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"Dulce", sussurrou ela, ofegante, os olhos cerrados na volúpia do momento. "Dulce, dulce."

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Tomás lambeu-lhe a boca e depois os mamilos e depois a boca, o corpo ateado pelo desejo cego, pareciam dançarinos a executar uma coreografia instintiva, as mãos dele a acariciarem-lhe as formas, as narinas dela a encherem-se com Os cheiros, ambos a partilharem o calor palpitante do outro. Teria alguma vez Filipe provado aquela mulher?, foi a pergunta que, vinda do nada, passou pela mente de Tomás. Se não o fizera, era um tolo. Um tolo. Ele, no lugar de Filipe, não a teria largado. No lugar de Filipe ele teria... teria...

Parou.

Raquel abriu os olhos, estranhando a pausa súbita, e fitou-o com as sobrancelhas a desenharem uma expressão interrogativa de incompreensão.

"Qué pasa, cariño?"

De olhos arregalados e perdidos num ponto indefinido na parede, como se de repente se tivesse transferido para uma outra dimensão, o português sentou-se no tapete.

"Se estivesse no lugar de Filipe, o que teria feito?"

Formulou a pergunta numa voz estranha, como se a questão não fosse dirigida a ninguém senão a ele próprio; parecia que de repente havia ficado sozinho na sala, Tomás e as suas perplexidades, mergulhado num mundo onde ninguém senão ele podia entrar.

"Qué?", admirou-se a espanhola, ainda sem nada entender.

Pegou na blusa caída aos pés do sofá e tapou com ela os seios nus. "O

que aconteceu? Porque... porque paraste? Sentes-te bem?"

O beijo quebrara a formalidade entre eles, a barreira do tu fora vencida. Ao ver o seu novo amante sentado sobre o tapete, hirto, os olhos vidrados, mergulhado num mundo só seu, distante e impenetrável, contudo, Raquel ainda duvidou. Ter-se-iam mesmo aproximado?

As feições de Tomás exibiam a rigidez de um autómato. "No lugar dele, o que teria eu feito?"

"Por Dios, estás a falar de quê?"

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O historiador estremeceu e deu sinais de voltar a si, o olhar abraseado pela luz que acabara de se acender no seu cérebro.

"O criptograma!", exclamou, estendendo a mão para o envelope ainda pousado sobre o sofá. "Já sei como é que o Filipe ocultou a mensagem no criptograma!"

Raquel abriu a boca e esboçou uma expressão de pasmo absoluto.

"Mas... mas estás a pensar no criptograma? Agora? No criptograma?" A sua estupefacção não conhecia limites. "Por Dios, Tomás, isso não pode esperar para depois de... enfim, para depois?

Tem mesmo de ser agora, madre mia?"

0 seu amante, contudo, não parecia sequer ouvi-la. Com a determinação cega de um sonâmbulo, Tomás levantou-se e, nu e pouco preocupado com isso, mergulhou na charada que o amigo havia garatujado no envelope.

"Um itinerário", disse. "Quando éramos miúdos, os anagramas que fazíamos eram elaborados com um itinerário e depois partidos ao meio." Pegou na caneta e no bloco de notas e sentou-se no sofá. "Se eu estivesse no lugar dele e quisesse mandar uma mensagem para mim, teria elaborado uni itinerário igual àqueles que nós fazíamos no tempo do liceu."

"Mas que itinerário? Explica-te!"

Com movimentos quase frenéticos da mão, experimentou colar as quatro linhas numa única linha.

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Não parecia fazer o menor sentido. A presença do ponto a dois terços da linha, todavia, chamou-lhe a atenção. O que seria normal era o ponto terminar a linha. Vendo bem, parecia-lhe seguro que o ponto representava o final da mensagem. Como realinhar o criptograma de modo a conseguir esse efeito? Talvez a solução fosse começar pela quarta linha e dar a volta até chegar à terceira, onde o ponto se encontrava.

Fez a experiência.

OVSANSMBGOsanSECOTata+&ARHERTATO.

Continuava a não fazer muito sentido. Teria de facto de apostar num itinerário qualquer. Tentou várias opções em que transformou as quatro linhas em duas, mas foi-as alterando até chegar a uma configuração em que se deteve mais tempo.

GOsanSECHERTATO.

OTat+&AROVSANSMB

Deteve os olhos neste arranjo e ficou um longo momento a fitá-lo, a respiração suspensa, o olhar esgazeado. De repente desviou a atenção para Raquel, voltou a pousá-la no rearranjo da charada e encarou-a mais uma vez, os olhos a saltar de um lado para o outro como se tentasse confirmar no rosto da espanhola ou nas letras cio criptograma a solução que se lhe formara diante dos olhos.

"Eureka!", gritou de repente, o corpo a estremecer na libertação da descoberta. "já sei!"

"Já sabes o quê?"

O historiador bateu com a ponta do indicador no último rearranjo, atraindo para ali a atenção da interlocutora. "Não vês? Não 295

vês?"

Raquel olhou mais uma vez para a sequência de letras mas ela nada lhe dizia; apenas lia uma algaraviada sem sentido, como se os caracteres tivessem sido rabiscados ao acaso.

"Vejo o quê? Do que estás a falar?"

Tomás colou a caneta ao criptograma rearranjado e traçou uma sequência de setas, a primeira a descer da primeira letra da primeira linha para a primeira letra da segunda linha, a segunda seta da primeira letra da segunda linha para a segunda letra da segunda linha, a terceira seta a subir da segunda letra da segunda linha para a segunda letra da primeira linha e assim sucessivamente, num ziguezague constante entre as duas linhas que só terminou no ponto final.

G O s a n S E C H E R T A T O .

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O T a t + & A R O V S A N S M B

"Estás a ver?", perguntou com um brilho triunfante a cintilar-lhe nos olhos verdes. "Consegues ver agora?"

A agente da Interpol concentrou-se no rearranjo do criptograma.

"G...", balbuciou, aos solavancos, esforçando-se por acompanhar a sequência de setas. "O... T... O..."

Impacientando-se, Tomás fez um estalido com a língua que denunciava a sua agitação e, com um gesto frenético da mão, grafou a solução numa única linha, prescindindo assim das setas.