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"Estás armado em engraçadinho, hem?", atirou-lhe com desdém.

"Então já vamos ver se vais continuar a rir."

Deu um passo para o lado e, com uni movimento súbito, agarrou no cabelo de Raquel e puxou-o com brutalidade.

"Ai, coño!", gritou ela de dor. "Largame!"

Decarabia mergulhou a mão atrás das costas e extraiu um canivete suíço cio bolso traseiro das calças. Aproximou o canivete da mulher e libertou a lâmina, encostando-a à face dela.

"Vou começar por lhe rasgar esta carinha laroca", anunciou, passeando a lâmina pela pele enrubescida da vítima. "Depois corto-a viva aos bocadinhos, sempre muito devagar e contigo a observar o espectáculo." Arqueou as sobrancelhas para cima e para baixo e soltou uma gargalhada baixa. "Vai ser divertido..."

Vendo Raquel à mercê do agressor e com a lâmina a acariciar-lhe a face, Tomás percebeu que não tinha margem para resistir. Não havia ele visto este mesmo homem a abater um polícia a sangue frio nas ruas de Lisboa em plena luz do dia? Sabia já que ele era capaz de tudo.

Respirou fundo e, de semblante derrotado, baixou Os olhos. "O que quer saber?"

A pergunta arrancou um sorriso a Decarabia, desta vez com naturalidade; ganhara a partida. Recolheu a lâmina, mas manteve o canivete perto da cara da espanhola.

"Onde está o DVD?"

"Não sei."

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O sorriso do agressor desfez-se e, com um movimento dos dedos, soltou de novo a lâmina do canivete e aproximou-a da sua vítima.

"Resposta errada", rosnou. "Vou perguntar outra vez: onde está o DVD?"

"O Filipe escondeu-o", revelou Tomás, falando depressa para evitar o pior. "Não sei onde o pôs, mas ele... ele deu-me uma pista."

"Uma pista?"

"Uma charada para eu decifrar. Ela contém a informação que me conduzirá ao DVD."

O rosto de Decarabia contraiu-se num esgar de perplexidade, como se nada daquilo fizesse sentido.

"Para que raio te deu ele uma charada? Porque não te disse directamente onde estava a porcaria do DVD?"

"Tinha medo que a informação caísse nas mãos erradas", retorquiu o historiador. "Quando éramos miúdos costumávamos brincar às charadas e ele achou que seria boa ideia ocultar assim a informação. Desse modo achava que só eu a poderia quebrar."

Na boca de Decarabia desenhou-se um sorriso retorcido enquanto ele considerava o que acabara de ouvir.

"Essa explicação é de tal modo estapafúrdia que é bem capaz de ser verdadeira", observou. "Onde está a charada?"

O português hesitou, como se duvidasse da sensatez de partilhar tal informação. Porém, a lâmina estava tão perto do rosto da agente da Interpol que ele convenceu-se de que não dispunha de alternativa a colaborar.

"Está rabiscada num envelope que o Filipe me entregou antes de...

enfim, antes de morrer."

O agressor virou-se para trás e passou os olhos perscrutadores pela sala do apartamento, varrendo as mesas e todas as superfícies onde algo pudesse encontrar-se pousado.

"Onde está esse envelope?"

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"No banco."

Arregalou os olhos de surpresa, uma centelha de alarme a atravessar-lhe o rosto.

"Qual banco?"

"Quando cheguei a Madrid fui a um banco e aluguei um cofre. O

envelope foi depositado nesse cofre."

"Um cofre, hem? Se assim é, há-de haver uma chave..."

Com um movimento do braço, executado lentamente para mostrar que não ia fazer nada de ameaçador, Tomás meteu a mão no bolso e extraiu uma pequena chave que exibiu aos captores.

"É esta."

Decarabia pegou na chave e estudou-a com atenção. Depois fitou o historiador e estreitou as pálpebras enquanto o examinava, como se visse através dos olhos dele.

