigira-se para o centro do palco e cantava:
Perdendo a paciência, Murugan deu um forte puxão no braço de Will.
— Você vem ou não? — gritou.
Will virou-se para ele, irritado.
— O que é que você está fazendo, seu idiotinha? Dizendo isso, fez um movimento de braço e se desvencilhou da mão do rapaz.
Amedrontado, Murugan mudou de tom:
— Apenas estava querendo saber se você já está pronto para ir ver minha mãe.
— Não. Não estou pronto porque não irei.
— Não vai? — perguntou Murugan, surpreso. — Ela o está esperando, ela…
— Diga a sua mãe que sinto muito, mas já tenho outro compromisso. Um compromisso com alguém que está agonizando — acrescentou.
— Mas o assunto é tremendamente importante!
— A morte também é.
Murugan baixou a voz:
— Alguma coisa está acontecendo — murmurou.
— Não consigo ouvi-lo — gritou Will, tentando vencer os ruídos confusos da multidão.
Murugan olhou-o apreensivo e arriscou um comentário com voz um pouco mais alta:
— Alguma coisa muito séria está acontecendo.
— Alguma coisa muito séria também está acontecendo no hospital.
— Ouvimos dizer… — começou Murugan. Após olhar em redor, balançou a cabeça. — Não, não posso lhe falar aqui. Este é o motivo pelo qual você deve ir agora ao bangalô. Não há tempo a perder.
Will olhou o relógio.
— Não há tempo a perder — repetiu, e dirigiu-se a Mary Sarojini. — Devemos ir — disse. — Qual é o caminho?
— Eu lhe mostrarei — ela respondeu, enquanto saíam de mãos dadas.
— Espere — implorou Murugan. — Espere!
Enquanto Will e Mary caminhavam, Murugan os seguia esgueirando-se entre a multidão.
— Que devo dizer-lhe? — choramingou ao aproximar-se.
A angústia do rapaz era de uma comicidade abjeta. A raiva de Will foi substituída por uma sensação divertida e ele riu alto.
— O que é que você lhe diria, Mary Sarojini? — perguntou Will.
— Se ela fosse minha mãe, diria a verdade. — Como se um novo pensamento tivesse lhe ocorrido, a menina disse: — Mas a rani não é minha mãe. — Olhando para Murugan, perguntou: — Você pertence a algum CAM?
Ele não pertencia. Para a rani, a simples idéia de um Clube de Adoção Mútua soava como uma blasfêmia. Somente Deus podia indicar a Mãe. Os membros da Cruzada do Espírito queriam estar somente com as vítimas que Deus lhes dera.
— Não é membro do CAM! — Dizendo isso, Mary Sarojini balançou a cabeça. — Isto é horrível! Não ter a ocasião de passar alguns dias com uma de suas mães!
Ainda aterrorizado com a idéia de ter que dizer à sua única mãe que falhara na missão que lhe confiara, Murugan começou a repisar de modo quase histérico uma variante do velho estribilho:
— Não sei o que ela dirá. Não sei o que ela dirá — repetia.
— Só há um jeito de saber. Volte para casa e ouça o que ela tem a dizer.
— Venha comigo, por favor! — implorou Murugan, amparando-se no braço de Will.
— Já lhe disse para não me tocar.
A mão foi retirada bruscamente. Will voltou a sorrir.
— Assim é melhor! — Levantou a bengala e fez um gesto de despedida. — Bonne nuit, Altesse! — Voltou-se para Mary Sarojini com bom-humor: — Conduza-me, MacPhail.
— Você fingia, ou estava mesmo zangado?
— Estava, sim — disse ele. Foi então que se lembrou do que vira no ginásio da escola. Cantarolando as primeiras notas da dança rakshasi, bateu no chão com a ponta de ferro do seu bordão. — Deveria ter esmagado a raiva?
— Talvez fosse melhor.
— Você acha?
— No momento em que deixar de ter medo, ele o odiará.
Will levantou os ombros. Não se importava. Mas à medida que o passado se afastava e o futuro ficava mais próximo, quando Will viu distanciarem-se as luzes da praça do mercado e começou a subir a rua íngreme e escura que levava ao hospital, o seu humor começou a mudar. «Me conduza, MacPhail.» Em que direção? Para longe de quê? Ao encontro de uma nova manifestação do Horror Fundamental. Para longe daquele abençoado ano de liberdade que Joe Aldehyde havia lhe prometido e que seria tão fácil obter (Pala estava irremediavelmente condenada) sem que tivesse de trair, ou ser indecente. Não se afastava somente da esperança de liberdade. Bastava que a rani se queixasse a Joe, e que este ficasse suficientemente irritado, para que perdesse qualquer outra oportunidade de continuar sendo um escravo que era bem pago para assistir às execuções. Deveria voltar, procurar Murugan, pedir desculpas e fazer tudo o que aquela terrível mulher lhe ordenasse?