"É ali."
Decarabia fez-lhe sinal de que o acompanhasse à frente enquanto os seus dois homens enquadravam Raquel imediatamente atrás. Cruzaram o passeio em grupo e, diante do banco, as portas automáticas abriram-se com um som de aspiração. Entraram na sucursal e Tomás, sempre com toda a trupe no encalço, dirigiu-se directamente ao balcão.
"Olá", disse, cumprimentando a funcionária do guichet. "Queria aceder ao meu cofre, por favor."
"Tem identificação?"
"Está aqui."
O português entregou à funcionária do banco o bilhete de identidade e, preocupado com manter as aparências perante os seus captores, fez sinal a Raquel de que fizesse o mesmo. Na posse de ambas as identificações, a bancária inseriu os dois nomes no computador e aguardou. Ao ver o resultado negativo na busca do nome de Raquel Maria de la Concha González, esboçou um esgar de incompreensão.
"A señorita não está..."
"Ela veio comigo", apressou-se Tomás a dizer, antes que a bancária estragasse tudo. "Bem vê, o cofre tem os nossos pertences."
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A funcionária encolheu os ombros; não era anormal nem irregular, embora não fosse usual uma pessoa aceder ao seu cofre na companhia de amigos. Identificou no sistema o nome de Tomás Noronha e certificou-se de que a fotografia era da pessoa encostada ao balcão.
Deitou uma última espreitadela ao ecrã do computador e encarou de novo o cliente.
"A conta foi aberta esta manhã, não foi?", perguntou em jeito retórico, como se falasse consigo mesma e não esperasse resposta. "Tem a chave do cofre?"
O historiador tirou-a do bolso e mostrou-a.
"Está aqui."
A bancária ergueu-se por momentos de modo a ver por cima do balcão, varreu o átrio com os olhos e, lobrigando o segurança que vigiava o acesso ao banco, fez-lhe sinal a indicar o cliente.
"Estebán, acompanha os senhores ao cofre, por favor."
O segurança indicou o caminho e viu o grupo de cinco pessoas seguir-lhe os passos; franziu o sobrolho, não era comum tanta gente ir visitar um cofre, mas nada o interditava e por isso ficou calado e seguiu em frente. Meteram pelo corredor e chegaram a uma porta metálica, que o homem do banco abriu ao inserir um código num teclado digital pregado à parede.
Entraram na sala dos cofres e Tomás, instado por Decarabia, voltou-se para o segurança.
"Muchas gracias", agradeceu. "Eu sei qual é o nosso cofre. Pode aguardar lá fora, por favor."
O segurança deu meia volta e regressou para junto da porta da sala dos cofres. Decarabia fez com a cabeça sinal ao seu acompanhante mais ágil, indicando-lhe o guarda do banco.
"Fica com ele", sussurrou. "Neutraliza-o em caso de necessidade."
O operacional foi para a porta, deixando os seus dois 269
companheiros com os dois reféns. Os quatro ficaram todos muito juntos diante do cofre. Pareciam uma matilha bizarra, e Tomás, sentindo-se apertado, voltou-se para Decarabia.
"Dêem-me espaço!", protestou. "Assim não me consigo mexer."
"Não quero que te mexas", cortou o seu captor com um sorriso insidioso. "Abre o cofre e cala-te."
Com um trejeito de desagrado, o português voltou-se para o cofre e introduziu a chave. A porta destrancou-se com um dique suave e, como a caverna de Ali Babá, desvendou o seu segredo. Os olhares inquisitivos dos assaltantes precipitaram-se para o interior obscurecido, tentando destrinçar o que ele escondia. Apenas se via um sobrescrito volumoso pousado na base do cofre, mas na sombra era difícil determinar se não haveria ali mais alguma coisa.
"É aquele o envelope", disse Tomás. Abriu no rosto um sorriso convidativo. "Quer retirá-lo?"
Decarabia fitou-o nos olhos, desconfiado; o sorriso da sua presa não lhe inspirou confiança. Haveria ali alguma armadilha?
"Tira-o tu."
Era o que o português queria ouvir.
Inseriu a mão no interior do cofre e sentiu os dedos deslizarem sobre a superfície lisa do envelope. Meteu-os dentro do sobrescrito, como se a sua mão fosse uma aranha que explorava o desconhecido, e agarrou o objecto duro e frio que se ocultava no interior.
O taser.
Encheu a mão com ele, acomodando-o na palma e pôs o indicador no gatilho. Fechou os olhos e respirou fundo, preparando-se mentalmente para o momento decisivo que aí vinha. Contou em silêncio até três e, com um gesto fulminante, retirou-o de repente do cofre e apontou-o ao peito de Decarabia.
Carregou no gatilho.
Soou um estalido e o captor gritou de dor. Apercebendo-se que 270
algo de terrivelmente errado se passava, o assaltante corpulento retirou a Glock que escondia no bolso, mas não teve tempo de actuar porque Tomás já tinha voltado para ele o taser e disparado uma nova descarga eléctrica.
Alertados pelos berros junto ao cofre, os dois homens que aguardavam à porta entraram na sala, o assaltante já com a pistola na mão, o segurança sem perceber o que sucedia.
"Qué pasa?", perguntou, estupefacto. "Que está a acontecer?"
Nesse momento Raquel mostrou o que valia o seu treino. Vendo os dois captores a contorcerem-se de dores no chão, a agente da Interpol precipitou-se sobre o homem mais corpulento e arrancou-lhe a Glock da mão.
Soou um tiro.
O corpo do segurança tombou no chão, a cabeça desfeita como uma melancia em pedaços; o assaltante abatera-o para não interferir no que tinha de fazer. Afastado o empecilho, saltou para o corredor dos cofres de modo a ficar em linha com os alvos, os braços estendidos para a frente e as duas mãos a segurarem a pistola, um dedo colado ao gatilho preparado para abrir fogo.
Novo tiro.
Desta vez foi Raquel quem disparou. Atingido no abdómen, o assaltante que viera da porta dobrou-se e caiu para a frente.
Apercebendo-se de que Decarabia já começava a recuperar do electrochoque, Tomás voltou a premir o gatilho do taser na direcção dele, mas a arma desta vez não funcionou; estava descarregada.
Tomando consciência de que a janela de oportunidade se fechava rapidamente, agarrou a espanhola pelo braço e puxou-a.
"Depressa!", gritou, a urgência a dominar-lhe a voz. "Vamos sair daqui antes que eles se recomponham!"
Raquel ainda hesitou, no fim de contas tinha uma Glock na mão, mas percebeu que os seus inimigos lutariam até à morte. Baleara 271
um deles, mas estaria disposta a matar os outros dois enquanto ainda se encontravam indefesos? E quando recuperassem, daí a três ou quatro segundos, deixar-se-iam eles prender? Se não se deixassem, teria coragem de os abater também? A resposta às três perguntas, sabia, era negativa.
"Vamos!", insistiu Tomás em desespero. "Temos de fugir!"
Largaram em corrida, saíram da sala dos cofres e percorreram o corredor até ao átrio. O alarme começou a soar nesse momento no banco, no fim de contas haviam acabado de soar dois tiros no interior do edifício, mas os fugitivos lograram escapar para a rua antes que as portas exteriores se trancassem.