"Espero bem que não me estejas a dar tanga", avisou num tom ameaçador. Fez com o cano da pistola um gesto na direcção de Tomás.

"Vá, levanta-te."

O português ergueu-se com um movimento incerto. "Onde vamos?"

"Ao banco, claro." Indicou o seu companheiro mais corpulento.

"Tu vens comigo." Desviou o olhar para o terceiro assaltante. "Tu ficas com ela. Não lhe toques enquanto a operação não estiver concluída, ouviste? Depois faz-lhe o que entenderes."

Raquel trocou com Tomás um olhar de alarme, como se lhe suplicasse que fizesse alguma coisa.

"Ela... ela tem de vir connosco", titubeou o historiador. "Senão não resulta."

Decarabia carregou as sobrancelhas, surpreendido. "Ora essa!

Porquê?"

"Porque se trata de uma conta conjunta", mentiu. "Foi a condição que impusemos para a abertura do cofre. Temos ambos de estar presentes quando ele for aberto. Se não estivermos os dois, 265

nenhum tem acesso ao cofre."

O olhar de Decarabia dançou entre Tomás e Raquel, que confirmou com um movimento afirmativo da cabeça, e voltou a imobilizar-se no português.

"Não disseste que tinhas aberto sozinho a conta no banco?"

Tomás esboçou uma expressão cheia de inocência.

"Eu? Claro que não. Ela foi buscar-me a Madrid e, antes de me trazer aqui a Seseria, recomendou que se guardasse o envelope num cofre. Como vimos o banco ali ao lado, aproveitamos."

-Decarabia desviou o olhar para os companheiros, como se lhes quisesse pedir a opinião, mas depressa percebeu que dali não viria ajuda; aqueles homens eram executores, não planificadores. Respirou fundo e, fitando Tomás, assentiu com um movimento leve da cabeça.

"Muito bem", acabou por decidir. "Vamos todos."

266

XL

O Mercedes dos vidros fumados contornou devagar a rotunda e imobilizou-se junto ao passeio, ao lado da cabina telefónica de onde Tomás ligara nessa manhã para Raquel e para o lar onde a mãe vivia. O

historiador e a agente da Interpol apertavam-se um contra o outro no assento traseiro, em silêncio e sob a vigilância apertada do assaltante corpulento.

Logo que desligou o motor, Decarabia voltou-se para trás e mirou as duas presas.

"Vamos sair agora", anunciou. "Teremos as armas escondidas no bolso dos casacos, prontas para entrarem em acção em caso de necessidade. Não quero nem um gesto em falso, entenderam?"

Apontou para Raquel, mas manteve os olhos fixos no português. "Se alguém do banco se aperceber de alguma anomalia, aqui a nossa beldade leva logo com um balázio nos miolos." Desviou o indicador para Tomás. "E, se as coisas se descontrolarem, tu vais a seguir. Não ficará ninguém para contar a história. Está claro?"

O historiador susteve o seu olhar.

"Se nos abaterem, não poderão aceder ao DVD..."

Decarabia encolheu os ombros com indiferença.

"Que importa isso?", perguntou, alardeando total des-267

preocupação. "A nossa prioridade é neutralizar o DVD. O ideal será ficarmos com ele, claro. Mas se esse material desaparecer por nós tudo bem." Levantou o dedo, à laia de aviso. "Portanto juizinho, hem? Não quero cá brincadeiras."

Depois de deixar por momentos a mensagem assentar nos dois prisioneiros, abriu a porta do condutor e apeou-se. Acto contínuo, as portas traseiras do Mercedes destrancaram-se com um claque simultâneo e os passageiros saíram para a rua. Fazia calor e o sol batia forte, escaldando as faces desprotegidas. Tomás pôs a palma da mão sobre a testa em pala e centrou o olhar na sucursal do banco onde entrara nessa manhã.