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"Come o bolo, claro."

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"É por isso que a retirada da cláusula das sanções automáticas se revelou crucial. Sem ela, a imposição dos limites do défice e da dívida tornou-se um verbo de encher."

"Pois, tens razão."

"Ou seja, os compromissos políticos acabaram por derrotar os objectivos alemães de recriar totalmente no euro o perfil do marco", disse.

"Pior ainda, as medidas deixaram de ser coerentes entre elas e criaram buracos na arquitectura monetária europeia. Isso veio a ser uma debilidade crítica da moeda única num contexto de grandes dificuldades operacionais que se previam para o euro."

"Que dificuldades? Estás a falar da crise financeira?" Tomás abanou a cabeça.

"Isso foi depois", disse. "Repara, a existência de uma moeda tem sempre subjacente um estado centralizado. Portugal era um estado centralizado e tinha o escudo, a Espanha era outro estado centralizado e tinha a peseta. O desafio diante da União Europeia era, no entanto, criar uma moeda que não estava associada a um estado. Isso nunca tinha sido feito com sucesso."

"Também nunca tinha sido tentado..."

"Pelo contrário, foi tentado várias vezes na Europa e de diversas formas. No século XIX, por exemplo, a Itália, a Suíça, a França e a Bélgica criaram a União Monetária Latina, a que se juntaram depois outros países, incluindo a Espanha e a Grécia, e que fracassou. Também no século XIX falhou a União Monetária Escandinava. A própria União Europeia tinha feito duas tentativas, o Cobra e o ECU, que falharam igualmente. A verdade é que todas as uniões monetárias bem-sucedidas, como o dólar e outras, tinham como ponto em comum a existência de um governo central unificado com poderes para elaborar um orçamento comum, cobrar impostos, redistribuir riqueza pelas regiões e contrair dívida.

Além do mais, tem de haver mobilidade laborai. Se uma pessoa não consegue trabalho em Évora, vai para Lisboa e isso não é considerado 310

nenhuma tragédia. Se outra não consegue trabalho em Chicago, vai para Detroit. Acontece que nenhuma dessas condições existia ou existe na União Europeia. Não há estado central forte e a mobilidade laborai é risível."

"Então como queriam que o euro funcionasse?", espantou-se Raquel. "Por artes mágicas?"

"Quase", concordou o historiador. "Os políticos europeus, inebriados pela grandeza do projecto, confundiram a realidade com os seus desejos. Os mais lúcidos, por seu turno, sabiam que o euro não funcionaria sem unificação política europeia, mas acharam que a moeda única poderia, com o tempo, levar a essa unificação."

Ouviram um tilintar de porcelanas e viram uma mulher com farda de empregada aparecer no corredor do vagão com um carrinho cheio de pratos e garrafas. Ao sentir o aroma suculento da comida quente, Tomás pôs-se a seguir o carrinho com os olhos.

"Então?", quis saber Raquel. "Estás com fome?" "Claro. Vamos comer?"

"Só se prometeres contar o resto a seguir."

O português tinha tanta fome que já estava a salivar como o cão de Pavlov. Mesmo assim manteve o semblante impassível; desviou o olhar do carrinho para a sua companheira de viagem e sorriu.

"Daqui a pouco já vais perceber o futuro do euro."

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XLVIII

Havia já algum tempo que Magus abandonara o gabinete, chamado para resolver assuntos urgentes, e deixara os seus homens sozinhos a congeminar uma solução para o problema que lhes apresentara ao convocá-los. Ao fim de meia hora, no entanto, o chefe regressou ao local da reunião e assumiu o seu lugar à mesa.

"Então?", quis saber enquanto ajeitava o casaco. "Como é que vamos montar a armadilha aos nossos pombinhos?"

Os subordinados mantiveram a cabeça baixa e não se atreveram sequer a cruzar os olhares entre eles. Apenas Balam, e por dever da sua responsabilidade de chefe da segurança, se viu na obrigação de responder à pergunta.

"Estivemos a debater o assunto, poderoso Magus, e a verdade é que... enfim, não vai ser fácil. Eles não estão a usar os cartões de crédito nem a fazer telefonemas para amigos ou familiares que 312

tenhamos sob vigilância. Temos de esperar que..."

"Esperar o quê?", impacientou-se Magus. Fitou os seus homens com ar furioso. "Não há cá mais esperas! Temos de ser nós a tomar a iniciativa, entenderam? Não podemos estar aqui sujeitos a um golpe de sorte qualquer que pode nunca surgir."

Balam passou as costas da mão pela testa para limpar a transpiração que lhe germinava no couro cabeludo.

"Talvez se pusermos todas as polícias europeias de sobreaviso..."

O superior hierárquico cravou nele os olhos escuros e fez um grunhido sibilino.

"Só as polícias?", ironizou. "E porque não o exército também?

E, já agora, porque não decretar o estado de emergência em toda a União Europeia? Hã? Ou então convocar o Conselho de Segurança da ONU e aprovar uma resolução! Isso é que era!" Ergueu a voz.

"Decretar o estado de emergência e aprovar uma resolução porque vocês são absolutamente incompetentes para resolver este problema da treta!"

O sarcasmo não se perdeu na mesa. Os subordinados mantiveram-se calados e até Balam se encolheu.

"Era só uma ideia..."

"Uma ideia parva", cortou o chefe, recuperando a compostura.

Endireitou-se na poltrona e enlaçou os dedos uns nos outros. "O que devemos fazer é pôr-nos no lugar desse Tomás Noronha. Estive a consultar a sua lista de chamadas ao longo do ano e constatei que o nosso homem faz imensos telefonemas para o lar onde a mãe vive".

Esboçou um sorriso de escárnio. "Um menino da mamã, portanto."

A observação arrancou risos forçados ao longo da mesa; não havia quem não quisesse agradar ao chefe, sobretudo a meio de uma conversa tão tensa.

"Está em forma, poderoso Magus..."

O líder da organização sabia reconhecer a bajulação quando a 313

via; tinha consciência de que fora espirituoso, mas não dissera nada que justificasse tantas gargalhadas. Era o medo que os fazia curvarem-se.

"O que quero dizer é que por esta altura o nosso amiguinho deve andar em pulgas para ligar à sua rica mãezinha", disse, mais para si próprio do que para os seus homens. "Deve no entanto ter consciência de que estamos a vigiar o telefone da senhora, não é verdade?"

"Sim, poderoso Magus."

Não ligou ao assentimento colectivo que percorreu a sala. Os subordinados não passavam de uns yes men, umas baratas tontas que se limitavam a dizer sim a qualquer ideia que ele apresentasse, mesmo a mais disparatada. Parasitas, era o que eram.

"Se eu fosse esse Tomás Noronha, o que faria para falar com a mãe?" Deslizou os dedos pensativamente pelo mogno polido da mesa, imaginando-se no lugar da sua presa. "Se não pudesse telefonar-lhe.., se não pudesse telefonar-lhe..." Deteve a mão e levantou a cabeça, os olhos a faiscarem. "Já sei!"