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Percebeste?"

"Afirmativo", devolveu o operacional. "Tivemos o mesmo problema em Nice, quando lá fomos despachar os dois franceses. Na altura bloqueámos as escadas de emergência. Faço o mesmo agora?"

"Não, não é preciso", decidiu Decarabia. "A nossa entrada no apartamento será muito mais rápida, eles não vão ter tempo de fugir para as traseiras. Quando penetrarmos no local, se os nossos pombinhos não estiverem juntos, selas de imediato a saída de emergência. Mas se os apanharmos um ao lado do outro basta que faças uma inspecção ao apartamento para nos certificarmos de que não está lá mais ninguém. Compreendeste?"

"Afirmativo."

Retomaram a ascensão. Pararam momentaneamente no primeiro andar e escutaram o interior dos diversos apartamentos com os ouvidos colados às portas, para perceberem se havia actividade.

"Tudo limpo", decretou Decarabia depois de terem corrido todo o 250

andar. "Vamos."

Subiram ao segundo andar e os olhos dos três fixaram-se na porta que constituía o seu alvo, as armas apontadas nessa direcção, as respirações quase suspensas. Decarabia tocou nos ombros dos dois homens que o acompanhavam e apontou para a porta.

"Vigiem-na."

Correu as restantes portas do andar e certificou-se de que os seus interiores estavam silenciosos. Sentindo-se mais à vontade, aproximou-se da porta que Magus lhe apontara como alvo e encostou os ouvidos à madeira.

Ouviu barulho no interior. Concentrou-se melhor, a orelha totalmente colada à superfície lisa, e destrinçou vozes.

"Um homem e uma mulher", sussurrou para os companheiros.

"São eles."

Os três recuaram dois passos e verificaram as munições nas pistolas. Depois Decarabia tirou duas caixas pretas que trazia no bolso traseiro das calças e abeirou-se de novo da porta. Um dos homens que o acompanhavam mostrou-lhe um rolo de fita adesiva que ele cortou com os dentes. Usou o pedaço de fita adesiva para colar as duas caixas pretas uma à outra e depois à fechadura. Decarabia ultimou as ligações do controlo remoto e os três recuaram para trás da escada, de modo a ficarem protegidos de um impacto directo.

Ab rigad os p el a pa re de d o átri o d o s egu nd o an da r , entreolharam-se para se certificarem de que estavam todos prontos.

Um a um, fizeram que sim com a cabeça. Decarabia ergueu a mão com o controlo remoto e deu início à contagem decrescente para o assalto.

"Cinco.., quatro... três.., dois... um..."

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XXXVIII

Uma nuvem de vapor ascendia em coluna do bico do bule de porcelana, como o ruminar de uma cratera prestes a entrar em erupção. Raquel precipitou-se sobre a mesa e serviu o chá nas duas chávenas. Depois recostou-se na cadeira e, de braços cruzados, pousou nele os olhos expectantes.

"E então?"

O português bebericou o novo chá.

"Não está mal."

Ela riu-se.

"Não é isso", disse. "Então como é que as securitizações das hipotecas geraram a crise financeira?"

O historiador indicou a sua interlocutora com um gesto, interpelando-a directamente.

"Oiça lá, qual foi a primeira vez que pediu dinheiro emprestado para comprar casa?"

A pergunta apanhou Raquel em contrapé. Ainda pensou que o seu convidado estava a desviar a conversa, mas concedeu-lhe o benefício da dúvida.

"Eu?" Fez um ar pensativo. "Sei lá, foi há uns quinze anos, tinha acabado de tirar o meu curso de Direito. Porquê?" "Foi fácil convencer o 252

banco?"

"Ui, não. Quiseram ver o meu salário, as minhas condições de trabalho, as minhas contas... foi um inferno." Nova gargalhada.

"Quase só faltou verem-me as cuecas. E só me emprestaram dinheiro porque meti na casa vinte por cento do meu bolso e porque arranjei um fiador. "Fez um ar pensativo. "Ah, e também porque passei no exame de saúde da seguradora. Se não fosse isso..."

"Ou seja, o banco foi muito cauteloso a emprestar-lhe o dinheiro. Quis certificar-se primeiro de que você tinha de facto condições para pagar mensalmente o empréstimo mais os juros."

"Sim, pode dizer-se que foi isso."

"Na avaliação do banco, você era portanto uma cliente com bom rating, chamemos-lhe uma cliente AAA. Foi por isso que lhe emprestaram o dinheiro." Afinou a voz, preparando-se para ir ao ponto principal. "A grande novidade na bolha imobiliária americana é que os bancos se puseram também a emprestar dinheiro para compra de casa a pessoas que ganhavam pouco, clientes BB, ou que tinham rendimentos incertos ou até que estavam desempregadas, clientes CC, alguns deles com historial de não pagarem as suas dívidas. E não lhes exigiam que entrassem nem com um tostão, ouviu'? O banco dava cem por cento do crédito e às vezes dava mesmo cento e vinte por cento, ou seja, mais do que a casa valia."

Raquel carregou as sobrancelhas e fitou-o com uma expressão de incredulidade.

"Está a brincar..."

O português abanou enfaticamente a cabeça.

"Não estou não!", exclamou. "Não se lembra de ver na televisão aqueles anúncios dos bancos a dizer 'o crédito está fácil!', ou 'porque não pedir um emprestimozinho?', ou 'peça... e nós damos!? Em Portugal passava publicidade dessa a toda a hora."

"Tem razão! Em Espanha também."

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"Não achou estranho ver tantos anúncios desses?" A espanhola soltou uma gargalhada.

"Agora que menciona isso, confesso que sim. Como tinha sido muito difícil obter o meu primeiro empréstimo fiquei pasmada com a facilidade com que passaram a emprestar dinheiro. Era para a casa, para o carro, para a escola dos miúdos... até para as férias!

Emprestavam todo o dinheiro que pedíssemos para o que quiséssemos e não tínhamos de entrar com nada! Eram só facilidades!"

Tomás apontou-lhe o dedo.

"Essas facilidades só foram possíveis graças à securitização", atalhou. "O que aconteceu foi que os bancos americanos pegaram em hipotecas de pessoas como você, clientes AAA que podiam pagar o empréstimo, e cortaram-nas em tranches. Depois o que fizeram?

Misturaram uma fatia dos clientes bons pagadores com fatias de clientes medianamente pagadores e com fatias de clientes que teriam dificuldade em pagar, os tais de baixos salários ou até desempregados.

Ou seja, tranches de clientes AAA, BB e CC todas misturadas no mesmo produto."

"Mas.., mas era óbvio que isso ia dar barraca!" "Pois era."

"Então como é possível que uma coisa dessas tivesse ,;ido aceite? Os investidores não perceberam o que estavam a comprar?"

O olhar de Tomás acendeu-se.

"É que os bancos fizeram um truque adicional", revelou.

"Conseguiram que as agências de rating dessem nota máxima a esses produtos de qualidade duvidosa!"

"O quê?", admirou-se Raquel. "Como conseguiram eles uma coisa dessas?"

"Na década de 70, quando a desregulação começou a ganhar terreno, decidiu-se que quem pagava o trabalho das agências de rating era quem emitia os produtos que elas avaliavam. Isso criou um evidente conflito de interesses. Se as agências dependiam de quem 254