"Qual resto?"
"Lembras-te de me explicares a crise financeira no meu apartamento? Ias contar-me mais alguma coisa quando aqueles.., aqueles idiotas entraram."
"Ah, sim. Ia falar na crise do euro e das dívidas soberanas." "Isso é relevante para a nossa investigação?"
"Claro."
"Então conta-me."
O português sacudiu a cabeça, como se tentasse que o abanão pusesse os miolos a funcionar; para quem ainda alguns segundos antes tentava dormitar não era fácil concentrar-se num tema daqueles.
Felizmente era professor universitário; isso dava-lhe o treino necessário para organizar rapidamente a mente e expor informação.
"Para perceber a crise do euro temos de recuar no tempo", disse, os instintos de historiador como sempre a tomarem conta dele.
"Lembras-te de te ter falado na Primeira Guerra Mundial e na dívida contraída pelos aliados europeus com os bancos americanos?"
"Sim, contaste que foi essa ligação que fez alastrar a Grande Depressão à Europa."
"O que fizeram os aliados europeus para pagar o dinheiro que deviam aos Americanos? Como a guerra tinha decorrido essencialmente em França e na Bélgica, o aparelho industrial alemão permanecera intacto e ameaçava dominar a Europa. Então impuseram à Alemanha reparações de guerra duríssimas, de modo a porem os Alemães a pagar a dívida dos aliados. Por causa dessas reparações, mas também para as boicotar, a Alemanha pôs-se a imprimir notas à doida. Imprimiu tantas que gerou inflação e a seguir hiper-inflação. Presumo que tenhas consciência do que isso significou para o modo de vida diário..."
302
"Os preços subiram."
Tomás riu-se.
"Subiram? Não, dispararam! Vou contar-te uma pequena história que te vai ajudar a entender o que aconteceu. Um estudante sentou-se à mesa de um restaurante em Freiburg e, consultando a ementa, viu que o café custava cinco mil marcos. Pediu o café e, passado um bocado, pediu um segundo café. Dá dez mil marcos, correcto?"
"Sim."
"Quando a conta chegou, no entanto, era de catorze mil marcos.
Ou seja, no período entre o primeiro e o segundo pedido o preço do café tinha subido. É isso a hiper-inflação. Outro exemplo. Um americano foi a Berlim e deu um dólar de gorjeta a um cozinheiro. O
cozinheiro chegou a casa e reuniu a família. Depois de muito debater o assunto, a família decidiu abrir um trust com esse dinheiro e confiar a um banco a melhor forma de investir o dólar." Exibiu o indicador. "Um dólar."
"Madre de Dios! A coisa estava assim tão mal?"
"Péssimo. A vida na Alemanha foi um inferno na primeira metade da década de vinte. As pessoas recebiam o salário diariamente em sacos cheios de notas e iam logo a correr às lojas para comprar os bens porque sabiam que no dia seguinte eles estariam muito mais caros. A hiper-inflação alemã atingiu em 1923 os dezasseis milhões por cento ao ano, e só acabou com a introdução de Uma nova moeda no final desse ano. No rescaldo de toda esta história, os Alemães responsabilizaram as reparações de guerra e os banqueiros judeus pela hiper-inflação. O liberalismo ocidental ficou desacreditado e, alguns anos depois, Hitler subiu ao poder com a promessa de ajustar contas com o passado."
"Muy bien", disse Raquel, querendo adiantar a conversa. "Mas isso tem alguma relevância para a crise do euro?"
"A hiper-inflação dos anos vinte deixou marcas profundas nos 303
Alemães." Mostrou dois dedos. "Depois disso estabeleceram dois axiomas inegociáveis na sua política económica." Cruzou o primeiro dedo. "Primeiro axioma: a estabilidade de preços é fundamental. Os Alemães perceberam que a inflação destrói a riqueza e o tecido social e deve ser evitada custe o que custar. Acontece que a inflação é um fenómeno monetário, isto é, resulta essencialmente da decisão de um governo de imprimir dinheiro. Quanto mais dinheiro for impresso e chegar à economia, mais alta é a inflação. Se o dinheiro deixar de chegar à economia, a inflação pára."
"Ah, curioso", surpreendeu-se a espanhola. "Sempre pensei que a inflação era um fenómeno espontâneo da economia. Nunca tinha percebido que ela é intencionalmente provocada e pode ser deliberadamente travada."
"Para parar a inflação basta deixar de inundar a economia de notas", repetiu Tomás. Cruzou o segundo dedo. "Segundo axioma: a independência do banco central é inegociável. Cabe ao banco central a decisão de imprimir dinheiro. Se o banco estiver às ordens dos políticos, fará o que os políticos quiserem e não necessariamente o que é correcto do ponto de vista económico. Pode dar jeito a um político adoptar uma determinada política monetária que é boa a curto prazo, isto é, que o ajuda a ganhar uns votos antes das eleições, mas é desastrosa a longo prazo.
Por isso os Alemães entendem que o banco central tem de ser independente do poder político. Isso permite-lhe adoptar políticas monetárias adequadas, em vez de estar sujeito aos eleitoralismos do governo do momento."
"Estou a entender", disse Raquel com uma expressão pensativa.
"Está bem visto, sim senhor. Se calhar devíamos fazer o mesmo aqui em Espanha..."
"E fazem. Vocês, os Portugueses, os Italianos.., todos nós fazemos isso agora."
A sua companheira de viagem esboçou uma expressão incrédula.
"A sério?"
"Claro. Chama-se euro."
304
A espanhola soltou uma gargalhada.
"Ah, bom! Só assim!..."
Tomás recostou-se no assento. O comboio fez uma curva em arco pela planície e apontou para leste, posicionando o Sol à direita. uma cortina de luz desceu sobre os dois passageiros e o historiador saboreou o calor suave que jorrava do exterior.
"Os dois axiomas da política monetária alemã revelaram-se um sucesso nas décadas que se seguiram", disse, prosseguindo a sua viagem pela história económica. "Quando dos choques petrolíferos dos anos setenta, por exemplo, a resposta dos Estados Unidos e da maior parte dos países europeus foi aumentar os gastos públicos e a dívida, e imprimir dinheiro.
Em consequência disso, a inflação disparou para a casa dos vinte a trinta por cento e o desemprego subiu. Mas a Alemanha, com a sua obsessão pela estabilidade de preços, recusou-se a imprimir dinheiro e manteve os gastos públicos controlados. Com isso a inflação ficou abaixo dos sete por cento e o desemprego permaneceu reduzido. Ou seja, a economia alemã emergiu vitoriosa do choque entre teorias económicas nos anos setenta."
Impressionada, Raquel esboçou um assobio.
"Muy bien, muy bien..."
"Aliada a uma política monetária restritiva e independente, a Alemanha sempre registou uma forte produção industrial. Para se poderem manter competitivos, os países concorrentes, como a França, a Grã-Bretanha e a Itália, recorreram ao expediente da impressão de dinheiro para desvalorizar as suas moedas. Com o franco mais barato, por exemplo, os Franceses conseguiam vender os seus produtos a um preço mais baixo que os Alemães."
"Então os Alemães tiveram de desvalorizar, não foi?"
"Pois, essa é que é a questão", sublinhou o historiador. "Os Alemães, que não queriam inflação, não desvalorizaram o marco."
"Então como mantiveram a competitividade?"
Tomás abriu as mãos e sorriu, como se se preparasse para revelar o 305