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O olhar de Decarabia mantinha-se colado à janela da sala do segundo andar do prédio em frente. Havia sempre a hipótese de não serem eles, mas isso parecia-lhe pouco provável. Numa rua em que quase todos os apartamentos estavam abandonados, era significativo que encontrassem um par homem e mulher exactamente no sítio onde deveriam encontrar. Uma coisa dessas não podia ser coincidência.

Desceu os olhos da janela e fixou os dois homens que Magus lhe tinha atribuído para a operação. Estariam eles à altura das dificuldades? Provavelmente sim, mas na verdade nada disso era importante. Se se revelassem incapazes, ali estava ele próprio, Decarabia, para fazer o que fosse necessário.

Fez um gesto com a mão a indicar o prédio onde se escondiam os seus alvos.

"Vamos!"

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XXXVI

Apeteceu-lhes aquecer a digestão com uns goles de chá e interromperam a conversa para Raquel ir à cozinha ferver água. A anfitriã tinha porém tanta curiosidade de saber como em nove anos os bancos haviam levado a economia ao caos que deixou a chaleira a aquecer a água e apressou-se a voltar à sala para retomar o fio da conversa.

"Então diga lá", lançou ao seu convidado. "O que aconteceu depois de eles terem desregulado tudo em 1999?"

Sentindo-se cansado e até algo saturado, Tomás fez um estalido impaciente com a língua.

"Oh, isso conto-lhe depois!", exclamou. "Agora deixe-me descontrair um pouco, pode ser?"

Raquel desferiu uma palmada na mesa.

"Não! Conte-me agora!"

"Para quê a pressa? Deixe-me descansar."

Mas a espanhola não era mulher para se deixar vencer com tanta facilidade. Mudando de táctica com agilidade desconcertante, inclinou-se sobre a mesa e, sempre de olhos cravados no interlocutor, esboçou um sorriso que lhe deu um ar perturbadoramente insinuante.

"Sabe que os homens inteligentes me atraem?"

Disse-o com uma voz infinitamente doce e o historiador, que esticava as 242

pernas por baixo da mesa num movimento lânguido, endireitou-se de repente, espicaçado pela observação.

"Deveras?"

"Ah, sim. Muito." Voltou a acomodar-se na cadeira, cheia de confiança na eficácia dos seus poderes de sedução. "Estou certa de que não me desapontará..."

Tomás pigarreou. Os argumentos da espanhola poderiam parecer um tanto básicos, mas a verdade é que produziam o seu efeito.

"Estava então eu a falar na Lei Glass-Steagall, não é verdade?", perguntou, talvez excessivamente ansioso por se mostrar brilhante.

"A primeira grande consequência da eliminação dessa lei em 1999 foi o crescimento desmesurado de certos bancos. Em 1995, os cinco maiores bancos . americanos controlavam oito por cento do mercado, fatia que poucos anos depois do fim formal da Lei Glass-Steagall ascendeu a trinta por cento. Essa evolução foi muito grave e -

deveria ter obrigado a uma intervenção do Fed. Mas, como os reguladores eram ideologicamente contra a regulação e contra os princípios da Lei Glass-Steagall, cruzaram os braços e nada fizeram."

"Porque diz que o crescimento dos maiores bancos foi grave?", estranhou Raquel. "Qual a relevância disso?"

"Um dos fundamentos do capitalismo é a livre concorrência", lembrou Tomás. "Para que ela exista, o mercado tem de ser cuidadosamente regulado. Quando deixa de o ser, como foi o caso, o sistema capitalista atrofia e criam--se os oligopólios e os monopólios, que são muito nocivos à concorrência. Foi o que sucedeu. A primeira grande fusão ocorreu entre o Citicorp e o Travelers para formar em 1998 a maior companhia de serviços financeiros do mundo, o Citigroup, uma fusão ilegal porque violava a Lei Glass-Steagall. Foi aliás essa fusão que precipitou o fim da lei no ano seguinte. Os grandes bancos começaram então a abocanhar outros e a engordar mais e mais, engordaram tanto que de repente 243

se tornaram demasiado grandes. Ficaram de tal modo gigantescos que o seu eventual colapso se tornou impensável porque arrastaria toda a economia com eles, percebe?"

"Criou-se um risco sistémico, como em 1929."

"Isso mesmo. Com uma agravante: como eles próprios sabiam que se tinham tornado demasiado grandes para que se aceitasse a sua falência, começaram a sentir-se impunes. Isto é, podiam correr todos os riscos imagináveis para ganhar dinheiro. Se corresse bem, ficavam com os lucros só para eles. Se corresse mal, o estado interviria com o dinheiro dos contribuintes para os salvar e impedir o colapso geral da economia. Está a ver o esquema? Arriscar passou a compensar porque os grandes bancos ficariam com os prémios e jamais com os prejuízos, uma vez que o estado nunca os deixaria cair."

A espanhola assentiu com um movimento pendular da cabeça.

"Hmm... estou a entender", murmurou. "Mas que riscos correram eles exactamente?"

O historiador esfregou as mãos com indisfarçável entusiasmo, preparando-se para entrar no filet mignon.

"Ah, isto agora é que se torna interessante!", exclamou. "Em primeiro lugar, desenvolveram um esquema de bónus em que recebiam uma fortuna por desempenhos anuais e até trimestrais. Se, por exemplo, tomassem uma medida que desse muito lucro imediato, embora fosse ruinosa a prazo, recebiam o bónus no final do ano ou mesmo do trimestre. Quando os efeitos negativos da decisão viessem, ao fim de alguns anos, já ninguém lhes podia tirar os seus ricos bó-

nus." Piscou o olho. "Está a ver a marosca?"

"Estou, estou."

"Isso escancarou os portões da ganância desenfreada, como é evidente", disse. "Tradicionalmente os bancos comerciais faziam lucro a emprestar o dinheiro dos depósitos a um Juro maior do que aquele que pagavam aos depositantes. Mas com os novos poderes 244

que lhes foram entregues pela desregulação descobriram novas maneiras de fazer dinheiro. Uma delas foram as comissões. O cliente faz uma transferência de dinheiro para a conta da avó? Paga uma comissão. O cliente compra à namorada um perfume com cartão de crédito? Paga uma comissão. Tudo paga comissão!"

"É um horror, eu própria me queixo disso", observou a espanhola. "O meu banco cobra-me pela mínima coisa que faça..."

"Na altura em que a Lei Glass-Steagall foi finalmente eliminada, em 1999, estava em curso a bolha dot com, em que toda a gente investia à maluca em empresas da internet", disse Tomás. "Acontece que essa bolha rebentou logo no ano seguinte, precipitando uma recessão nos Estados Unidos. O que fez o Fed? Baixou as taxas de juro, num esforço para encorajar o crescimento económico. O

dinheiro ficou muito barato e para onde começou a fluir? Para o mercado imobiliário, até porque o presidente Bush tinha acabado de isentar de impostos as casas até meio milhão de dólares. As propriedades são produtos caros e, como as comissões são muitas vezes cobradas em percentagens, os bancos viram aqui uma mina de ouro. Portanto, toca a emprestar dinheiro para as pessoas comprarem casa!"

O olhar de Raquel desviou-se quase instintivamente para Os prédios abandonados de Seseria, visíveis da janela da sala.

"Foi assim que começou a bolha do imobiliário?"