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"Esta manhã liguei para o lar", disse. "Acha que... que..." A espanhola revirou os olhos luminosos.

"Está explicado!", exclamou. "Foi assim que souberam que você estava aqui em Madrid. Provavelmente descobriram a minha ligação ao Filipe e bastou-lhes somar dois e dois."

Estas palavras soaram como uma repreensão e Tomás baixou a cabeça, acabrunhado e preocupado. Sentia-se vexado por ter cometido um erro tão elementar, atraindo o inimigo para o apartamento de Raquel em Sesefia. Pior do que isso, no entanto, era o sentimento de impotência perante a situação da mãe. Havia um 277

problema sério para resolver com o pagamento da mensalidade do lar e, se as suas circunstâncias já eram difíceis, tinham-se tornado ainda piores. Se não podia contactar o lar, como poderia manter-se a par do que se passava com ela? E se os donos do lar pusessem mesmo a mãe na rua? Poderia perdoar-se pela sua negligência? Mas, e vendo a situação friamente, que poderia ele realmente fazer? Render-se? Em que medida isso ajudaria a resolver o problema? Apenas o agravaria, até porque era quase certo que, uma vez nas mãos da polícia, seria entregue àquele bando de gente poderosa.

Ergueu a cabeça e fitou Raquel.

"Temos de resolver isto", disse. "E eu tenho um plano."

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XLII

O gemido baixo que vinha do banco traseiro obrigou Decarabia a espreitar para trás enquanto conduzia. Não conhecia nem queria conhecer os nomes dos dois homens que o acompanhavam na operação, mas sabia que tinha uma emergência entre mãos. O ferido contorcia-se de dores depois de ter sido baleado no abdómen e o brutamontes que tentava cuidar dele não parecia realmente saber o que fazer; a sua especialidade evidentemente era matar, não salvar.

Nada daquilo fora previsto. Decarabia voltou a concentrar-se na condução, buscando mentalmente soluções para a situação que se criara, até que se convenceu de que precisava de instruções superiores. Pegou no auricular, ligou-o e ajustou-o à orelha direita.

Depois marcou o número de telefone.

"Então?", foi a primeira coisa que ouviu do outro lado da linha quando a ligação foi estabelecida. "Já tens o DVD?"

Respirou fundo, preparando-se para dar a má notícia; sabia que não ia ser fácil.

"Infelizmente não, grande Magus", comunicou num tom neutro, blindando as emoções para enfrentar o vendaval que adivinhava. "O passarinho 279

fugiu do ninho e levou o ovo."

Fez-se um breve silêncio na linha.

"O quê?"

A pergunta foi feita com um misto de choque e ameaça, mas Decarabia não se deixou intimidar; desde os seus tempos nas forças especiais que estava habituado a lidar com o perigo e não era a irritação do seu mestre que o faria tremer de medo.

"Capturámos os dois pombinhos no apartamento que nos indicou", disse. "Acontece que o nosso homem, e ao contrário do que me foi sempre comunicado, não tinha o DVD consigo."

"Estás a brincar..."

"Receio bem que não, grande Magus. O que ele tinha era uma informação qualquer que estava num envelope e que conduziria ao local onde o DVD se encontrava escondido."

"Que porra de confusão é essa? Estás a falar de quê?"

O operacional bufou e encheu os pulmões de paciência.

"Estou a falar das informações incompletas que me foram fornecidas", disse. "Uma operação destas requer sempre informações exactas e minuciosas para correr bem. Disseram-me que o tipo tinha o DVD e afinal isso não era verdade. O que ele tinha era uma informação sobre o paradeiro do DVD, o que é bem diferente."

A voz do outro lado acalmou.

"Já percebi. E então?"

"E então isso mudou tudo, até porque o tipo que andamos a caçar é um vivaço de primeira água. Por medida de segurança, o gajo guardou a informação no cofre de um banco." Respirou fundo. "Tivemos de improvisar, como calcula. Meti os pombinhos no carro e levei-os ao banco."

"Enlouqueceste?"

"Era a única maneira de obtermos o paradeiro do DVD, grande Magus", explicou. "Mas correu tudo mal. O cabrão tinha uma arma de electrochoques escondida no cofre e usou-a contra nós. Depois a gaja da 280

Interpol sacou a Glock aqui do brutam... uh... enfim, arrancou-nos uma das nossas armas e abriu fogo contra nós. Um dos nossos ficou ferido. Os tipos fugiram, tivemos de liquidar um segurança do banco e estamos agora mergulhados na maior confusão." Voltou a bufar. "Tenho um ferido comigo e não sei o que fazer com ele."

"Leva-o ao hospital."

"Mas qual hospital, grande Magus? Se entrar num serviço de urgências com um homem baleado na barriga, é evidente que a polícia será de imediato informada..."

"Não te preocupes com a polícia", replicou o seu interlocutor. "Vou estabelecer um contacto com as autoridades espanholas e o problema será de imediato resolvido. O mais importante neste momento é pôr as mãos nesse maldito DVD. Onde estão agora os pombinhos?"

Decarabia suspirou, desalentado com o falhanço.

"Não sei, grande Magus", admitiu com impotência. "Escaparam no meio da confusão e, apesar de termos ido atrás deles, já não os apanhámos. Tínhamos um ferido nas mãos, não é? Isso atrapalhou as coisas, como deve calcular."

Foi a vez de a voz do outro lado da linha respirar fundo, claramente desagradada com as novidades.

"Vou avisar as autoridades espanholas", disse Magus. "Quanto a vocês, seus imbecis encartados, venham de imediato para aqui."

Desligou sem esperar pela resposta.

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XLIII

"Qual é então o seu plano?"

A pergunta de Raquel foi feita com cepticismo, como se lhe parecesse impossível que uma situação tão complexa como aquela pudesse ser resolvida por um simples historiador. Não era ela afinal a a

polícia profissional?

Sem perceber a descrença da agente da Interpol, Tomás deu meia volta e regressou ao corredor. Pegou no envelope, que pousara sobre o estirador ao entrar no apartamento, e voltou à sala. A espanhola ficara sentada no sofá e olhava-o sem entender nada. O português ergueu o sobrescrito e mostrou uma das faces à sua interlocutora.

"Está a ver isto?"

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Raquel inclinou-se na direcção do envelope e estudou as quatro linhas rabiscadas de um dos lados.

"Que raio de salganhada é esta?"

O historiador voltou o criptograma para si e deitou-lhe um olhar analítico, contemplando as múltiplas possibilidades que as suas linhas encerravam.