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"Nem mais", confirmou o seu interlocutor. "Para alimentar essa bolha, os bancos contaram com as taxas de juro muito baixas e com uma série de inovações financeiras que pouca gente compreendia.

Os derivados, por exemplo, produtos novos que uma lei de 2000

garantiu não poderem ser regulados."

A espanhola esboçou um esgar de incompreensão. "Deriva... quê?

O que é isso?"

"Nem os próprios banqueiros percebem muito bem", riu-se Tomás.

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"Como o próprio nome indica, os derivados derivam o seu valor de qualquer produto. Por exemplo, imaginemos que eu aposto que o valor das acções da vossa companhia aérea, a Ibéria, daqui a um ano está mais alto. Essa aposta é um derivado, está a perceber? No fundo trata-se de um mercado de apostas. Fazem-se apostas sobre o valor futuro das acções das empresas, do estado do tempo, do preço do petróleo, do ouro, do milho... do que quer que seja. Isso são derivados. A aposta de que o valor da aposta de que as acções da Ibéria valem mais daqui a um ano é um derivado baseado num derivado."

Raquel revirou os olhos verdes luminosos.

"Santa Madre de Dios, as coisas que eles inventam!"

"Um verdadeiro casino, como vê. O mercado dos derivados passou a valer cinquenta biliões de dólares na numeração latina, cinquenta triliões na numeração anglo-saxónica. Nada era regulado e, isto é que é importante, os bancos receberam luz verde para investir neste jogo de sorte e azar o dinheiro que os seus depositantes lhes confiaram."

A verdadeira dimensão do problema começou a assentar na mente da agente da Interpol.

"Joder!"

"Está a ver a coisa, não está? Acontece que o mercado imobiliário tinha, e tem, os seus derivados. Trata-se de um processo chamado securitização."

"É outro sistema de apostas?"

"É uma forma inovadora de contrair dívida. Imagine que a lbéria precisa de dinheiro, mas tem Uma situação financeira tão duvidosa que os bancos só lhe emprestam a um juro muito alto. Nesse caso, a lbéria pode emitir um papel comercial com promessa de devolver o dinheiro com juros a quem lhe emprestar dinheiro."

"Isso não são obrigações?"

"São", confirmou o historiador. "O problema é que, se a situação da Ibéria for má, as agências de rating darão a essas obrigações uma má 246

nota, o que as torna menos apelativas para o mercado. Quem quer emprestar dinheiro a uma empresa que pode falir amanhã? Só uni doido.

Perante este problema, o que pode a Ibéria fazer? Pode recorrer à securitização. Um grupo de investidores compra à Ibéria as suas obrigações e corta-as em dez tranches, como uma salsicha separada em dez partes. Depois pega em obrigações com boa nota das agências, por exemplo a TAP, e corta-as também em dez tranches."

"Ay, coño!", protestou Raquel com sarcasmo. "Está-se mesmo a ver que, na boca de um português, a empresa espanhola é a má e a portuguesa a boa..."

Tomás reprimiu um sorriso.

"A Ibéria está muito bem e apenas estou a inventar estas notas para facilitar a compreensão do mecanismo", disse, preocupado com não ferir susceptibilidades. "A seguir os investidores pegam numa fatia das obrigações da TAP e colam-na a Uma fatia das obrigações da Ibéria e depois a uma fatia das obrigações da Alitalia e a outra das obrigações da British Airways. O novo produto é uma mistura de tranches de obrigações de diferentes companhias aéreas, umas bem cotadas pelas agências outras mal cotadas." Abriu os braços. "É isto a securitização."

"Continuo a dizer que não gostei de o ver a desconsiderar a nossa companhia aérea", resmungou a espanhola, fingindo-se ofendida.

"Mas... pronto, desta vez passa."

"Podem-se securitizar obrigações de dívidas do ramo automóvel, de cartões de crédito, de empresas... enfim, de tudo o que for dívida."

"Mas qual é a vantagem desse sistema?"

"Se a empresa estiver mal cotada, através da securitização consegue ligar-se a obrigações de outras empresas bem cotadas e assim obter uma boa cotação. Com boa cotação não terá de pagar juros tão elevados para que lhe emprestem dinheiro."

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"Ah, entendi."

"Acontece que se começaram a securitizar as hipotecas das pessoas que compravam casa." Bateu com a ponta do indicador na mesa. "E foi aqui, minha cara, que nasceu o problema que iria conduzir ao colapso do sistema financeiro internacional."

Um silvo prolongado cortou o ar. Voltaram-se ambos para a fonte do som e constataram que vinha da cozinha.

"A chaleira!", exclamou Raquel, dando um salto e correndo na direcção da cozinha. "A água já ferveu!" Da porta da cozinha ergueu a mão para o seu convidado, pedindo-lhe que aguardasse. "Eu já venho, está bem? É só um instante."

A espanhola desapareceu para lá da porta da cozinha e o olhar de Tomás desviou-se para os prédios abandonados do outro lado da rua.

Enquanto mirava os apartamentos vazios por detrás dos vidros sujos, o historiador reflectiu nos estranhos tempos que vivia, em que os acontecimentos no outro lado do Atlântico se propagavam quase à velocidade da luz e mudavam para sempre a vida neste lado. As alterações tinham sido tão grandes que ele próprio acabara por perder a coisa que mais o realizava na vida. O seu trabalho.

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XXXVII

A primeira coisa que os três homens fizeram quando entraram no prédio da calle Velázquez foi carregar no botão e chamar o elevador.

O aparelho desceu ao rés-do-chão, sempre a emitir um zumbido suave, e imobilizou-se com um soluço, como se estivesse ébrio.

Decarabia abriu a porta e fez sinal aos operacionais que o acompanhavam.

"Mantenham-na aberta."

Garantindo assim que o ascensor não entraria em movimento, pegou numa chave de fendas e soltou o painel de comando onde os botões assinalavam os vários andares. Depois pegou num alicate e cortou as ligações eléctricas por detrás do painel.

As luzes interiores apagaram-se de imediato, como se o elevador tivesse morrido nesse instante.

"Já está."

O ascensor estava inutilizado; se por algum motivo as Presas conseguissem escapulir-se do apartamento, esta via de fuga estava cortada.

Teriam de descer pelas escadas, o que tornava a escapatória bem mais demorada.

Decarabia saiu do interior da caixa escura e deitou a mão à Beretta, até então escondida à sua cintura.

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"Já não estamos na rua", lembrou num sussurro tenso. "Podem preparar a artilharia."

Os dois companheiros obedeceram e tiraram as Glock que também haviam prendido aos cintos, por baixo das camisas. Com as pistolas na mão iniciaram a lenta escalada do prédio, os passos leves para não fazerem barulho.

O primeiro lanço das escadas terminava num pátio estreito com uma janela rectangular. Espreitaram por ela para verificar o que se encontrava nas traseiras. Viram um outro prédio abandonado, exactamente igual àquele em que se encontravam. Decarabia analisou as paredes exteriores do edifício e verificou que havia escadas metálicas a escalarem as traseiras em Z sucessivos, uns por cima dos outros.

"Atenção às saídas de emergência", disse, alertando para a existência das escadas. "Se aqueles prédios as têm, este também as terá." Voltou-se para um dos seus homens, o mais leve. "Quando entrarmos no apartamento, a tua missão é selar essa escapatória.