segredo do ovo de Colombo.
"Baixando os salários", revelou. "Com os salários dos trabalhadores mais baixos, os produtos alemães tornaram-se mais baratos. Com a vantagem de o país não sofrer inflação."
A agente da Interpol franziu o sobrolho.
"E a população? E os sindicatos?", estranhou, a incredulidade a impregnar-lhe a voz. "Aceitaram?"
"Tens de perceber que os Alemães aceitam tudo o que não dê inflação", insistiu o português. "Tudo. A hiper-inflação dos anos vinte é um trauma nacional. Além disso, os custos da fusão com a antiga Alemanha de Leste relembraram-lhes a importância da estabilidade monetária. Os sindicatos alemães, que não são liderados por radicais de vistas curtas, perceberam o problema da competitividade e actuaram em articulação com o governo para baixarem o preço dos bens produzidos no país sem ser através do expediente da desvalorização, que provocaria inflação e que o banco central, que era independente, não aceitava."
"Mas como se baixa o preço dos produtos? A cortar salários?"
"Reduzindo o custo da produção", respondeu Tomás. Mostrou três dedos. "Ou seja, baixando os custos de três coisas: matérias-primas, impostos sobre as empresas e salários. O problema é que as matérias-primas têm um preço que não é controlável, portanto esse factor de custo não pode ser reduzido. Os impostos sobre as empresas podem ser reduzidos, mas isso reflectir-se-ia negativamente nas receitas que financiam o estado social. Assim sendo, só restava reduzir os salários. Foi o que eles fizeram."
"Caramba!", exclamou Raquel. "É preciso tê-los no sítio para fazer uma coisa dessas..."
"Estás a ver a coisa, não estás? Enquanto os vários países da Europa ganhavam competitividade através da desvalorização das suas moedas, baixando assim salários disfarçadamente, a Alemanha ganhava competitividade através da redução directa dos salários. Os europeus em 306
geral, e em particular os Franceses, andavam doidos com isso, até porque os Alemães estavam a pôr a nu a incompetência da governação alheia. Os Franceses perceberam também que o banco central alemão, o Bundesbank, dispunha de imensas reservas e queriam usar a Comunidade Económica Europeia para lhes deitar a mão. Mas não conseguiam."
Levantou a mão, como se assim travasse o curso da história. "Até que, numa bela noite de 1989, o Muro de Berlim caiu."
A espanhola fez uma careta de incompreensão.
"O Muro de Berlim?", interrogou-se. "Que raio tem o Muro de Berlim a ver com esta história?"
"Foi a oportunidade que se abriu à concretização de uma aspiração alemã", disse Tomás. "Desde a Segunda Guerra Mundial que a Alemanha estava dividida em dois países, simbolicamente separados pelo Muro de Berlim. A queda do Muro abriu a possibilidade de os dois países se reunificarem. Qual o alemão que desdenharia a possibilidade de..."
"Tudo isso já eu sei", cortou ela com impaciência. "Mas qual a relevância desse acontecimento para a crise do euro? Isso é que eu não entendo."
"O problema é que a Grã-Bretanha e a França se opunham à unificação alemã, por recearem, e com fundamento, que o regresso da Grande Alemanha provocasse um desequilíbrio na Europa. Com a sua sólida produção industrial, os Alemães tornar-se-iam de novo arrogantes e ameaçadores. Uma coisa dessas era inaceitável."
"Bem... o facto é que a Alemanha se reunificou mesmo."
"Porque a França acabou por ceder", explicou Tomás.
"Mas só o fez em troca de uma cedência alemã."
"Cedência? Qual cedência?"
"A moeda única", revelou o historiador. "Os Franceses disseram aos Alemães: damos-vos a vossa reunificação se vocês nos derem o marco.
Queremos acesso às vastas reservas detidas pelo vosso Bundesbank, exigiram os Franceses. Temos de nos assegurar, acrescentaram eles, de 307
que, uma vez a Alemanha reunificada, ela não volta a ameaçar-nos. A moeda única será a maneira de o conseguir. É ela que vai atar a Alemanha ao resto da Europa."
Pela primeira vez em longos minutos, a espanhola acenou afirmativamente.
"Ah…estou a entender."
"Os Alemães aceitaram o negócio e, três anos depois da queda do Muro de Berlim, a União Europeia assinou o Tratado de Maastricht para criar a moeda única."
"O euro."
Ciente de que o demónio se esconde nos detalhes, Tomás mordeu o lábio inferior.
"Acontece que o trauma da hiper-inflação continuava presente na mente dos Alemães. Além do mais, as suas políticas monetárias mantiveram o desemprego baixo. Porque haveriam eles de pôr isso em perigo? Conhecedores dos excessos dos governantes dos seus parceiros europeus, e receando que os outros países da moeda única conduzissem as habituais políticas económicas eleitoralistas e catastróficas que acabassem por arrastar a Alemanha para o abismo, impuseram algumas condições para viabilizar todo o projecto. Como queriam estabilidade de preços a todo o custo, exigiram no tratado o estabelecimento de um Pacto de Estabilidade com alíneas a prever limites de três por cento do PIB no défice público e de sessenta por cento na dívida pública. Quem violasse estes limites seria automaticamente penalizado. Além do mais, perceberam que, uma vez debaixo do guarda-chuva do euro, muitos países poderiam pôr-se a esbanjar dinheiro dos contribuintes alemães e por isso obrigaram à inclusão de uma cláusula de no-bailout, ou seja, nenhum estado pagará a dívida de um outro que andou a gastar à tripa-forra. A outra coisa que impuseram foi a total independência do banco central, mais tarde designado Banco Central Europeu, com autoridade para imprimir dinheiro e um mandato que privilegiasse a estabilidade dos preços."
308
"Todos concordaram, claro."
Tomás esboçou um esgar.
"Por acaso, não. Os Franceses em particular achavam que o banco central não pode ser independente, ou seja, tem de estar às ordens dos políticos. Além do mais, opunham-se à ênfase no combate à inflação. O
mais importante para eles não era a estabilidade de preços, mas o crescimento económico. O confronto entre Franceses e Alemães foi brutal e parece que, numa reunião em Dublin, os ministros das Finanças dos dois países quase andaram à estalada."
A revelação provocou uma gargalhada da espanhola.
"Franceses e Alemães à estalada? Ay ay! E nós a julgarmos que eles são muito civilizados..."
"As aparências iludem, minha cara", sorriu Tomás. Deixou o momento passar e assumiu o semblante sério necessário para concluir a sua explicação. "Feitas as contas, os Alemães obtiveram quase tudo o que queriam."
"Quase?"
"Os Franceses conseguiram acrescentar ao mandato do Banco Central Europeu a obrigação de políticas de crescimento, e o Pacto de Estabilidade, por insistência francesa, tornou-se Pacto de Estabilidade e Crescimento."
"O famoso PEC."
"Isso. Outra coisa que os Franceses conseguiram, e que veio a revelar-se crucial, foi impedir o estabelecimento de sanções automáticas aos países que violassem os limites do défice e da dívida. Essas sanções foram substituídas por uma vaga ameaça de inquérito por parte da Comissão Europeia."
"Porque dizes que isso foi crucial?"
"Porque retirou eficácia aos limites do endividamento. Se uma criança gulosa for proibida de comer um bolo mas for informada de que, caso desobedeça, nada lhe acontecerá, O que achas que ela fará?"