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emitia os produtos, não lhes interessava desagradar-lhes, não é verdade? Se as avaliações fossem más, os emissores não as pagariam e iam ter com uma agência rival que fosse mais... digamos, simpática.

Portanto, havia que agradar aos emissores dos produtos. Quando os bancos apresentaram às agências as securitizações de hipotecas, chamaram-lhes a atenção para o facto de esses produtos terem fatias de clientes bons pagadores, clientes AAA."

"Mas esses produtos também tinham tranches de clientes CC", lembrou Raquel. "E esses clientes não têm o hábito de pagar o que devem."

"Pois é, mas as agências precisavam de agradar aos bancos que lhes pagavam as avaliações. Por isso avaliaram estas securitizações de hipotecas com nota AAA. Isso abriu as comportas para uma avalancha de compras destas securitizações. O mercado confiava nas avaliações das agências e, quando viram que estes produtos eram AAA, os investidores acreditaram que se tratava de uma coisa segura.

Portanto toca a comprar! Até os fundos de pensões, que só adquirem produtos seguríssimos e pouco especulativos, investiram nestas securitizações AAA. Fluíram assim rios de dinheiro para o mercado imobiliário."

"Com os bancos sempre a facturarem..."

"Claro! Já viu o dinheirão que fizeram em comissões? Dois por cento da venda de uma casa é muito mais do que dois por cento da compra de um perfume com cartão de crédito! Quando estenderam os empréstimos aos clientes CC, também chamados subprime, multiplicaram-se as operações que cobravam comissão. Os lucros de curto prazo dispararam e os bónus dos banqueiros também. Os empréstimos quase quadruplicaram todos os anos entre 2000 e 2003 e os cinco maiores bancos da América abocanharam dois terços de todo o dinheiro gerado pelas securitizações. A cereja em cima do bolo deste esquema piramidal é que os bancos não ficavam necessariamente com as securitizações nas 255

mãos. Elas eram vendidas a investidores de todo o mundo que não percebiam o que estavam a comprar, excepto que se tratava de um produto AAA. Ou seja, os bancos não tinham de se preocupar com saber a quem emprestavam o dinheiro, uma vez que venderam as securitizações a terceiros e, se as coisas corressem mal, estes é que pagariam a factura. Portanto havia um enorme incentivo para arriscar mais e mais." Apontou para a sua interlocutora. "Imagine que lhe davam um bónus de dez milhões de euros para tomar Uma decisão que pusesse a sua empresa em risco, e com uma vantagem adicionaclass="underline" quando chegasse a hora alguém pagaria a factura, mas não você. Tornaria essa decisão?"

Raquel hesitou na resposta.

"Gostaria de dizer que não, mas tenho de reconhecer que seria muito tentador."

"Pois foi assim que os banqueiros também pensaram, com a cobertura dos políticos a quem financiavam as campanhas em troca de promessas de que o mercado permaneceria desregulado."

"Mas os bancos sabiam que esses produtos eram maus?"

"Muitos sabiam, com certeza. O Goldman Sachs e o Morgan Stanley, por exemplo, apostaram dinheiro em como as securitizações iriam correr mal, isto numa altura em que eles próprios estavam a convencer os seus clientes a adquiri-las."

"Inacreditável!", espantou-se a agente da Interpol. "E as pessoas que compraram casa sem terem dinheiro para pagar o empréstimo? Não estavam preocupadas?"

"Porque haveriam de estar? Compraram uma casa sem meterem um tostão do seu bolso e o imóvel todos os anos ia valorizando, uma vez que a bolha imobiliária estava a crescer. Só se fossem doidas é que não alinhavam nisto! Os juros eram baixos, os bancos ofereciam dinheiro como se fosse tremoços e as casas estavam sempre a valorizar. Como não aproveitar? Foi uma festa de arromba! À medida que a procura 256

aumentava os preços dos imóveis subiam, tendo duplicado de valor em apenas sete anos. Como as casas valorizavam e os bancos continuavam a oferecer dinheiro em condições óptimas, mais e mais pessoas iam comprando casa, acreditando que iriam ganhar muito dinheiro quando as vendessem daí a uns anos. Estava montado um verdadeiro esquema piramidal."

"Mas isso era sustentável?"

"Nenhum esquema piramidal é sustentável!" Ergueu o dedo, professoral. "Lá diz a velha máxima em economia: o que não é sustentável não se sustentará. E não se sustentou. O encarecimento das casas gerou inflação, que foi agravada pela escalada do preço do petróleo. Receando que a inflação disparasse, o Fed começou a subir as taxas de juro. Tal como na Grande Depressão, foi isso que fez estourar a bolha. A subida dos juros encareceu as amortizações mensais e os clientes CC, que tinham salários baixos ou estavam desempregados, não tinham dinheiro para as pagar."

"Então o que fizeram?"

Tomás encolheu os ombros, como se a resposta fosse evidente.

"Não pagaram", disse. "Tinham comprado a casa sem meter um tostão seu, pelo que não lhes custou muito devolvê-la no momento em que as prestações mensais encareceram ao ponto de lhes levarem metade dos seus rendimentos mensais. Em vez de pagarem, os clientes CC preferiram entregar as chaves aos credores. Os bancos viram-se de repente com milhares de casas devolutas nas mãos e voltaram a colocá-

las no mercado para venda, mas as coisas já tinham mudado. Os juros estavam a subir, tornando menos atractivo pedir empréstimos para a compra de imóveis, e o regresso dessas casas ao mercado implicou que de repente a oferta disparasse, o que fez baixar os preços do imobiliário. Os clientes BB viram que o valor das casas tinha começado a baixar e... toca a vender, antes que baixasse mais. A oferta disparou e os preços caíram a pique. Em certas zonas da América houve casas que 257

perderam quase sessenta por cento do seu valor."

Raquel voltou a indicar os prédios do outro lado da rua, visíveis da sua janela.

"Exactamente o que aconteceu aqui em Espanha."

"O que se passou aqui, minha cara, foi consequência directa destes acontecimentos na América. Os clientes americanos entraram em default e abandonaram as suas casas em massa. As securitizações das hipotecas, avaliadas em AAA mas carregadas de fatias de obrigações BB e CC, começaram a dar prejuízos tremendos e tornaram-se verdadeiros sorvedouros de dinheiro. Quem as tinha estava tramado. Foi o caso de vários bancos gigantescos que, apesar de terem vendido muitas securitizações, ainda possuíam grandes stocks delas e descobriram que por causa disso se tinham tornado insolventes. O problema é que a falta de regulação permitira que os bancos crescessem tanto que eram agora demasiado grandes para caírem sem riscos para a economia e os banqueiros, que antes exigiam aos altos berros que o estado não interviesse no mercado livre, correram para o estado a suplicar de joelhos que interviesse."

"E o estado interveio?"

"Em grande! A administração Bush, até aí um arauto da desregulação e do não envolvimento cio estado no livre funcionamento do mercado, injectou centenas de milhares de milhões de dólares dos contribuintes em gigantes falidos. Directamente ou através de outras instituições financeiras foram salvos o Bear Stearns, o Merrill Lynch, o Citigroup, o Washington Mutual e o Wachovia, e ainda empresas de hipotecas como a Fannie Mac e o Freddie Mac, que tinham sido incumbidas pelo poder político de ajudar pessoas sem posses a comprar casa e que também se afundaram em securitizações tóxicas. Até a maior seguradora do mundo, a AIG, teve de ser salva com o dinheiro dos contribuintes."